Igreja dá uma virada diante dos abusos

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11 Fevereiro 2012

O Simpósio "Rumo à cura e à renovação", sobre os abusos sexuais cometidos pelo clero católico, organizado pela Pontifícia Universidade Gregoriana, com o amplo apoio do Vaticano, representa "uma virada copernicana" da Igreja, afirma o jornal espanhol El País, em editorial traduzido pelo Portal Uol, 11-02-2012.

Eis o texto.

Não são fáceis as mudanças em uma organização sólida e próspera com mais de 20 séculos de antiguidade, cuja diretoria é formada por um conselho de anciãos e cujo chefe máximo - na terra - só precisa prestar contas a Deus de suas decisões infalíveis. Talvez só assim se possa explicar a reação tardia e hesitante da Igreja Católica diante dos milhares de abusos contra menores cometidos por clérigos em todo o mundo. E talvez só assim se possa entender até que ponto o simpósio sobre essa questão, organizado pelo Vaticano e encerrado na quinta-feira (9) em Roma, representou uma virada copernicana em sua política.

Não só porque pela primeira vez - ao vivo, com luzes e taquígrafos - representantes de 110 conferências episcopais e superiores de 30 ordens tenham escutado de viva voz o testemunho de uma de "suas" vítimas, senão também porque a mensagem, rubricada com o selo papal, é nítida e contundente: "As vítimas são nossa prioridade. Os padres, ao juiz".

A Igreja pode estar calada há décadas - inclusive com um silêncio cúmplice -, mas quando fala o faz medindo muito bem a mensagem, os tempos, a cenografia. Desde segunda-feira até quinta, Roma foi a sede de um simpósio milimetricamente organizado pelo Vaticano através da Pontifícia Universidade Gregoriana, para lançar uma mensagem muito clara ao mundo cristão, resumida em três reflexões do papa e uma quarta pronunciada pelo bispo Charles Scicluna, promotor de justiça do Vaticano.

As frases de Bento XVI são: "A pederastia é uma tragédia. As vítimas têm de ser nossa preocupação prioritária. A Igreja precisa de uma profunda renovação". A quarta reflexão, do bispo Scicluna, é a consequência lógica das três anteriores e representa de fato um grande salto à frente: "É errôneo e injusto aplicar a lei do silêncio diante dos casos de pedofilia. O abuso sexual de menores não é só um delito canônico, mas também um delito perseguido pelo direito civil. Portanto, é essencial cooperar com as autoridades". O cardeal de Munique (Alemanha), Reinhard Marx, veio a dizer o mesmo no encerramento da cúpula, embora de outra maneira: "A legislação estatal não pode ser considerada uma ingerência nos assuntos da Igreja".

Qualquer pessoa com um mínimo de senso crítico pode responder que as avaliações antes expostas são um rosário de obviedades. É verdade. Mas são um rosário de obviedades que até há pouco tempo a Igreja tinha sepultadas sob as sete chaves dos olhos fechados, da negação, da estigmatização das vítimas, da proteção - quase criminosa - dos culpados... Ao levar em conta esses antecedentes é que o simpósio adquire valor. Não só pelo dito, senão pela forma de dizê-lo.

O encontro foi na realidade uma cerimônia em que, de forma pública, se representou o sacramento da penitência. O papa, em sua mensagem inaugural, trazia a necessária dose de arrependimento ao reconhecer a grande dívida da Igreja com as vítimas inocentes de seus pastores. Depois, os participantes conheceram o testemunho lastimável de Marie Collins, a irlandesa de 65 anos que quando tinha 13 e se encontrava só e doente em um hospital, foi agredida sexualmente por um capelão: "As mesmas mãos que abusavam de mim me davam a comunhão".

Suas palavras diante dos sacerdotes e bispos reunidos em Roma - para que ninguém mais no seio da Igreja possa dizer que nunca soube - foram dadas a conhecer imediatamente à opinião pública, em uma mensagem muito nítida de que se acabou o tempo do silêncio.

O testemunho de Collins - sua agressão, a forma como o sacerdote lhe inoculou a culpa, a estratégia da hierarquia para protegê-lo - representou de forma muito gráfica a atitude da Igreja durante décadas. Nestes dias a Igreja reconheceu diante de si e diante do mundo o mais feio de seus pecados.

A penitência imposta - mais de US$ 2 bilhões pagos em indenizações e uma névoa de suspeita que também envolve os inocentes - deverá desembocar agora em um eficaz propósito de emenda. Os participantes do simpósio, que pediram perdão publicamente às vítimas, terão de elaborar até meados de maio uma série de propostas para tentar enfrentar um problema cujas dimensões ainda não se conhecem. De fato, alguns representantes da cúria demonstraram preocupação pelo que possa estar acontecendo na Ásia ou na África, de onde praticamente não chegam denúncias.

Apesar do longo caminho a percorrer, o representante no simpósio do episcopado italiano, cardeal Lorenzo Ghizzoni, afirma que essas jornadas representaram "uma mudança de mentalidade" total: "A determinação de pôr em primeiro lugar as vítimas é uma verdadeira virada copernicana para a Igreja".

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