Cinco observações sobre os novos cardeais

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08 Janeiro 2012

Nomear novos cardeais está entre os atos mais importantes de qualquer papado, porque os cardeais formam o "colégio eleitoral" que irá escolher o próximo papa. Sem dúvida, isso é ainda mais significativo desta vez, já que Bento XVI irá completar 85 anos em abril – e, embora não haja nenhum sinal de qualquer crise de saúde, nessa idade, é natural começar a pensar sobre o que pode vir a seguir.

A análise é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 06-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Aqui estão cinco rápidas observações sobre os 22 novos cardeais nomeados nesta sexta-feira, 6 de dezembro, por Bento XVI, incluindo 18 que têm menos de 80 anos e, portanto, são elegíveis para participar de um futuro conclave.

O consistório, quando os nomeados de agora realmente entrarão no Colégio dos Cardeais, está marcado os dias 18 e 19 de fevereiro, em Roma.

Mais italianos

Já era uma observação comum a respeito de Bento XVI que, em certos aspectos, ele "reitalianizou" o Vaticano e o papado, talvez como resultado do seu nível de conforto com a cultura eclesial italiana depois de ter passado quase os últimos 30 anos em Roma.

Certamente, as nomeações desta sexta-feira vão reforçar essas impressões. Antes dessas nomeações, havia 24 italianos entre os 108 cardeais com idade para votar, representando 22% do total. Com sete italianos entre os 18 cardeais eleitores nomeados agora, a sua parcela irá aumentar para 25%, um quarto inteiro do número de cardeais que irão eleger o próximo papa. Esse é, de longe, o maior bloco nacional no Colégio de Cardeais. O segundo maior é o dos norte-americanos, que terão 18 cardeais no total e 11 elegíveis para o papa.

A preponderância dos italianos, entretanto, não significa necessariamente que o próximo papa provavelmente será italiano. Historicamente, os italianos muitas vezes se dividiram entre si, incapazes de chegar a um acordo sobre um candidato individual, e é possível que esse cenário poderá se repetir da próxima vez.

Por exemplo, o cardeal Angelo Scola, de Milão, goza de um imenso apoio em alguns setores, mas alguns italianos continuam desconfiados de seus profundos laços com o movimento Comunhão e Libertação. O cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, é muito admirado pela sua erudição e alcance junto à cultura secular, mas ele realmente não tem uma base de apoio natural entre os "campos" italianos estabelecidos.

Em todo caso, uma coisa parece certa: dado o alto número de eleitores italianos, é difícil imaginar que o próximo papa será eleito, no fim, sem um forte apoio dos círculos italianos.

Mais (e mais) cardeais vaticanos

Talvez a observação mais óbvia sobre a nova safra de cardeais é que ela está repleta de membros do Vaticano. Dez dos 18 cardeais com idade para votar – uma maioria – são autoridades da Cúria Romana ou possuem algum outro cargo vaticano.

Incluindo os cardeais que estão aposentados mas ainda têm menos de 80 anos, as autoridades vaticanas atuais ou antigas já representavam 34 dos 108 cardeais eleitores, ou 31%. Incluindo os novos nomeados, as autoridades vaticanas vão representar 44 dos 126 eleitores, ou 35%.

Somando-se tudo isso, a forte representação de autoridades vaticanas no Colégio dos Cardeais provavelmente fortalece a possibilidade de que o próximo papa seja uma figura curial – ou, ao menos, pode reduzir o preconceito contra a eleição de alguém cujo último trabalho foi em Roma.

Nomeadamente, Bento XVI deixou uma figura vaticana fora da lista dos novos cardeais: o arcebispo Rino Fisichella, presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização.

O projeto de uma "nova evangelização" é a menina dos olhos de Bento XVI, talvez o tema mais consistente que ele lança ao definir as suas prioridades para o catolicismo do século XXI. Como o fato de encarregar um cardeal de alguma coisa é uma forma tradicional para que um papa sinalize que ele se preocupa com ele, é bastante curioso que Fisichella tenha ficado fora da lista.

(Aliás, isso não se deve ao fato de Fisichella ter assumido o cargo recentemente. O arcebispo português Manuel Monteiro de Castro foi nomeado presidente da Penitenciaria Apostólica exatamente nesta sexta-feira, e ele foi nomeado).

Desprezo pela África?

Durante a sua recente viagem ao Benin, sua segunda viagem à África como papa, Bento XVI elogiou o continente africano como um "pulmão espiritual" da humanidade e apontou-o como uma zona extremamente importante para o futuro da Igreja Católica.

No entanto, nas nomeações anunciadas agora, ficou manifesta a ausência da África.

Na preparação para o anúncio desta sexta-feira, acreditava-se amplamente que ao menos dois africanos estariam na lista: o arcebispo Telesphore George Mpundu, de Lusaka, Zâmbia, e o arcebispo Cyprian Kizito Lwanga, de Kampala, na Uganda. No fim, contudo, nenhum dos dois foi nomeado.

Neste momento, há 11 africanos entre os cardeais com idade para votar. Quando o consistório dos dias 18 e 19 de fevereiro ocorrer, ainda haverá 11 africanos, ao lado de 11 cardeais eleitores apenas dos EUA – apesar do fato de a África ter mais do que o dobro da população católica dos EUA.

Em novembro, o número de africanos eleitores cairá para dez, já que o cardeal aposentado Francis Arinze, da Nigéria, irá completar 80 anos.

Parte do problema pode ser que as escolhas de Bento XVI hoje foram desproporcionalmente inclinadas a autoridades vaticanas, e os dois africanos que detêm altos cargos na Cúria Romana já são cardeais: Peter Turkson, de Gana, presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz, e Robert Sarah, da Guiné, presidente do Cor Unum.

Em geral, as nomeações de hoje reforçam o predomínio do Ocidente no Colégio dos Cardeais. Apenas três dos 18 novos eleitores vêm do mundo em desenvolvimento – um brasileiro, um indiano e um chinês (Hong Kong). Nesse sentido, o Colégio dos Cardeais continuará sendo não representativo da demografia católica, dado que dois terços do 1,2 bilhão de católicos no mundo hoje vivem no Sul global, uma parcela que deverá aumentar para três quartos até meados deste século.

Tecnocratas, não ideólogos

De fora, as pessoas muitas vezes assumem que, quando um papa escolhe novos cardeais, ele deve ser tentado a "ajeitar as cartas" com homens que pensam como ele, garantindo assim que seu sucessor consolide as suas próprias políticas.

No caso de Bento XVI, isso se traduziria em assumir que as suas escolhas por cardeais deve refletir a sua própria teologia e política bastante conservadoras.

Embora certamente não haja nenhum "liberal" entre nomeações de agora, ao menos medido pelo sentido secular do termo, a lista parece não ser significativamente inclinada por nenhuma direção ideológica particular. Em grande parte, é uma safra de tecnocratas – autoridades italianas e vaticanas conhecidas mais como gerentes pragmáticos do que por seus pontos de vista teológicos ou ideológicos.

Embora certamente haja proeminentes "evangélicos" entre o novo grupo de cardeais, ou seja, homens conhecidos como fortes defensores da identidade católica – Timothy Dolan, de Nova York, por exemplo, e Thomas Collins, de Toronto –, em sua maior parte, essas são figuras conhecidas também pela abertura e pelo compromisso com o diálogo, ao contrário de uma linha ideológica dura.

As nomeações também contêm ao menos duas figuras com uma reputação como moderados teológicos: Dom João Braz de Aviz, do Brasil, presidente da Congregação para os Religiosos, que tem sido simpático ao longo dos anos à teologia da libertação na América Latina e que tem profundos laços com o Movimento dos Focolares, e o arcebispo siro-malabar George Alencherry, da Índia, comprometido com os esforços da Igreja indiana em prol da subclasse tribal.

Nesse sentido, é difícil afirmar que Bento XVI tenha "ajeitado as cartas" hoje em um sentido político ou ideológico.

Dolan, a estrela em contínua ascensão

É difícil encontrar alguém no mundo católico nos dias de hoje cuja ascensão da carreira tenha sido mais meteórica do que a do arcebispo Timothy Dolan, de Nova York, que irá completar 62 anos uma semana antes de receber seu barrete vermelho como cardeal nos dias 18 e 19 de fevereiro.

Tendo sido primeiro nomeado bispo auxiliar de St. Louis em 2000, Dolan foi promovido duas vezes na última década: tornou-se arcebispo de Milwaukee em 2002 e depois assumiu o púlpito mais central da Igreja norte-americana como arcebispo de Nova Iorque, em 2009.

Ele também é o presidente eleito da Conferência dos Bispos dos EUA, e cada vez mais é o membro do Vaticano de maior referência nos Estados Unidos. Bento XVI indicou Dolan para liderar uma revisão da vida dos seminários na Irlanda como parte da resposta à crise dos abusos sexuais, e o pontífice também o incluiu em um conjunto de poderosos globais nomeados como membros do Conselho para a Nova Evangelização.

É impressionante que Bento XVI tenha se disposto a se incomodar, mesmo que apenas um pouco, para incluir Dolan na lista dos novos cardeais. Até agora, Bento XVI tem sido um defensor persistente do costume de que um novo cardeal não é nomeado até que o cardinal anterior dessa diocese complete 80 anos (a não ser, é claro, que o cardeal aposentado morra nesse meio tempo). Provavelmente é essa a razão, por exemplo, que o arcebispo Vincent Nichols, de Westminster, ainda esteja em uma posição de espera: seu antecessor, o cardeal Cormac Murphy-O'Connor, não completará 80 anos até agosto.

No entanto, Bento XVI fez uma exceção no caso de Dolan. Seu antecessor, o cardeal Edward Egan, ainda tem 79 anos e não irá completar 80 até o dia 2 de abril. É mais uma pequena, mas reveladora, indicação de que Dolan goza claramente do favor do papa.

Para mais detalhes sobre Dolan, os leitores podem consultar o meu recente livro-entrevista com ele, A People of Hope (Ed. Image, 2011).

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