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Por: André | 24 Janeiro 2012

O aprofundamento da crise, com suas devastadoras consequências sociais, continua deslocando consolidados paradigmas interpretativos. Do que deriva não apenas a bancarrota da ciência econômica “mainstream”, mas também desafios inéditos para quantos continuaram praticando de maneira original durante estes anos a crítica da economia política. Em suma, cada vez se vê mais claramente a relação existente entre a categoria econômica e a categoria política.

Para iniciar a discussão no interior do sítio UniNomade fizemos cinco perguntas a Andrea Fumagalli, Christian Marazzi e Carlo Vercellone. Incluímos na sequência as respostas de Andrea e Christian em forma de diálogo. Carlos desenvolveu algumas reflexões sobre a totalidade dos temas propostos: podem ser lidas como conclusões.

As entrevistas são de Sandro Mezzadra e Toni Negri e estão publicadas no sítio italiano UniNomade, 10-01-2012. A tradução, feita a partir da versão em espanhol, é do Cepat.

Eis as entrevistas.

Vocês pensam realmente que não existe um líder latente, alguém que sugira como operar? Isto à margem de toda teoria do complô, mas simplesmente dentro da análise de cada mecanismo de decisão, que prevê momentos de unificação consciente e não simplesmente de concentração espontânea.

Andrea Fumagalli: As grandes empresas financeiras se comportam de uma maneira que poderíamos definir como de oligopólio colusivo. Seu objetivo é produzir mais valia. Nesta fase as maiores mais valias são extraíveis da mudança dos derivados CDS, sobretudo daqueles relacionados com o risco de default privado ou público. A natureza colusiva do oligopólio financeiro encontra-se garantida pela intermediação levada a cabo pelas empresas de rating. A partir da crise dos subprimes (no final de 2007) assistiu-se a um ulterior processo de concentração dos mercados financeiros.

Seguem alguns dados: se o PIB do mundo inteiro em 2010 foi de 74 trilhões de dólares, as finanças ultrapassam esta quantia: o mercado mundial de obrigações vale 95 trilhões de dólares. As bolsas de todo o mundo 50 trilhões e os derivados 466 trilhões. Em seu conjunto, os mercados movem uma riqueza oito vezes maior que aquela produzida em termos reais: indústria, agricultura, serviços. Tudo isso é evidente, mas o que se esquece muitas vezes é que esse processo, além de desviar o centro da valorização e da acumulação capitalista da produção material e imaterial e da exploração do trabalho manual e do conhecimento, deu origem a uma nova “acumulação originária” caracterizada por um elevado nível de concentração. No que se refere ao setor bancário, os dados da Reserva Federal informam que entre 1980 e 2005 foram realizadas cerca de 11.500 fusões, com uma média de 440 por ano. Reduzindo, portanto, a quantidade de bancos para menos de 7.500. Em 2011, cinco Sim (Sociedades de Intermediação Imobiliária e divisões bancárias (J.P Morgan, Bank of America, Citybank, Goldman Sachs, HSBC USA) e cinco bancos (Deutsche Bank, Ubs, Credit Suisse, Citycorp-Merrill Linch, Bnp-Paribas) assumiram o controle de mais de 90% dos títulos derivados. No mercado acionário, as estratégias de fusão e de aquisição reduziram amplamente a quantidade de sociedades cotizadoras. Atualmente, as primeiras 10 sociedades com maior capitalização bursátil, equivalente a 0,12% das 7.800 sociedades registradas, detêm 41% do valor total, 47% dos benefícios e 55% das mais valias registradas. Nestes processos de concentração, o papel principal é desempenhado pelos investidores institucionais (termo que designa os operadores financeiros – desde o Sim aos bancos, às seguradoras – que manejam por conta de terceiros os investimentos financeiros: são aqueles que nos anos 30 Keynes definia como “especuladores profissionais”). Hoje, sempre segundo os dados da Reserva Federal, os investidores institucionais manejam títulos de um valor nominal equivalente a 39 bilhões, 88,4% do total com um aumento 20 vezes maior com relação há 20 anos. Além disso, este número aumentou no último ano graças à difusão dos títulos da dívida soberana.

Não creio que haja alguém que aconselhe seguir as estratégias dos administradores das grandes sociedades financeiras, menos ainda algum “político”. Como explicarei mais adiante, o poder econômico-político encontra-se em suas mãos e podem exercê-lo sem que seja necessário que alguém o sugira. O estímulo, como sempre no capitalismo, encontra-se no lucro e na riqueza, à margem de qualquer comportamento “sopra le righe”. O problema não é a sede de lucros dos mercados financeiros, mas antes daqueles que funcionam como seus vassalos e súditos.

Christian Marazzi: Vai que existe a “liderança latente”! Como bem sintetizaram Andrea Fumagalli e Carlo Vercellone, a liderança dos mercados reside na fenomenal concentração do capital industrial-financeiro que foi se criando nos últimos anos sobre a falsidade do “stop-and-go” da financeirização. Bancos de investimentos, empresas multinacionais, hedge funds, fundos institucionais e fundos de pensão constituem seu coração: são eles os que “criam o mercado”, que orientam as fases especulativas “normalizando” o que Keynes chamava de “conveniências”, como a convenção latino-americana, a internetiana, a dos subprimes e, depois, a das dívidas soberanas. O ataque ao euro foi decidido em fevereiro de 2010 em Nova York por um grupo de fundos especulativos, para dar um exemplo recente. Luciano Gallino, em seu livro Finanzcapitalismo, quantificou, além disso, caso não me engano, em 10 milhões “os homens que contam no mundo”. Do ponto de vista da pirâmide do poder, os lobbies que contam, porque eles, além dos altos níveis do G-20, do FMI, da União Europeia e do Banco Central Europeu, agem no interior dos Estados-nação, articulando em escala local as diretrizes do capitalismo financeiro. O que me parece, contudo, mais importante é o seguinte: a “liderança latente” existe, mas não sempre. O poder financeiro cria certamente o “mood do mercado”, define por assim dizer a marcha normal da fase de acumulação, a fase central da curva de Gauss durante a qual os investidores se movem mimeticamente, gregariamente, segundo o princípio (precisamente) das convenções historicamente determinadas. Mas nas fases de pânico na fila da curva gaussiana, quando aparecem os cisnes negros de Taleb, a liderança entra necessariamente em crise, se convulsiona com o imprevisto e o imprevisível. Os cisnes negros não são necessariamente as crises financeiras, implícitas e cíclicas na teoria da instabilidade financeira de Minski. São antes os eventos sociais e políticos que escapam a qualquer modelização político-financeira. Quando se instala o pânico, também a liderança fica deslocada. Um aspecto que, ao menos para mim, não existe ainda com suficiente clareza teórica, é a origem das convenções. Por exemplo, eu não creio na espontaneidade da formação das convenções dos teóricos da “finança auto-referencial”, em particular de André Orléan, que está entre os que melhor explicaram o funcionamento dos mercados financeiros. Creio que as convenções são convenientemente determinadas, tendo em conta toda uma série de fatores estratégicos (além, obviamente, das oportunidades de lucro), entre os quais os desequilíbrios macroeconômicos e geopolíticos, as configurações monetárias (as diferenças, por exemplo, entre o FED e o BCE não são ninharias, assim como o fato de que existem países com superávit e países com déficit), etc.

Muitos analistas políticos pensam que os mercados arruinaram nos Estados sua capacidade de centralização e que portanto a ação dos Estados não é simplesmente uma ação soberana, mas uma ação soberana supradeterminada por um acúmulo de interesses financeiros. A fase de refinanciamento dos bancos por parte dos Estados que se seguiu a 2008 terminaria com uma ulterior sujeição dos poderes soberanos aos interesses dos mercados. Como funciona tudo isso na crise atual?

Andrea Fumagalli: O fato de que a crise dos subprimes não tenha levado ao colapso os mercados financeiros se deveu ao fato de que se passou do endividamento privado (causa da crise de 2007) ao público (causa da crise atual), que se somou à privada. Os dados sobre a dívida pública bruta e seus componentes (apenas em relação à Europa deve ser atualizada) mostram que no biênio 2008/2009 a dívida nacional bruta (pública e privada) aumentou em dois anos de 382% do PIB para 443% (+ de 8% ao ano) contra um aumento de 5% ao ano no período 1995-2007. O endividamento privado aumentou uma média de 8% anual enquanto que o público quase 14% anual, depois de ter caído na década precedente. Em relação ao setor privado, o endividamento maior está na Irlanda, Holanda, Dinamarca e Grã-Bretanha. A situação do endividamento público é inversa: os países com menor endividamento privado (Itália, Grécia e Bélgica) são os que têm maior endividamento público. Posto que o endividamento público é inferior, como parte do PIB, ao privado é possível que Grécia, Itália e Bélgica possam suportar melhor o risco de default do que a Grã-Bretanha ou a Dinamarca (e, portanto, seriam mais apetecíveis, como galinhas capazes de pôr ovos de ouro, sem o risco de serem estranguladas). Cabe recordar também que a Grã-Bretanha e a Dinamarca, ao contrário da Grécia e da Itália, gozam do direito de senhorio. Um caso particular é a Irlanda que tem uma elevadíssima dívida privada e que viu quase quadruplicar-se a relação dívida/PIB no biênio 2008/2009.

Partindo desta situação, as políticas impostas em nível europeu foram dirigidas para obter dois objetivos: a) criar liquidez a fundo perdido para o sistema financeiro para evitar o efeito dominó das quebras financeiras, e b) uma vez provista a liquidez graças ao endividamento público, impedir que tal endividamento ultrapasse certo patamar crítico, definido pelas expectativas da oligarquia financeira. A especulação não golpeou os países com maior risco de quebra, como, por exemplo, os Estados Unidos (que viram sua própria relação dívida/PIB passar dos 60% em 2007 para 105% no final de 2011, diante de uma elevada dívida privada e também uma elevada dívida externa), a Grã-Bretanha e a Dinamarca, aqueles que não podem gozar do direito de senhorio e que são estrategicamente menos relevantes dentro do paradigma tecnológico e de valorização dominante no âmbito do atual biocapitalismo cognitivo.

O quadro descrito reforça a dependência dos Estados da lógica financeira administrada pela oligarquia financeira. Não é uma novidade. Desde 1994 as instituições político-monetárias (Estados, Bancos Centrais) compreenderam que a existência de uma convenção financeira é muito mais poderosa do que qualquer outra estratégia política que não seja cúmplice. Nessa época, 1994, foi a sublevação de Chiapas que abriu o caminho para a retirada dos fundos de investimento do México (considerados não totalmente seguros) para os mercados financeiros da Ásia oriental (Tailândia, in primis). Apesar do esforço conjunto da Reserva Federal e do Banco Mundial não foi possível evitar a desvalorização do peso mexicano e a postergação da assinatura do Nafta (1º de janeiro de 1994). Compreendeu-se pela primeira vez que a política financeira privada é mais poderosa que a política monetária pública (mesmo a dos Estados Unidos). Desde então as decisões sobre políticas monetárias dependem da dinâmica das convenções financeiras. Perdeu-se em consequência a autonomia dos Bancos Centrais, em momentos em que esta autonomia estava fazendo parte da teoria do pensamento neoliberal. Isso levou à autonomia “política” dos Bancos Centrais dos países em declínio, reforçando deste modo a dependência dos mercados financeiros. Nasce a governança financeira.

O que é novo atualmente é que essa governança está em condições de escolher diretamente os líderes políticos a serem colocados no governo. A governança financeira converteu-se em ditadura. Os cientistas políticos e juristas deveriam, talvez, dizer algo a este respeito.

Christian Marazzi: Como funciona a soberania supradeterminada? Pode-se dizer simplesmente, com chantagem. É um fato que a crise do sistema bancário-financeiro foi administrada pelos Estados com injeções de enormes quantidades de liquidez e com a recuperação por parte dos Bancos Centrais de uma boa quantidade de títulos tóxicos, que agora têm em seu seio e que todos nós devemos “validar” com os impostos fiscais sobre os benefícios. Entretanto, para libertar-se das ingerências políticas, os bancos beneficiários da ajuda pública devolveram grande parte do dinheiro recebido no momento da crise. E agora estão em posição de ditar leis, deste modo seu poder aumentou, tanto que as medidas de intervenção do BCE estão sistematicamente orientadas a sustentar o sistema bancário (à custa dos países membros da UE), assim como a política do “quantitative easing” da Reserva Federal e do Banco da Inglaterra. Contudo, parece que estas medidas de criação de liquidez não parecem funcionar, tanto é assim que se fala, particularmente com referência à Europa, da grande “armadilha da liquidez”, situação na qual a injeção de liquidez não gera recuperação por causa da desconfiança dos empreendedores e dos consumidores (e também por causa das altas taxas de juro pretendidas por seus bancos comerciais). Em suma, a crise não resolveu os problemas que originaram a crise. Nada foi feito do ponto de vista da re-regulamentação do sistema bancário (porque o lobby bancário mundial conseguiu tornar vã toda veleidade neste sentido); por conseguinte, os desequilíbrios fundamentais que desembocaram na crise continuam socavando impassíveis. A soberania delegada, por assim dizer, é a expressão de uma situação na qual tão grande é o poder financeiro que as medidas de reativação da economia são impotentes. E nessa delegação quem está com pressa é a crise.

Na última fase muitos comentaristas sustentam que alguns governos, entre eles o italiano e o espanhol, correm o risco de ser golpeados no terreno das negociações sobre a dívida, muito mais eficazmente que antes e, portanto, da introdução de uma dimensão política outra que é irrelevante na gestão da crise. Pensam que estamos diante de uma tendência que pode incluir com sucesso os governos europeus uma vez eliminada Inglaterra do maço? Conseguirá o euro manter unida a União Europeia ou devemos pensar em uma Europa que se mantém como um edifício gótico, remodelando uma ordem variada e variável?

Andrea Fumagalli: No começo de dezembro, o CEO do Deutsche Bank, Ackermann, declarou que sua instituição aumentaria a aquisição de Btp italianos passando de dois bilhões para 2,3 bilhões. Lembro que o Deutsche Bank havia induzido expectativas negativas em relação aos Btp italianos no começo de 2011, vendendo sete dos oito bilhões que tinha em sua carteira e desencadeando a crise italiana. A declaração de Ackermann foi o sinal de que se podia alentar a pressão especulativa sobre a Itália. Isto aconteceu depois da chegada de Monti ao poder. Uma situação análoga (mas de maior envergadura) se produziu na Espanha, onde as eleições políticas com a vitória da centro-direita (que deverá agora demonstrar que é tão confiável que não necessita de nenhum comissariado como aconteceu com Berlusconi na Itália). Por outro lado, foi importante a decisão de Draghi de proporcionar empréstimos ilimitados ao sistema bancário, com o objetivo de favorecer a capitalização dos bancos. Todavia não diminuiu a instabilidade e no que se refere à Itália, o spread é ainda alto, mas creio que por diferentes razões desde os tempos de Berlusconi: em primeiro lugar porque se aproximam tempos de recessão a uma velocidade maior que a prevista não apenas na Europa, mas no mundo; em segundo lugar, porque será preciso ver quais serão as reformas que se fizerem no mercado de trabalho e está posto a questão da privatização da saúde (as pensões já foram modificadas). Lembro (bastante) que quanto mais liberdade para os demitidos, mais privatização da saúde e dos serviços públicos, mais aumenta o papel dos mercados financeiros como garantidores sociais privados e mais se ampliam os mercados financeiros. Pessoalmente, não creio – ao contrário de Christian – que o euro irá implodir, e isso por dois motivos: 1) não creio que convenha à Alemanha a menos que a situação política internacional mude repentinamente (está por se ver o que acontece com o Irã: os Estados Unidos vão se retirar de Bagdá para estar disponíveis para ir ao Irã? Ou pedirão a intervenção conjunta europeia, depois de tê-la provado na Líbia, mas desta vez fundada talvez no eixo franco-alemão?); 2) Também não convém aos grandes mercados financeiros porque enquanto existir um duplo nível de governança – monetário e fiscal – festa de casamento!

Christian Marazzi: Não me parece que a Itália e a Espanha estejam atravessando um período de fortalecimento do poder de negociação da dívida. De modo que o patético eixo Monti-Sarkozy me parece afã. A situação da dívida está piorando, e a reivindicação dos eurobônus ou da Taxa Tobin não têm nenhuma chance de sucesso. Estou convencido de que será precisamente a Itália (e a Espanha) que fará saltar a Eurolândia como resultado final da “síndrome grega”, ou seja, da espiral recessão-aumento da dívida – corte dos gastos públicos-recessão-nova austeridade. Já entramos na recessão e estamos próximos da depressão.

Os Estados Unidos nunca quiseram a Europa política e muito menos o euro. Às vezes me passa pela mente que um velho reflexo unilateralista tenha agido no interior dos chamados mercados financeiros no ataque ao euro. É imaginável, mutatis mutandi, um revival imperialista, organizado em torno da defesa da hegemonia do dólar na desordem global?

Andrea Fumagalli: Não, não creio. Os únicos que teriam interesse na implosão do euro seriam os Estados Unidos para sancionar não apenas de forma política, mas também econômico-financeira a relação bilateral com a China: uma espécie de “império” bipolar. Mas os Estados Unidos não dispõem de força militar nem de força política, nem de força econômica para sustentar políticas imperialistas. Também eles são submissos à governança financeira global. Nos últimos meses, os fundos chineses aumentaram em proporção aos intercâmbios totais. Será preciso monitorar as eleições financeiras chinesas. Até agora, os fundos financeiros chineses são administrados pelas 10 irmãs do mercado financeiro, mas até quando? Tenho lido no Financial Times de alguns dias atrás que a China está por legalizar a venda de títulos financeiros a descoberto autorizando a especulação puramente financeira. Com que proveito? Para começar a participar do Gotha dos mercados financeiros e para tratar de controlá-los? Caso fosse assim, a liderança do dólar correria sérios riscos...

Christian Marazzi: Não excluo, pelo contrário, que na fase inicial da crise do euro não tenha estado a patinha dos Estados Unidos através dos grandes bancos de investimentos e dos hedge funds. Demolir o euro era funcional em função do objetivo de colocar na sombra o problema norte-americano do enorme déficit-dívida pública, assim como também o comercial. Portanto, demolir o euro significava eliminar um potencial competidor e favorecer a continuidade do fluxo de capitais para permitir o financiamento da dívida norte-americana a taxas muito baixas. A estratégia obteve um êxito superior às expectativas e agora os Estados Unidos estão preocupados com as consequências econômicas e financeiras da crise da Eurolândia, que poderiam provocar uma forte desestabilização do sistema bancário norte-americano e também pelas consequências políticas, porque a fenda no euro poderia tornar a Alemanha e parte da Europa independente dos Estados Unidos fortalecendo o eixo estratégico com a Rússia e a China. Um revival imperialista ao redor da hegemonia do dólar não parece possível, embora de todos os modos o dólar esteja se fortalecendo em consequência da crise da Eurolândia (fuga de capitais do euro, exatamente para o dólar).

Posta em evidência a hegemonia do capital financeiro como forma de produção, na atual crise financeira joga de algum modo (e como) a relação entre finanças e produção industrial, com referência, por exemplo, à Alemanha e à China?

Andrea Fumagalli: Esta pergunta precisaria de tempo... A relação entre finanças e produção real não está referida à produção industrial, mas antes à produção imaterial. O ponto nodal depois da queda de Breton Woods está na definição da unidade de medida do valor da produção imaterial, ou seja, do general intellect. No momento isso é instável, definido pela valorização financeira, mas essa medida é precisamente – estruturalmente – muito instável para poder ser considerada “fixa”. Aqui entram em jogo os excedentes das multidões de vida e de trabalho. Como os zapatistas em 1994 puseram em crise o Nafta, assim hoje, potencialmente – os movimentos desde a primavera árabe até os “Ocupa xxx” –, podem incidir na definição dessa medida, que não é outra coisa que a medida da vida posta em valor, o incomensurável que trata de ser convertido em “mensurável”.

Christian Marazzi: Se a Alemanha não se submete ao diktat das finanças internacionais é porque o poder da indústria ainda não foi sufocado pelas finanças. Na Alemanha é a indústria que manda – na China acontece o mesmo ao menos por enquanto: a China teve a inteligência de se auto-excluir das finanças globais. Certamente não há liberdade para o movimento de capitais: um estrangeiro não pode investir na bolsa de Shangai, nem tampouco um chinês pode investir nas praças europeias ou norte-americanas. De modo que as relações da China com o resto do mundo são econômicas, comerciais e políticas, ao passo que as financeiras são administradas diretamente pelo governo de Pequim. O paradigma do livre mercado (financeiro) ainda não chegou lá.

Carlo Vercellone: Suas perguntas tocam alguns pontos cruciais. A primeira e a última, configuram particularmente um verdadeiro programa de pesquisa que necessitaria ao menos de um seminário ad hoc. Tratar de dar por escrito uma resposta um pouco estruturada necessitaria um pouco mais de tempo para refletir e para reunir material empírico. Portanto, me limitarei, no momento, a tratar de proporcionar de maneira muito sintética algumas pistas para refletir, partindo da questão relativa à organização dos mercados como fio condutor.

O termo mercados financeiros, que parece referir-se a uma lógica anônima conformada por uma miríade de sujeitos sem coordenação entre si, é, na minha opinião, equivocado ou ao menos fortemente inexato. A organização dos chamados mercados financeiros, um de cujos componentes centrais são as grandes multinacionais que operam na esfera da produção (frente a toda suposta dicotomia entre esfera financeira e esfera produtiva), encontra-se com efeito fortemente concentrada no que se refere às estruturas proprietárias, que, sobretudo, são estruturas de controle. Sobre este tema, um recente e inovador artigo de três pesquisadores (Vitali, Glatfelder e Battiston) do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, “Le réseau de contrôle global des grandes entreprises” (The Network of Global Corporate control), permitiu evidenciar a extrema centralização do poder do capital em escala global.

Segundo esta pesquisa, “as multinacionais (transnational corporations ou TNCs) formam uma estrutura de nó-borboleta gigante e grande parte do controle é drenado para um núcleo fechado de instituições financeiras. Esse núcleo ou coração pode ser considerado como uma ‘super-entidade-econômica’, cuja existência gera novas e importantes perguntas tanto para os pesquisadores como para os órgãos que elaboram políticas (policy makers)”. Mais especificamente, sobre o conjunto de 43.060 empresas multinacionais (IM) estima-se que 147 IM possuem, através de um complexo cruzamento de relações proprietárias, 40% do valor econômico e financeiro das mencionadas 43.060 IM. Comprova-se, além disso, que no interior deste conglomerado de 147 IM é possível identificar o eixo central do capitalismo global formado por 50 super entidades, representadas essencialmente (cerca de 64%) por grandes instituições financeiras norte-americanas e britânicas. É de se destacar a escassa representação dos grandes grupos da zona do euro (cerca de 20%), embora a França, com a AXA (se encontra em 4ª posição entre as 50 top), e a Alemanha, com o Deutsche Bank (em 12ª posição), se encontrem por assim dizer no coração do coração. Outro aspecto importante: deste grupo dos 50 top só faz parte no momento uma única grande IM chinesa do setor da petroquímica (situada na última posição), embora este dado subestime certamente a forma como a China, como sabemos, está construindo seu próprio poder financeiro através de um caminho político diferente da pura e simples integração ao capital global.

Comprovamos que outros dados confirmam esta extrema concentração de poder econômico e financeiro do capital, como, por exemplo, o fato de que dois terços dos famosos CDS estão nas mãos de menos de 10 atores. Tendo em conta estes dados, é possível tratar de desenvolver uma rápida hipótese em resposta às suas perguntas.

1) O poder do capital está ao mesmo tempo centralizado e articulado em escala global que se apóia em uma rede financeira estreitamente interconectada. Neste contexto, uma restrita quantidade de grandes grupos financeiros e de IM toma as principais decisões relacionadas à especulação sobre as dívidas soberanas, sobre as matérias-primas, a habitação, a reestruturação e a localização das grandes empresas produtivas, a orientação das políticas econômicas. Poder-se-ia falar de uma organização de tipo oligopóligo (mas sempre solidária e sempre disposta a constituir-se em capital coletivo em momentos chaves) do qual partem os impulsos estratégicos iniciais, que encontra seu relevo na lógica mimética dos mercados e imediatamente é convalidado (na maioria dos casos) pelos outros operadores financeiros dando lugar a um processo de auto-validação das “antecipações”. Neste sentido, me parece possível conciliar e articular a hipótese de uma liderança latente com a clássica descrição da marca keynesiana da “psicologia dos mercados”, fundada em comportamentos miméticos.

2) Esta extrema interconexão torna ainda fortemente sensível e vulnerável o risco sistemático e a lógica do endividamento do qual se nutre a acumulação do capital, no centro mesmo do capital financeiro.

3) Os Estados aparecem cada vez mais como simples substitutos dos interesses do capital financeiro globalizado. Todavia, segundo a minha opinião, esta subordinação depende não apenas dos fatores econômicos objetivos, mas da mutação antropológica da classe política e tecnocrática que conduz os Estados e as principais instituições de política econômica e monetária que os converteu em verdadeiros e próprios funcionários da renda do capital. Esta situação é tanto mais certa na Europa onde, por razões históricas que remontam em grande parte à específica dinâmica da luta de classes que a atravessou durante a crise do fordismo, se assistiu a uma verdadeira e própria constitucionalização do poder da renda particularmente encarnada no estatuto da chamada independência do BCE.

4) O resultado é que na zona do euro os Estados se encontram privados da existência de um prestatário de última instância e dependem dos mercados para o seu financiamento. Deste modo foi possível se instalar o governo da renda através da dívida soberana, um governo já explícito que dita as políticas econômicas de austeridade e de expropriação das instituições do Welfare State. Todavia e ainda neste caso (como no da crise dos subprimes), a dívida, de instrumento essencial da acumulação de capital, corre o risco de se transformar em seu principal limite. Um problema central desde este ponto de vista é que em razão da própria ausência deste papel clássico de garante do Banco Central os títulos da dívida pública perdem seu caráter de refúgios seguros e se convertem em certo sentido em títulos como os demais, cujo “valor de mercado” se desvaloriza segundo os balanços dos bancos e das instituições financeiras.

A lógica predatória e especulativa do capital financeiro globalizado e o pânico dos mercados podem se reforçar mutuamente em uma situação que eu creio ser sem saída, salvo que se produza uma inversão radical de sentido na política do BCE. Algo que me parece altamente improvável, como mostram as últimas medidas do BCE, que uma vez mais inundou de liquidez sem contrapartida o sistema bancário, rechaçando ao mesmo tempo monetizar no mercado primário as necessidades financeiras dos Estados. Neste cenário, a recessão, que inevitavelmente será provoca pelas políticas de austeridade, reabrindo a espiral do déficit e agravando a relação dívida/PIB, dará razão às efêmeras ilusões suscitadas pelo governo de Monti, assim como também as do espanhol.

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