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21 Janeiro 2012

Os norte-americanos não hesitarão em ver no discurso do papa aos bispos dos Estados Unidos um ataque contra o governo Obama, no início de um ano eleitoral em que os católicos serão, mais uma vez, o voto de equilíbrio entre republicanos e democratas.

A opinião é de Massimo Faggioli, doutor em história da religião e professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em Minneapolis-St. Paul, nos EUA. O artigo foi publicado no jornal Europa, 20-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Na fase crucial das primárias, com o front-runner mórmon Romney seguido de perto pelos social conservatives divididos entre os dois candidatos católicos Gingrich e Santorum, o Papa Bento XVI dirigiu um discurso de rara dureza aos bispos dos Estados Unidos em visita ad limina.

O papa lembrou a especificidade do papel da religião e da liberdade religiosa nos EUA, fundado em um "consenso moral" em torno do reconhecimento do valor da "lei natural". Essa lei natural sempre garantiu aos EUA não só a liberdade religiosa, mas também a liberdade de consciência, em um ambiente histórico-cultural que se movia no quadro daqueles que o papa define como "os valores judaico-cristãos".

Tudo isso está sob ataque, afirma o papa, por causa de forças culturais que buscam enterrar não só esse consenso moral e os valores judaico-cristãos, mas também a própria liberdade religiosa e a liberdade de consciência. "O secularismo radical" e "o individualismo extremo" tendem a subverter esse consenso sobre a lei natural, tentando advogar novos direitos, como os ao aborto e ao casamento homossexual, que o papa contrapõe aos "autênticos direitos humanos".

O discurso do papa foi escrito por quem conhece muito bem a situação do catolicismo norte-americano, a ponto de usar palavras-chave que remontam ao vocabulário do "constitucionalismo católico norte-americano" do jesuíta John Courtney Murray (aquele que contribuiu para resgatar politicamente o catolicismo norte-americano, para eleger John F. Kennedy e que, por isso, ganhou a célebre foto na capa da Time do dia 12 de dezembro de 1960).

As questões de fundo que agitam a relação entre Igreja norte-americana e cultura política no início do século XXI são mais amplas e complexas do que a eterna questão do direito ao aborto. A Igreja norte-americana se sente sob ataque – a ponto de criar recentemente uma força tarefa episcopal para a defesa da liberdade religiosa – por causa de novas problemas como o do casamento homossexual, que já é aceito por grande parte dos norte-americanos, até mesmo pelos católicos das jovens gerações.

Mas outras questões são mais intrincadas, como a recente decisão do governo federal norte-americano e de alguns Estados de negar às instituições de caridade católicas fundos estatais até que elas aceitem pôr em prática integralmente as diretrizes do governo, que também incluem práticas contraceptivas e abortivas.

Nisso insere-se a aplicação da reforma do sistema de saúde, que daria fim a algumas isenções de que até agora os empregadores católicos podiam gozar: por exemplo, excluir das apólices de seguro saúde dos trabalhadores das universidades católicas os reembolsos por práticas "contrárias à moral católica" oficial.

Nos debates recentes, os candidatos republicanos religiosos e os conservadores sociais (Gingrich, Santorum e Perry) acusaram o governo Obama de ter "declarado guerra à religião" nos EUA e à Igreja Católica em particular. Propaganda à parte, os católicos liberais que votaram em Obama e apoiaram a sua reforma da saúde agora pedem que a Casa Branca retome essas proteções à liberdade de consciência. Mas os católicos norte-americanos sabem que a ideia do caráter "judaico-cristão" dos EUA nasceu na Guerra Fria e que hoje tornou-se, no país cultural e religiosamente mais pluralista do mundo, uma relíquia.

Os norte-americanos não hesitarão em ver no discurso do papa um ataque contra o governo Obama, no início de um ano eleitoral em que os católicos serão, mais uma vez, o voto de equilíbrio entre republicanos e democratas.

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