O auge do cinema que filma a transcendência. Os 10 melhores filmes do cinema espiritual de 2011

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04 Janeiro 2012

Estamos diante da melhor safra do cinema espiritual dos últimos anos, o que reflete o bom estado de saúde espiritual da produção cinematográfica. Embora, infelizmente, isso não afete o público em geral, que se mantém no consumo audiovisual de baixo perfil, cada vez mais há um setor de público que aposta nesse tipo de cinema que agora tem à sua disposição. Vejamos a seleção deste ano.

A análise é de Peio Sánchez Rodríguez, sacerdote e professor de teologia, com especialização em educação audiovisual pela Universidade Pontifícia de Salamanca e doutorado em teologia dogmática pela Universidade Salesiana de Roma. O artigo foi publicado no sítio Religión Digital, 31-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Clique nos títulos para assistir ao trailer dos filmes.

1. A árvore da vida, de Terrence Malick

Estamos diante de uma obra-prima do cinema espiritual. Formalmente, ela inova a narrativa fílmica da fé cristã, já que apresenta uma história pessoal-familiar de pecado e de graça, com uma perspectiva de universalidade que se desdobra em abundantes símbolos e referências musicais da tradição religiosa. A complexa elaboração formal pressupõe tanto um aprofundamento na forma artística da experiência cristã, como aponta para aspectos de novidade. Especialmente evocativa é a presença intermitente da linguagem orante dirigida a Deus que transcende a pura narração horizontal.

A maior dificuldade reside na complexidade da montagem. Ela atua com diferentes registros que são acompanhados por uma profundidade teológica incomum, dada a amplitude de temas aborda, tais como o sentido do sofrimento inocente, a origem na bondade do real, a densidade e diferentes registros do pecado, assim como a sua transmissão social, a transparência, resistência e vitória da Graça, a possibilidade da conversão como giro à esperança, a oferta de louvor como aceitação agradecida pelo amor divino e o além como consumação pessoal e comunitária em Deus. Esse percurso globalizador pela antropologia cristã se realiza resguardando o mistério de Deus, que aparece unicamente representado pela sarça ardente do Gênesis, que acompanha a narração como chama de amor viva.

Filme imprescindível, a partir de agora, no cinema espiritual deverá ser revista para descobrir novos significados e que propõe a experiência de Deus que se comunica na arte.

2. Homens e deuses, de Xavier Beauvois

Relato poderoso e significativo e, ao mesmo tempo, realizado com uma distância respeitosa sobre a vida e morte dos monges trapistas do mosteiro de Nossa Senhora do Atlas de Tibhirine, que foram sequestrados em 1996. Os fatos se desenrolam em meio a uma Argélia conturbada entre a ameaça dos grupos radicais islâmicos e um regime militar que dificulta a reconciliação.

Xavier Beauvois, o diretor, baseia a sua narrativa na motivação profunda dos monges, explicitada no testamento de Christian de Chergé que se ouve no fim. A contribuição espiritual visa à reconciliação das pessoas, dos povos e das culturas a partir do diálogo das religiões fundado em Deus, que nos reconcilia em Cristo encarnado e crucificado. Para isso, o roteiro se centra no processo de discernimento pessoal e comunitário da comunidade de monges sobre a decisão de permanecer fiéis e firmes em seu mosteiro, apesar das ameaças que os rodeiam.

Magnificamente interpretado, os monges se apresentam em sua vida ordinária de oração, trabalho e inserção naquela realidade concreta, ao mesmo tempo em que se mostra o processo de cada um com suas dúvidas e certezas. Tudo isso nos permite compreender a sua decisão, em nada heroica, mas sim como um sinal lúcido e humilde de reconciliação em meio à barbárie.

O momento culminante da última ceia é uma sequência magistral em que nos é mostrada toda a carga significativa de uma mesa que vai se convertendo em lugar de perdão e alegria e, ao mesmo tempo, em altar de entrega e reconciliação. O final é significativo e esperançoso, através de uma elipse que aponta para a paz definitiva em Deus.

3. Postia pappi Jaakobille [Cartas ao padre Jacó, na versão espanhola], de Klaus Härö

Filme que acerta ao apresentar com uma enorme simplicidade formal – apenas dois atores que interpretam o padre Jacó e Leila, uma ex-detenta indultada depois de uma condenação à prisão perpétua – uma história de grande força dramática e de um explícito conteúdo cristão.
Esse filme, que passou quase despercebido fora do âmbito mais especializado dos festivais, é uma pequena joia em que todos os elementos – uma fotografia sombria, um plano entrecortado, interpretações austeras e câmera detalhista – apontam para a direção de mostrar uma história que transmite verdade e emoção.

Na primeira parte, o filme vai nos apresentando a ira e a dor imensa de Leila, que pouco a pouco vai sendo domesticada pela humildade muito acolhedora do padre Jacó, que vive com a missão de enviar e receber cartas de oração e de consolo para os seus paroquianos longínquos.

Na segunda parte e desenlace, assistimos a uma resolução surpreendente, que nos revela o caminho do sacrifício de amor e a reconciliação que limpa a alma para a esperança.

A enorme força espiritual reside na medida em que o padre Jacó representa o amor misericordioso de Deus que aponta para Cristo, assim como nas imagens do crucifixo e nas citações bíblicas escolhidas de forma certeira. Também é sugestiva a figura de Leila, metáfora da humanidade que precisa ser salva. Em resumo, teologia da graça e da justificação convertida em narrativa cinematográfica. Sem dúvida, um daqueles filmes que nos torna melhores.

4. Oscar et la dame rose [Cartas a Deus, na versão espanhola], de Eric-Emmanuel Schmitt

Injustamente despercebida passou entre nós Cartas a Deus, esmagado pela estreia coincidente do terrível Torrente 4: Lethal Crisis, que foi o grande sucesso do cinema espanhol deste ano.

Cartas a Deus não vende porque trata da história de um menino com câncer, como também aconteceu há um ano com Viver para sempre (2010), de Gustavo Ron, e com Maktub (2011), de Paco Arango. No entanto, acreditamos que o cinema espiritual deve continuar resistindo para oferecer um sentido quando a diversão baixa e vulgar apaga os seus artifícios comerciais.

O dramaturgo francês Eric-Emmanuel Schmitt, depois de uma experiência pessoal de fé, escreve sobre esses temas com êxito e, a partir do teatro, foi os exportando para o cinema. Assim, levou às telas Monsieur Ibrahim et les fleurs du Coran (2003) e, depois, a mais suave Odette Toulemonde (2007).

O pequeno Oscar tem um câncer terminal e será guiado por Mamie Rose, uma voluntária muito especial, para será um exemplo do acompanhamento espiritual. Assim, a partir da sinceridade, viverão intensamente uma relação que ajudará o pequeno a assumir o seu momento para se encontrar com Deus, e a cuidadora a renovar o sentido da sua vida.

Um filme, portanto, muito recomendado e especialmente interessante para o cinema familiar com adolescentes, para introduzir no tema sempre relegado da morte. E não nos esqueçamos que o cinema pode divertir abordando a vida, e não fugindo dela.

5. Thérese, de Alain Cavalier

Filme complexo e não para todos os públicos. Apesar de sua estreia na Espanha com 25 anos de atraso, o filme de Alain Cavalier sobre a vida de Teresa do Menino Jesus foi bem recebida tanto pela crítica quanto pelo público cinéfilo.

Montado como uma série de quadros de estilo bastante teatral, o filme narra a vida da santa de Lisieux e nos apresenta, com uma grande simplicidade formal, a sintonia com o caminho estreito do amor humilde dessa carmelita mestra da espiritualidade. Interpretada com grande sucesso por Catherine Mouchet, o filme descreve, com um estilo em nada hagiográfico, mas sim bem comedido e crítico, o seu chamado precoce e ingênuo, as alegrias e as dificuldades da sua vida religiosa, a chegada da doença e sua paciente serenidade perante a morte.

A narrativa vai nos adentrando no amadurecimento dessa jovem que, a partir da sua candura adolescente, se vê obrigada a um amadurecimento rápido, forjado na proximidade de Deus e na vida comunitária. A primeira é ressaltada através de algumas orações e pequenos textos recolhidos; a segunda é mostrada com eloquência em cenas como a profissão da santa, a festa do Dia de Natal ou os encontros com a irmã priora.

De difícil visualização, tanto do ponto de vista formal quanto narrativo e simbólico, precisa de acompanhamento mesmo para o público formado.

6. O garoto da bicicleta, de Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne


O filme dos irmãos Dardenne está entre os melhores deste ano em quase todas as listas. Os autores de grandes obras como La promesse (1996), Rosetta (1999), Le fils (2002), L'Enfant (2005) e Le silence de Lorna (2008) continuam com a opção de apresentar a verdadeira altura humana em personagens marginais que, em meio a dificuldades, abrem caminho rumo a uma difícil bondade.

Neste caso, novamente com uma história simples: um menino é abandonado pelo seu pai, que se sente incapaz de assumir essa responsabilidade. Ele encontra uma jovem cabeleireira que o acolhe, mas sua busca por um pai o leva a uma peripécia da qual sairá amadurecido.

Assim como na tragédia grega, os personagens funcionam como arquétipos. O menino é uma figura de uma geração que tem que crescer sem pais ou buscando-os. A cabeleireira é a imagem luminosa da humanidade generosa, autenticamente enraizada na verdade da vida. O pai infantil e imaturo reflete um tipo de adultos que são adolescentes crônicos e que, neste caso, representa os pais ausentes e demissionários. O traficante é a tentação de um mundo de sobreviver destruindo tudo ao seu redor.

A simplicidade da história dá margem a muitas coisas: o pequeno lutador que, no fim, descobre o amor no qual pode confiar; a mãe arquétipo que é geradora em adoção da filiação e que transparece o amor fundante mais escolhido do que biológico; o jovem que deixar de ser agressor e permite que o pequeno faça a sua própria escolha.

Cheia de humanismo, O garoto da bicicleta é um relato para uma época que precisa recuperar a maternidade/paternidade e a filiação. Ser mãe e pai não é uma questão biológica; é uma questão de amor que deve se fundar nele. Por isso, Samantha é uma verdadeira mãe. E o pequeno Cyril, em sua peripécia, nos revela como o ser humano precisa encontrar um pai/mãe para viver na bondade. E aqui não basta a bicicleta como única posse. Este mundo precisa de Samanthas para que os pequenos Cyrils possam crescer. Por outro lado, o mistério da paternidade e da filiação sempre teve a ver com Deus, embora isso não se diga.

7. Mistérios de Lisboa, por Raúl Ruiz


Do chileno exilado na França Raúl Ruiz, esse filme é considerado, de forma bastante unânime, uma das obras mais significativas do cinema recente. Partindo do folhetim romântico de Camilo Castelo Branco, prolífico escritor do século XIX português, a história se passa em uma complexa rede de motivações e relações sob a influência de Balzac, que vão se revelando como uma espiral dramática que, na distância, descobre uma profunda reflexão sobre a natureza humana.

A excepcional realização de Raúl Ruiz parte da forma de série de televisão, para fazer uma metamorfose radical em que o relato adquire uma nova dignidade e em que os personagens mostram algumas constantes que atuam no espectador a consciência de contemplar algo das dobras da própria alma.

Somente a figura do padre Dinis permite pôr um pouco de sentido. Primeiro pela sua busca detetivesca da verdade, para depois reconhecer a sua intervenção benéfica na história, que aos poucos vamos descobrindo como multifacetada e onipresente. Filme imprescindível para o espectador formado no gosto estético da narrativa e na pesquisa antropológica dos personagens. O relato acaba perdendo a sua condição trágica, para fazer do romântico uma porta para o drama com sentido e para a vida com esperança. Mas uma espera que pressupõe paciência e esforço no observador que acaba se envolvendo.

8. Le Havre, de Aki Kaurismäki


Aki Kaurismäki é um dos grandes humanistas do cinema europeu. Esse filme entra em cartaz [na Europa] justamente no fim do ano, embora já tenha sido apresentado em diversos festivais. Como todas as histórias desse diretor, ele é narrado sob a influência dos grandes do cinema mudo, com um sentido de humor zombeteiro e sibilino, cores puras – especialmente azul e vermelho –, assim como com silêncios e elipses que anima o espectador a completar a história.

Neste caso, um engraxate, Marcel Max, saído dos filmes de Chaplin, enfrenta a grave doença de Arletty, sua abnegada esposa, e o cuidado de Idrissa, um menino negro que chegou como clandestino e que é perseguido por Monet, um policial que parece que trabalhou anteriormente para o fim de Casablanca.

Novamente, uma história de solidariedade dos pequenos, dos marginalizados. Enquanto Max luta para esconder e encontrar a família do pequeno africano, sua esposa silenciosa e praticamente sozinha enfrenta uma doença terminal. Mas, apesar de tudo e de todas as dificuldades, eles não estão sozinhos: há uma corrente de generosidade que vai se tecendo e que, surpresa após surpresa, leva a um final inesperado e feliz.

Já em Mies vailla menneisyyttä [Um homem sem passado, na versão espanhola] (2002), Kaurismäki fez alguns acenos espirituais, assinalando que o mundo que está às margens conta com a ajuda que, de fora, se converte em salvação. O fato de que, em Le Havre, os giros de roteiro apontem para o milagre reabre esse veio sobrenatural à qual tende o cinema social do diretor finlandês. Incrível mas certo é que o cinema secular europeu, quanto mais aponta  para o ser humano, mais parece se encontrar com Deus em seu objetivo. Uma lição por inteiro.

9. Em um Mundo Melhor, de Susanne Bier


O Oscar de melhor filme estrangeiro foi para esse filme dirigido por Susanne Bier, que é uma das mais promovidas representantes do extinto movimento Dogma 95. Trata-se, neste caso, de uma proposta que indaga sobre a origem da violência e as possibilidades do perdão.

Narrado com base em paralelismos, o filme define, de um lado, a violência em um campo de refugiados em um lugar da África e, de outro, o assédio escolar na Dinamarca. E também coloca em paralelo o mundo dos adultos e o mundo dos jovens que se abrem à vida. Nesse cruzamento de realidades, localiza-se o drama.

Elias sofre assédio escolar de seus colegas, enquanto padece a separação que parece inevitável entre seus pais. Anton, seu pai, como médico na África, enfrenta a violência de um grupo armado e seu líder impiedoso. Cristian será o amigo que ajudará Elias com a sua dor não curada pela morte de sua mãe. A tragédia se tece quando a violência gera violência, e só uma decisão pela reconciliação permitirá que se rompa a corrente do desastre.

O filme apresenta o mal como consubstancial ao ser humano, seja na Europa ou na África, seja entre crianças quanto entre adultos. O mal escraviza com suas correntes interiores, de dentro e de fora, agarrando e fazendo vítimas e algozes que acabam reproduzindo a mesma espiral. Só o perdão que vem do céu azul pode romper a maldição.

Anton representa a força da bondade que não faz o idiota, mas que perdoa. Depois, aparecerá uma graça que vence tragédia e que permite que os processos de reconciliação se culminem. Parece que, de alguma forma, o céu cuidou de todos.

Um filme que é altamente recomendado para o público jovem, apesar da sua dureza: é esclarecedor, lhes agrada e lhes envolve.

10. Das Ende ist mein Anfang [O fim é meu princípio, na versão em espanhol], de Jo Baier


Relato comovedor do testamento espiritual de Tiziano Terzani, famoso correspondente de guerra que viveu grandes acontecimentos da história recente. O filme, baseado no livro que ele escreveu com seu filho Folco, narra com simplicidade e força expressiva o seu itinerário pessoal, centrando-se na experiência espiritual que marcará os seus últimos anos a partir do início da luta contra um câncer.

A trajetória de Terzani como jornalista e suas simpatias ideológicas pelo comunismo são postas à prova em meio a grandes acontecimentos sociais e políticos do século XX, como a Guerra Fria, a China maoísta, a Guerra do Vietnã e o apartheid sul-africano. O ocaso das ideologias marcará uma reviravolta em sua vida para a dimensão espiritual. O mundo só pode mudar se cada ser humano mudar, ele afirmará.

Em 2004, quando foi diagnosticado um câncer no protagonista, acentuou-se o seu chamado a fechar o círculo de sua vida enfrentando a morte. Depois de um retiro de três anos com um sábio no Himalaia, ele se afasta de sua esposa Angela para uma casa na Toscana. Ali, nos últimos dias, ele convida o seu filho a escrever esta espécie de testamento espiritual.

O testemunho vai se centrando em oferecer uma visão diferente da morte. Que não seja exclusivamente trágica, mas sim confiante, alegre e esperançosa. A debilidade do corpo contrasta com um crescimento do espírito que vai progressivamente se identificando com o Ser Supremo ao qual vai se incorporando. Esse processo de dissolução representa um contraste com a perspectiva cristã da ressurreição. Mas o contraste é muito sugestivo, e o caráter testemunhal o situa em uma validade especial.

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