18 anos depois. ''O zapatismo não se vende, nem se rende''

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10 Janeiro 2012

Hoje, como há 18 anos (quando veio à tona o Exército Zapatista de Libertação Nacional), como há 28 anos (quando criou-se o EZLN), como há 42 anos (quando foi fundado o movimento, cujos sobreviventes, posteriormente criaram o EZLN), como há 510 anos... o zapatismo não se vende, nem se rende.

O artigo é de Rodrigo Olvera, publicada no sítio Atrio, 07-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Queridas amigas, queridos amigos

Com frequência, temos pouca memória.

Hoje, nos Estados Unidos, há quem pense que o movimento Occupy Wall Street é o início da rebelião antissistema, esquecendo as mobilizações estudantis contra a exploração trabalhista na indústria de roupas esportivas, ou as mobilizações sindicais de funcionários públicos, ou a enorme mobilização contra o G20 e o Fórum de Davos, em Seattle.

Na Espanha, há quem pense que o movimento 15M foi criado para atacar o PSOE [Partido Socialista Operário Espanhol], ou que suas atividades só falam agora contra o PP [Partido Progressista], mas antes não diziam nada [...]. Esquecem-se, ao que parece, o movimento dos Okupas, das lutas pela democracia, da mobilização contra a participação da Espanha na guerra do Iraque

A primavera árabe é qualificada por algumas pessoas como uma surpresa, ignorando as heroicas lutas do movimento operário na região, que se sustentou por décadas em meio a terríveis circunstâncias. Ou do movimento feminista islâmico, tão desqualificado no Ocidente.

Mas a história – sempre – vem de mais longe.

No México, lembro perfeitamente o momento em que me levantei para tomar café no dia 1º janeiro de 1994. A televisão transmitia imagens confusas de um grupo armado lendo um anúncio na prefeitura municipal de San Cristóbal de las Casas. No começo, ninguém acreditava no que estava acontecendo. No ano anterior, um dos intelectuais do governo havia decretado que já havia morrido a opção armada da esquerda (seu livro La Utopía Desarmada foi um best-seller, até que o dia 1º de janeiro de 1994 o desacreditou completamente).

Então, acusou-se o EZLN [Exército Zapatista de Libertação Nacional] de terrorista, de guatemaltecos, de salteadores. Quando, 12 dias depois, o EZLN decidiu se submeter ao chamado da mobilização civil pela paz e se comprometeu com um cessar-fogo unilateral (que sse manteve até hoje, apesar dos massacres de Acteal, de Chenalló e de Montes Azules), ele foi acusado de ser um "grupo guerrilheiro virtual que só dispara comunicados".

Quando o EZLN convocou um encontro intergaláctico pela humanidade e contra o neoliberalismo (antes de Seattle, Gênova e da criação do Fórum Social Mundial) que reunisse todas as pessoas inconformadas com o neoliberalismo e convocasse para se organizar a partir de baixo, fora dos partidos políticos, acusou-se o EZLN de palhaços.

Quando o EZLN recomendou uma saída negociada para o conflito basco, sugerindo uma plataforma de diálogo para que a esquerda abertzale [campo politíco que defende a independência basca] falasse sem armas e encontrasse caminhos de dignidade sem terrorismo, a direita o acusou de partidário do ETA, e o ETA lhe acusou de ingenuidade e imperícia.

Enfim, hoje completamos 18 anos, com equívocos, com iniciativas que não funcionaram, com uma legitimidade ética que nenhuma mentira do governo ou dos partidos políticos (incluindo os partidos de esquerda) puderam manchar.

Há 18 anos, quase ninguém acreditou na proposta de lutar contra o neoliberalismo, muito menos que tal luta pudesse ser mais eficaz se fosse organizada fora da luta eleitoral partidária. Há 18 anos, era uma loucura pensar que milhares de pessoas se organizassem e se mobilizassem em todo o mundo "de baixo e à esquerda" contra o neoliberalismo, porque "outro mundo onde caibam muitos mundos" é possível e necessário, para que "quem manda, mande obedecendo". Frases nascidas nos encontros internacionais de movimentos de resistência convocados pelo EZLN.

Completamos 18 anos. E celebramos com um novo encontro internacional de grupos de resistência. Encontro que não terá espaço nos grandes meios de comunicação. Mas que terá – estou certo disso – efeitos e consequências "de baixo e à esquerda", tal como os encontros anteriores. Por isso, espero que isso lhes atice a curiosidade e talvez até os anime a continuar caminhando.

Hoje recordamos, não por melancolia, mas sim porque, recordando, afinamos o passo. Mas também não acreditamos ser a origem de nada. Desde a primeira declaração da Selva Lacandona, os zapatistas afirmaram: "Somos produto de 500 anos de lutas: primeiro contra a escravidão, na guerra da Independência contra a Espanha encabeçada pelos insurgentes; depois para evitar sermos absorvidos pelo expansionismo norte-americano; depois para promulgar a nossa Constituição e expulsar o Império Francês do nosso solo; depois a ditadura porfirista [de Porfirio Díaz] nos negou a aplicação justa de leis de Reforma, e o povo se rebelou, formando seus próprios líderes".

Hoje, como há 18 anos (quando veio à tona o EZLN), como há 28 anos (quando criou-se o EZLN), como há 42 anos (quando foi fundado o movimento, cujos sobreviventes, posteriormente criaram o EZLN), como há 510 anos... o zapatismo não se vende, nem se rende.

Saúde e esperanças.

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