Muitos cardeais italianos e da Cúria? João XXIII criou mais

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15 Janeiro 2012

E Pio XII criou menos. As estatísticas sobre os cardeais criados pelos últimos seis papas redimensionam as críticas contra Bento XVI, reacesas depois do anúncio do próximo consistório.

A análise é de Sandro Magister, publicada em seu sítio, Chiesa, 11-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Depois do anúncio feito por Bento XVI do consistório dos dias 18 e 19 de fevereiro, não faltaram, na mídia italiana e de outros países, reações críticas até mesmo de observadores nada hostis ao atual pontificado. As críticas se voltaram principalmente ao peso que, na escolha dos novos cardeais, o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado, teria tido. Mas, objetivamente, investem também contra o pontífice reinante.

É o papa em pessoa que, segundo as normas – e certamente com Bento XVI também na realidade – "livremente" escolher os homens "que tenham recebido ao menos o presbiterado" que merecem ser promovidos a cardeais, destacando-se "notavelmente por sua doutrina, costumes, piedade e prudência na gestão dos assuntos", como afirma o primeiro parágrafo do cânone 351 do Código de Direito Canônico.

As críticas não atingem exatamente os eclesiásticos individuais "premiados" com a púrpura, cuja grande maioria ocupa cargos que lhes correspondem de acordo com as normas vigentes: ou na Cúria (os prefeitos de congregações Fernando Filoni e João Braz de Aviz, o penitenciário Manuel Monteiro de Castro, os presidentes da APSA, Domenico Calcagno, e da Prefeitura dos Assuntos Econômicos, Giuseppe Versaldi) ou em Roma (o arcipreste de Santa Maria Maior, Santos Abril y Castello, o governador do Estado da Cidade do Vaticano, Giuseppe Bertello, o grande mestre da Ordem Equestre do Santo Sepulcro, Edwin F. O'Brien), ou na liderança de sedes episcopais de tradição cardinalícia já consolidada (George Alencherry, em Ernakulam, dos siro-malabareses; Thomas C. Collins, em Toronto; Willem J. Eijk, em Utrecht; Rainer M. Woelki, em Berlim; John Tong Hon, em Hong Kong).

As únicas nomeações que foram uma exceção à regra referem-se a dois presidentes de Conselhos Pontifícios, para os quais a púrpura não é obrigatória (Francesco Coccopalmerio e Antonio Maria Vegliò) e aquelas sedes para as quais se cancelou a prática que prevê que não se crie um novo cardeal onde já esteja presente outro com menos de 80 anos e, portanto, com direito de voto em um eventual conclave. Assim, Florença, com Giuseppe Betori, recebeu a púrpura que, ao contrário, não chegou a Toledo e ao Quebec, quando todas essas três sedes têm os respectivos eméritos com menos de 80 anos que foram chamados a ocupar cargos na Cúria Romana. Enquanto isso, o cardinalato a Timothy M. Dolan, em Nova York, e Dominik Duka, em Praga, parecem explicável com o fato de que os respectivos eméritos irão completar 80 anos em breve, respectivamente, nos dias 2 de abril e 17 de maio. Nenhum dos cinco novos cardeais "excedentes" já mencionados pode, contudo, ser contado entre os favoritos do cardeal Bertone.

Dito isso, resta o fato indiscutível, criticado por vários comentaristas, de que as púrpuras concedidas pelo Papa Joseph Ratzinger à Cúria Romana e a eclesiásticos italianos são particularmente numerosas. No próximo consistório assim como nos três anteriores do seu pontificado.

Os números falam por si. Em quatro consistórios, Bento XVI criou ou está prestes a criar (os cardeais anunciados para o dia 6 de janeiro se tornarão realmente tais apenas no dia 18 de fevereiro) 84 purpurados, dos quais 68 são eleitores. Entre estes últimos, os italianos são 21 (30,1%) e os curiais 28 (41,2%).

São cotas bem mais altas do que as registrados com o Beato João Paulo II (de 209 cardeais eleitores por ele criados, os italianos eram 46, ou seja, 22%, e os curiais, 61, isto é, 29,2%), com Paulo VI (que nomeou 144 purpurados, dos quais 38 italianos, 26,4%, e 40 curiais, 27,8%) e também com Pio XII (entre os seus 54 cardeais, os italianos eram 13, ou seja, 24,1%, e os curiais, 10, somando 18,5%: porcentagem, esta última, curiosamente menor do que as de todos os seus papas sucessores).

Ainda com relação à preponderância de italianas e de curiais nas criações cardinalícias, salta aos olhos, entretanto, uma singular analogia entre o papado de Ratzinger e o de João XXIII.

Com o Papa Angelo Giuseppe Roncalli – com o qual Bento XVI parece compartilhar uma certa candura mista e astúcia no trato das promoções eclesiásticas –, os cardeais criados foram 52, e destes os italianos chegaram a 23 anos, ou seja, 44,2%, e os curiais a 26, a metade do total.

Portanto, não é por acaso, talvez, que, em defesa da lista dos novos cardeais, tenha entrado em campo, com um comentário no Corriere della Sera, o historiador Alberto Melloni, líder da escola de Bolonha, que deu uma contribuição decisiva para a compilação da Positio que serviu para levar aos altares o Beato João XXIII. Melloni aproveitou o momento para assinalar seus prediletos no novo consistório (Filoni e Bertello, Tong e Betori) e não escondeu seu desapontamento com o "clamoroso", em sua opinião, adiamento da púrpura do jovem arcebispo de Manila, Luis Antonio Tagle, um dos autores da discutida Storia del Concilio Vaticano II, produzida pela escola de Bolonha.

Voltando aos números do consistórios do Papa Ratzinger, é preciso acrescentar, por fim, que parecem injustificadas as críticas por sua suposta falta de consideração para com a Igreja da África. Até agora, Bento XVI concedeu a esse continente seis púrpuras "votantes", 8,8%. João Paulo II concedeu um total de 16, ou seja, 7,6%, e Paulo VI 12, somando 8,2%.

No entanto, é verdade que, até agora, o atual pontífice, com apenas sete púrpuras – 10,3% – "premiou" menos a América Latina do que os seus antecessores. O Papa Karol Wojtyla concedeu ao continente latino-americano 35 púrpuras, 16,7%, e o Papa João Batista Montini 18, ou seja, 12,5%.

Mas Bento XVI poderá se encontrar novamente com esse continente nos futuros consistórios, "se Deus quiser". Ele poderá criar novos cardeais nas muitas dioceses onde o único obstáculo atual é a presença de um emérito votante (Bogotá, Rio de Janeiro, Santiago do Chile, São Salvador da Bahia, Quito), ou onde o titular já passou dos 75 anos e se prepara para sair (Havana, Santo Domingo, Buenos Aires).

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