O mito global dos Reis Magos. Artigo de Piero Citati

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22 Dezembro 2011

A piedade popular encontrou no relato dos Magos tudo o que desejava: o brilho das grandes riquezas, os exércitos multicoloridos, o Oriente, a misteriosa sabedoria do Oriente, os minuciosos detalhes da vida de Jesus, a aura de lenda, o verossímil, o inverossímil, o vasto, o ingênuo e o romanesco, que encantam os simples e as crianças.

A opinião é de Piero Citati, um dos mais famosos escritores e críticos literários italianos, em artigo para o jornal Corriere della Sera, 20-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Nos Evangelhos, a aparição dos Magos é muito tímida. Ignoramos quem são os Magos que, no Evangelho de Mateus (o único que os lembra), vêm do Oriente: sabemos apenas que seguem uma estrela, chegam a Belém, entram na casa de José e Maria, veem o menino, se prostram, prestam-lhe homenagem e lhe oferecem os dons: ouro, prata e mirra.

Todo o resto do relato da Natividade, que triunfa no Evangelho de Lucas, é abolido por Mateus. Não há pastores e seus rebanhos, o anjo do Senhor, a grande alegria de todo o povo, o nascimento do Salvador, a multidão do exército celeste que louva a Deus: "Glória a Deus nas sublimidades e, sobre a terra, paz aos homens da divina benevolência". E, sobretudo, o sinal singularíssimo, o paradoxo dos paradoxos: "O Cristo, envolto em faixas que jaz em uma manjedoura". No Evangelho de Mateus, temos apenas esses Magos desconhecidos: sábios pagãos, que antecipam a conversão dos povos estrangeiros ao Senhor, enquanto Israel os rejeita.

O relato é simples e rápido: nenhum episódio da Bíblia o antecipa; tanto que podemos até imaginar que seja um detalhe indiferente, deixado cair por acaso por Mateus. Mas, poucos anos depois da idade dos Evangelhos, o episódio dos Magos tornou-se a maior lenda mítica do Novo Testamento: algo de sagrado, festivo, tremendo. A piedade popular encontrou nele tudo o que desejava: o brilho das grandes riquezas, os exércitos multicoloridos, o Oriente, a misteriosa sabedoria do Oriente, os minuciosos detalhes da vida de Jesus, a aura de lenda, o verossímil, o inverossímil, o vasto, o ingênuo e o romanesco, que encantam os simples e as crianças.

Assim, a história dos Magos, enriquecendo-se, atravessou os séculos da Idade Média, a encheu de aparições, até que triunfou em uma obra-prima: a Historia Trium Regum de João de Hildesheim, composta em torno de 1364 e recolhida por Luca Scarlini no agradabilíssimo Natale dei Magi (Ed. Einaudi).

Agora, finalmente, os nomes desconhecidos dos três Magos foram revelados. Chamavam-se Melkon, Gaspar, Balthasar, ou Melchior, Jaspar, Balthasar.

Cada um deles descendia de uma das três raças da Bíblia: vinham das diversas regiões do Oriente; e encarnavam o passado, o presente e o futuro, ou os sacerdotes, os guerreiros e os cultivadores. Os narradores da Idade Média lhes inventaram um passado, que remontava até às origens do mundo. Quando foi expulso do Paraíso Terrestre, Adão recebeu um dom de Deus que o ligava ao seu criador: um livro escrito, fechado e selado por aquela mão meticulosa e onipotente.

O livro descendeu pelas gerações: foi transmitido de filho em filho; de Moisés a Abraão, a Isaac, a Jacó, a José; e, finalmente, chegou, intacto e imaculado, sem uma folha ou uma letra a mais ou a menos, nas mãos dos Três Magos. Quando o anjo do Senhor anunciou à Virgem Maria que ela se tornaria mãe, naquele mesmo instante, o livro se abriu; e a voz do Espírito Santo – uma voz vibrante que jamais haviam ouvido – anunciou aos Três Magos que deixassem as suas casas, que seguissem uma estrela e que fossem adorar um misterioso Recém-Nascido.

A estrela, quase anônima, do Evangelho de Mateus tornou-se rapidamente uma imensa estrela milagrosa. Lançava rios e rios de luz, que tinham a consistência da água do mar: brilhava mais do que qualquer astro ou cometa jamais conhecido; até mesmo daquela que, poucas décadas antes, havia anunciado o nascimento de Mitridates, rei do Ponto. Os outros astros pareciam se ofuscar e se obnubilar perante aquele clarão superabundante; e dançavam para prestar-lhe homenagem.

Pouco a pouco, a estrela se elevou acima do mundo, como uma águia, e ficou imóvel, fixa no mesmo ponto: o sol se aproximou, roçando-a, quase a tocando; e os raios longuíssimos e ardentes da estrela se tornavam grandes pássaros batiam festivamente as asas. Lá embaixo, na Pérsia, ou na Babilônia, ou na Caldeia, os Magos fixavam o céu com atenção espasmódica; e quando os olhos estavam cansados e quase cegos, perceberam que a superfície do astro era desenhada por uma caligrafia minuciosa e meticulosa: aqui, havia a efígie de uma criança; ali, a imagem de uma virgo o aleitava; lá, um desenho de uma cruz sangrenta.

Ainda não sabiam que aqueles sinais se tornariam marcas evangélicas. Os Magos continuaram fixando o céu por dias e compreenderam que não compreenderam. A estrela milagrosa era um enorme anjo, que tinha assumido as formas e o esplendor de uma estrela: talvez o mesmo anjo que, muitos séculos antes, havia guiado os filhos de Israel para fora do vasto cárcere do Egito.

Os três Magos jamais haviam se conhecido. Vinham de longe e percorriam estradas muito diferentes que não se encontravam na vastidão do deserto e das montanhas. Só uma coisa tinham em comum: aquela estrela, sempre a mesma, sempre diferente, que precedia a cada um deles e os seus exércitos numerosos e muitos coloridos; e avançava quando eles avançavam. Não paravam quase nunca: quase nunca encostavam em comidas e bebidas, e alimentavam os animais de forragem. Caminhavam por um longo tempo e, mesmo assim, acreditavam ter caminhado por uma só jornada e contemplado um só pôr do sol.

Enquanto prosseguiam, os caminhos desconhecidos, os cursos d'água, os pântanos e as montanhas se tornavam vastas planícies, cheias de estradas movimentadas. Perto de Jerusalém, se elevou acima deles uma névoa muito densa e caliginosa, que escondeu a estrela-anjo. Melchior se deteve perto do Monte Calvário; Balthasar, perto do Monte das Oliveiras. Quando a névoa foi se desfazendo, os três Magos se encontraram de repente: nunca tinham se visto, não se conheciam; porém, se beijaram com grande afeto, como se tivessem transcorrido juntos toda a vida. Começaram a falar. Perceberam que falavam línguas diferentes: mas cada um deles acreditava que os outros estavam dizendo as suas mesmas palavras.

Quando os três reis chegaram perto de Belém, vestiram suas vestes e os ornamentos reais, que tinham trazido consigo do Oriente. Ali perto havia uma casa chamada alchan: tempos atrás, cuidava de cavalos, mulas, burros e camelos, que eram oferecidos aos viajantes e aos peregrinos: mas, no tempo dos Magos, a casa estava destruída e restara apenas um pequeno casebre – paredes de tijolo, muros desconexos, um paiol onde se vendia pão, e uma manjedoura de pedra, tão grande quanto uma urna, à qual estavam ligados os bois de um mendicante e o burro de José. Era a manjedoura – "o sinal dos sinais" – da qual falava o Evangelho de Lucas.

A grande estrela-anjo se deteve, abaixou-se entre os tijolos e os muros de pedra com um fulgor tão grande que toda pedra do casebre ficou cega e transfigurada. Os Magos ficaram sacudidos pelo temor. Viram Maria, morena de cabelos e de pele: ela se cobria a cabeça com um manto branco de pano, exceto o rosto envolto em linho, e com a mão direita segurava o corpo de Jesus. Então, Melchior ofereceu a Jesus uma maçã de ouro, que segurava em uma mão, e já havia pertencido a Alexandre Magno. Representava o mundo nas suas formas mais luxuosas e vistosas. Mas Jesus não precisava da maçã de ouro e, assim que lhe foi entregue, o despedaçou e o reduziu a pó com um toque da sua pequeníssima mão.

Nesse momento, começou o retorno. A estrela desapareceu: nenhum esplendor celeste lembrava aos Magos que um grande anjo os havia iluminado por duas semanas. As estradas estavam escuras, íngremes e incertas. Se a primeira viagem havia durado 12 dias, a de retorno, cheio de angústias, de penas e de fadigas, durou dois anos. À noite, como todos os viajantes, os Magos paravam nas pousadas, pedindo comida, ajuda e socorro. Tiveram temor e tremor. No fim dos dois anos, conseguiram voltar para casa, trazendo um estranho presente. Quando tinham saído de Belém, Maria tinha lhes dado uma faixa, como recordação. No Oriente, os Reis e os príncipes se reuniram em torno de Magos, perguntando o que viram e o que fizeram, de que modo haviam ido e voltado, e o que haviam levado consigo. Eles mostraram a faixa de Maria. Celebraram uma festa, acenderam o fogo e, segundo o costume zoroastriano, o adoraram e jogaram a faixa sobre ele. O fogo a envolveu e o encobriu; mas quando o fogo se exinguiu, extraíram a faixa das cinzas, como se a chama nem sequer a tivesse tocado.

Portanto, a verdade – disseram os Magos – não era o fogo do Oriente: mas sim a faixa de Maria, a manjedoura do Menino, a cruz desenhada na estrela, o astro-anjo que os havia protegido, o casebre cheio de esplendor. Os Magos pegaram a faixa, a beijaram, e a colocaram sobre a cabeça e sobre os olhos, dizendo: "Esta é a verdade". Depois, a esconderam com grande veneração entre os seus tesouros.

Por fim, nas suas remotas e quase inacessíveis sedes do Oriente, os três Magos cederam à força do tempo. Melchior tinha 116 anos; Balthasar, 112, Jaspar, 106. Pouco antes que morressem, sobre a sua cidade, apareceu uma estrela: a mesma que os havia guiado a Belém; e agora reapareceu, para saudá-los e, talvez, para acompanhá-los pela última vez. Na oitava da Natividade do Senhor, depois de ter celebrado o Ofício Divino, Melchior inclinou a cabeça e, docemente, adormeceu no colo de Deus, sem sentir nenhuma dor. Na festa da Epifania, inclinando a cabeça, Balthasar; seis dias depois, Jaspar.

Os ajudantes os revestiram com as suas suntuosas vestes reais e sacerdotais: depois, os enterraram no mesmo sepulcro; de pé, um ao lado do outro, como se ainda percorressem as estrada da Palestina, enquanto o astro-anjo os guiava para a mais conhecida e desconhecida das cavernas.

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