Brasil: acaba a fuga do padre pedófilo

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13 Janeiro 2012

O padre irlandês Peter Kennedy, de 72 anos, acusado de ter abusado de 55 crianças, tinha fugido para a América do Sul há oito anos. Agora, veio a sua extradição.

A reportagem é de Giacomo Galeazzi, publicada no sítio Vatican Insider, 11-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Sua fuga durou oito anos. O "caso Kennedy" há muito tempo criava perplexidade em uma opinião pública já abalada pelo que os relatórios do governo foram revelado pouco a pouco sobre a pedofilia no clero irlandês. Para escapar da justiça, o padre Peter Kennedy, de 72 anos (acusado de ter abusado sexualmente de 55 crianças na Irlanda) tinha fugido para o Brasil.

Agora as autoridades brasileiras ordenaram a extradição do sacerdote, que acabou em 2003 no centro de um dos principais escândalos do clero irlandês. Às 23h da mesma noite da notificação da extradição, o Pe. Kennedy estava em um avião direto para Londres, onde os oficiais irlandeses o esperavam. Oito anos atrás, foi reconhecida pelos juízes a uma de suas vítimas um ressarcimento de 300 mil euros. O menino tinha contato que havia sido estuprado pelo padre quando tinha 13 anos, depois que sua família havia se mudado para o condado de Sligo, por causa da morte de seu pai por câncer.

O Pe. Kennedy desapareceu poucas semanas depois do término do processo, depois que mais 18 vítimas se pronunciaram, acusando-o de vários abusos que remontam a 1980. Pouco a pouco, cada vez mais vítimas se apresentaram à polícia, e a sua posição logo se tornou gravíssima. Ainda naquele tempo acreditava-se que o padre havia fugido para o Brasil e, em 2004, afirma o Daily Mail, a Interpol emitiu um blue notice contra ele, pedindo formalmente a sua captura e expatriação. As investigações revelaram que o Pe. Kennedy utilizou um passaporte britânico para viajar de Londres ao Brasil, estabelecendo-se em Osasco, na periferia de São Paulo, onde ganhava a vida ensinando inglês.

Só agora é que o sacerdote católico, fugitivo há oito anos e acusado de crimes sexuais na Irlanda, foi expulso do Brasil. A Igreja irlandesa ainda é atravessada por escândalos, muitas vezes enfrentados tardia e inadequadamente pela hierarquia eclesiástica nacional. Três meses atrás, o governo irlandês agradeceu o Vaticano pela sua resposta ao Relatório Cloyne, embora mantendo as críticas à carta de 1997 em que a Santa Sé "dava um pretexto aos sacerdotes para cobrir as acusações de abusos sexuais".

O Relatório Cloyne (400 páginas de documentos chocantes) foi publicado em julho passado. Ali se afirma, dentre outras coisas, que Dom John Magee, ex-secretário de três papas e depois bispo em seu país (que apresentou sua renúncia em 2010) ignorou as diretrizes para a proteção das crianças em 1996, estabelecidas pela Conferência dos Bispos da Irlanda, e não denunciou à polícia pelo menos 9 dos 15 casos de abuso sexual que ocorreram nesse período.

O relatório também afirma que a "reação do Vaticano" aos esforços dos bispos irlandeses para responder às acusações de abuso sexual "não ajudou nenhum bispo a implementar os procedimentos estabelecidos". O dossiê cita a carta de 1997 enviada à Conferência Episcopal Irlandesa pelo então núncio Dom Luciano Storero (1926-2000), que afirmou que a Congregação para o Clero considerava as diretrizes para a proteção das crianças sublinhadas no documento "Abuso sexual de crianças: Contexto para uma resposta eclesial" como um mero "documento de estudo", que continha "procedimentos e disciplinas" (ou seja, aquela que é conhecida como a notificação obrigatória), que "pareciam contrárias à disciplina canônica".

A Santa Sé respondeu que a carta oferecia conselhos sobre o desenvolvimento de um documento e que a Igreja tinha uma longa história na qual havia reafirmado muitas vezes a importância de denunciar os casos de abuso sexual às autoridades. "Tendo considerado atentamente o Relatório Cloyne e a resposta da Santa Sé", lê-se na nota, "o governo da Irlanda mantém a opinião de que o conteúdo da carta confidencial de 1997 forneceu um pretexto para alguns membros do clero para fugir da total cooperação com as autoridades civis irlandesas no que se refere ao abuso de menores. É uma questão de grande preocupação para o governo irlandês".

A esperança do governo da Irlanda é que, "apesar das nossas grandes diferenças, as lições dos erros passados foram aprendidas", continua o texto. A esse respeito, o governo acolhe com satisfação o compromisso expresso pela resposta da Santa Sé nas observações finais a um diálogo construtivo e de cooperação com o governo. Agradecendo por esse compromisso, o governo "espera a total cooperação com a Santa Sé, com a Igreja Católica na Irlanda e com outros órgãos relevantes para assegurar que a Irlanda tenha uma sociedade completamente segura para crianças e os menores, e que todas as pessoas que têm responsabilidades com relação ao bem-estar e aos cuidados das crianças neste país estejam totalmente sujeitas às leis e aos procedimentos irlandeses".

Antecedentes

O mês de janeiro 2012 representa uma data histórica, a seu modo, para a Igreja Católica. Exatamente 10 anos atrás, em janeiro de 2002, um jornal noticiava pela primeira vez um escândalo ligado à pedofilia no clero. Foi o Boston Globe que noticiou a história do padre John Geoghan, que obrigou, mais tarde, o cardeal Bernard Law, então arcebispo de Boston, a renunciar. O padre, acusado de ter abusado de mais de 130 crianças em 30 anos de carreira, foi morto na prisão em agosto de 2003. Uma década depois, o caso Geoghan ainda é, para muitos, um símbolo assustador do fracasso da Igreja: transferido de paróquia em paróquia, apesar dos seus crimes, atacou vítimas sem que ninguém fizesse nada para se opor.

Depois de Geoghan, chegou o padre Kevin Reynolds. Pároco do condado de Galway, oeste da Irlanda, ele também se tornou um símbolo das falhas da Igreja em seu país, o exemplo a ser olhado quando se quer falar sobre o flagelo da pedofilia no clero, quando pensamos que foi apenas aos fiéis irlandeses – e não aos de outras Igrejas – que Bento XVI teve que escrever uma carta substancialmente de desculpas e de penitência.

Agora, está confirmado que o Pe. Reynolds é inocente. Ele jamais abusou de crianças. Não é um pedófilo. Mas a ferida ainda está muito grande, e a extradição do Pe. Kennedy é um sinal encorajador da vontade de "purificação" que caracteriza o novo curso ratzingeriano.

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