Deus e Hitchens na terra do sol

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21 Janeiro 2012

Gunter Axt, historiador, autor de “Gênese do Estado Moderno no Rio Grande do Sul” (Leitura XXI, 2011) que recepcionou polêmico escritor britânico na passagem por Porto Alegre em 2007 relembra um instigante diálogo sobre o significado de crenças e práticas religiosas, em artigo publicado no jornal Zero Hora, 21-01-2012.

Eis o artigo.

O grande polemista britânico Christopher Hitchens, morto em 15 de dezembro, desprezava obituários sanitarizados. Lamentou não poder sobreviver às mortes de Henry Kissinger e Bento XVI para torpedeá-los sem clemência. Tripudiou sobre os editores do The New York Times quando do obituário tépido do odiado político racista Earl Buz.

Numa pousada, em Paraty, em 2006, passeava de meias brancas, no café da manhã, com um transbordante copo de uísque caubói na mão. Na cidade, participou de sessão com Fernando Gabeira. Ambos vinham da esquerda, de cuja versão doutrinária se apartaram.

Hitchens insurgiu-se contra a timidez com que a esquerda europeia reagira em 1989 à sentença de morte do regime iraniano a Salman Rushdie. Desde então, rompera ruidosamente com velhos camaradas, como Noam Chomsky e Tariq Ali, e investira contra celebridades, como Madre Teresa de Calcutá, Lady Di, Bill Clinton e, finalmente, Deus.

Ele militara contra a Guerra do Vietnã, mas surpreendera em 2003 ao celebrar a invasão do Iraque. Os neocons de Bush não poderiam ter sonhado com melhor garoto-propaganda. Desde o 11 de Setembro, obcecara-se pela ameaça de um islamo-fascismo, parecendo absorver a frágil, mas mobilizadora, lógica do choque das civilizações de Samuel Huntington. Garantiu que as provas da existência das armas de destruição em massa ainda apareceriam e achava que o custo em milhares de vidas e em dólares tinha valido a pena.

Em 1982, rompera com o socialismo ao apoiar a Grã-Bretanha no conflito com a Argentina pelas Ilhas Malvinas, pois esperava que os ingleses depusessem o ditador Leopoldo Galtieri. Nos anos 1990, alertou para a iminência de um genocídio na Bósnia pelo menos um ano antes de Srebrenica, clamando por uma intervenção militar que só chegou depois da morte de 200 mil pessoas. Mas, com o Iraque, se equivocou.

Considerando a amplitude de sua voz, Hitchens tinha sangue nas mãos e se regozijou com isso em alguns artigos, o que vem sendo minimizado por conta de sua posição de destaque no establishment da mídia global. Errar é humano, mas insistir no erro, apesar de todas as evidências, é, na melhor das hipóteses, burrice.

Informado do envolvimento de Gabeira (que, naturalmente, se opunha à Guerra do Iraque) no sequestro do embaixador americano, em 1969, atacou-o (“Mantemos salas especiais para terroristas em nossos aeroportos”), traduzindo, com malícia, arrogância imperialista e intolerância com a divergência. Diante da reação de repulsa da plateia lotada, vacilou. Em sua primeira visita ao Brasil, investia contra um dos políticos mais respeitados por seu compromisso com a ética e com a liberdade. De volta aos Estados Unidos, pareceu retratar-se. Disse apreciar apenas dois ex-terroristas, sendo um deles Gabeira. Ficou a impressão de ser capaz de sustentar posições com veemência, mesmo sem conhecimento do contexto.

No ano seguinte, Hitch veio conferenciar em Porto Alegre. Olhos azuis faiscando num rosto bonito, embora algo inchado. Atendeu a todos com gentileza. Encantou-se com os jacarandás floridos e, pouco antes da fala, quis dar uma esticada na Redenção.

No Salão de Atos da UFRGS, engolfou o ambiente com movimentos lânguidos e voz aveludada, timbrada em inconfundível sotaque britânico. Era um virtuose. Pausava e acentuava com elegância, magnetizando a audiência. Expôs o argumento central do best-seller recém-lançado Deus Não É Grande. A encruzilhada entre fé e razão seria a mais importante questão hodierna. A religião não só não teria função prática que não pudesse ser substituída, como a sua presença a tudo envenenaria. Propôs um ateísmo radical para combater o domínio da ilusão e emancipar o ser humano, afirmando-se como paladino de um Iluminismo renovado.

Terminada a sessão, trocamos impressões. Por que repelir a chance de uma razão lúdica, tal qual a imaginada por São Tomás de Aquino e revisitada em autores diversos como Heidegger e Maffesoli? Aquino lhe parecia um místico, e a religião surgiu como explicação antes do advento da ciência, depois da qual se tornou descartável e inconveniente. O mundo, acreditava, estava retroagindo com o irracionalismo místico. Talvez fosse, objetei-lhe, desdobramento de um estresse coletivo causado pelo excesso de materialismo, lembrando o que Stefan Zweig escrevera no prefácio de Brasil, País do Futuro; e, ainda, que Zygmunt Bauman interpretara o Holocausto como um drama de toda a humanidade, e não apenas dos judeus, justamente por esse horror ser cria em escala industrial do padrão racional modernista. O impulso para o religioso, insistiu, estava na origem do totalitarismo, cuja versão mais acabada seria a indistinção entre espaço público e privado por conta da afirmação de um panóptico de autoridade e vigilância.

Mas o Iluminismo não necessariamente vivia em choque com o religioso, podendo emergir da própria ambiência espiritual, retruquei, invocando a generosidade precursora do jesuíta Antônio Vieira para com índios e judeus no Brasil do século XVII. Para quem se acostumou a perceber o Iluminismo como apanágio do século XVIII francês e anglo-saxão, creio ter lhe parecido insólito. Disposto a enquadrar logo o debate com uma questão de efeito, desafiou-me a citar uma religião que não se valera do divino para justificar a dominação sobre a mulher e que não diluíra o indivíduo num arcabouço moral aplastante.

Deslocando o fulcro do monoteísmo para o sincretismo, registrei serem mulheres ou gays parte razoável dos sacerdotes nas religiões afro-brasileiras. Hitch associou-as à santería cubana, num tom que indicava considerá-las no plano das superstições banidas da Europa com o extermínio das bruxas durante a Idade Média. Bizarro, pensei, pois tal conceito não estaria a sugerir uma vitória definitiva, sobre mentes ilustradas, da Inquisição, talvez a mais totalitária das manifestações monoteístas? Terminaria aí o propalado cosmopolitismo de Hitch?

Expliquei-lhe guardar o sincretismo afro-brasileiro parentesco distante com a santería, pois reconfigurara elementos de diversas tradições africanas, combinando-se com o catolicismo popular, a pajelança indígena, o espiritismo kardecista e até o budismo. Crença dinâmica e diversificada, tinha razoável grau de visibilidade. Ademais, se o totalitarismo moral generalizante tanto o incomodava, por que considerar como primitivas crenças incapazes de universalismos, nas quais a noção de pecado é fluida, o paraíso e o inferno se realizam no aqui e agora – religiões, enfim, que aceitam o mundo como ele é e as pessoas como elas são, propugnando a satisfação dos desejos individuais no presente, mais ou menos como propunham os estoicos? De resto, para quem convoca nos gregos antigos a origem dos cânones ocidentais, como ignorar acharem natural os criadores da filosofia crítica combinar o exercício da lógica com oferendas, inclusive sacrificiais, a suas divindades, como, aliás, o próprio Sócrates recomendou a um discípulo?

Para quem se propunha a discutir o divino, Hitch transitava mal pela história comparada das religiões. A evidência antropológica da realidade brasileira desmontava seu libelo ateísta.

Agradava-me em Hitchens o jeito boêmio e a irredutibilidade às proibições sanitárias da contemporaneidade. Privar com ele à mesa era um privilégio. A prosa elegante e a oratória magnética farão falta num mundo no qual tais virtudes se esfumaçam. Sua coragem em minar consensos era essencial na corrosão de hegemonias pasteurizadas. Originário das humanidades, ter-se erigido em popstar manteve de certo modo viva a chama de Sartre na atualidade fragmentada.

Mas sua virulência figadal era já antiquada num mundo onde cada vez mais se espera dos intelectuais a construção de pontes. Certa compulsão para a polêmica fácil sugeria oportunismo, talvez explicitado em seu trânsito notório por salões engalanados de Washington. Suas contradições, ao contrário de arrefecer face às qualidades, são matizadas pela voz amplificada. De resto, um problema recorrente com oradores espetaculares é a diluição de uma obra atada ao momento. Grandes intelectuais se debruçam sobre o passado, a partir de impasses do presente, tentando escrever para o futuro, pois seu maior e mais ingrato desafio é a permanência.

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