''A amizade nos torna humanos''. Entrevista com Roberto Mancini

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08 Dezembro 2011

Às vezes, a amizade se cruza com interesses, trabalho, carreira, dinheiro... os limites da amizade se ampliam, mas depois se tornam instáveis, confusos. Outras vezes, ela se mistura com sentimentos e expectativas diferentes. Outras ainda se esvazia de tempo e de sentido, ou se enche de coisas.

A reportagem é do sítio Oreundici, 12-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

E mesmo que, talvez, demos menos atenção à ela porque as amizades parecem ser "intercambiáveis" facilmente – porque, como adultos, investimos menos nelas, porque, à força de desilusões e rupturas, o fim da amizade pode parecer um percurso inevitável –, os motivos para sentir o sentido de desilusão, de traição, até perceber "rompida", uma amizade são muitos. E não tão secundários na qualidade da nossa existência cotidiana.

Conversamos a esse respeito com Roberto Mancini, filósofo, professor da Universidade de Macerata, "amigo" de Oreundici e de muitas outras realidade na busca de sentido na atualidade que nos cerca.

Eis a entrevista.

Comecemos a partir dos "fundamentos humanos" da amizade. O que é amizade?


Deve-se dizer, sobretudo, que falar de amizade, hoje, é um discurso contracorrente com relação à concepção cultural dominante, que orienta as relações humanas à rivalidade, à competição, à conveniência recíproca. Ainda mais que a amizade se distancia da lógica política que, como Carl Schmitt havia teorizado, fundamenta as relações sobre a contraposição ao inimigo. Evidentemente, a amizade não é a partilha dos mesmos interesses, nem a contraposição ao mesmo inimigo. A amizade é aquela forma de relação hoje necessária para dar um passo à frente no caminho de humanização, aquele caminho que requer que o homem aprenda e ame essencialmente no respeito às diferenças e à alteridade.

A amizade é a forma mais livre do amor, desvinculada da necessidade de posse e de exclusividade que, às vezes, são próprias do amor de casal. Amizade não é relação entre iguais ou entre semelhantes, não é unicamente confidência e encontro entre dois sujeitos que compartilham a mesma condição, os mesmos interesses, as mesmas experiências. Ao contrário, a amizade corre o risco de implodir, de se repetir, de se fechar e, enfim, de se romper se não se abrir a algo de "terceiro": um ideal, um horizonte que leve o olhar e o encontro para fora do encontro pessoal.

Nem sempre é fácil viver essa qualidade de relações. Quais são os maiores obstáculos à amizade?

Naturalmente, as dificuldades nas relações de amizade são muitas, como sempre nas relações humanas. Além do elemento cultural da competição, uma das principais razões que tornam difíceis as amizades é o medo, medo do outro, medo da diversidade, medo do confronto, medo de ser desestabilizado das próprias posições e certezas. Então, desencadeiam-se aqueles mecanismos que transformam o desejo da amizade, que é inerente a todo ser humano, nas dinâmicas opostas a ela: a inveja, o ciúme, a desconfiança, a maledicência.

Essas dinâmicas obstaculizam a amizade, porque impedem que se instaure a confiança, que é o seu ingrediente essencial. É preciso a disponibilidade de se pôr em discussão, de ouvir o outro, de acolhê-lo, de não julgá-lo. Sem uma confiança não julgante, não é possível que cresça essa relação plenamente humana e humanizante que chamamos de amizade.

No entanto, as dificuldades podem ser superadas, podem ser pontos de articulação em uma relação.

Precisamente as dificuldades, os limites, as incompreensões são ocasiões para transformar uma relação em uma amizade mais verdadeira e mais profunda. Obviamente, em uma relação que para na primeira dificuldade, não é assim. Ousar o perdão, acima de tudo na consciência de ter que ser perdoado e, portanto, de pedir perdão é um dos maiores desafios que a amizade oferece. Significa a capacidade de partir de si mesmo na busca da causa da decepção ou da incompreensão, em vez de apontar a responsabilidade e a culpa sobre o outro.

É aquela premissa indispensável que Gandhi manifestava ao dizer que é preciso buscar em nosso próprio interior as razões dos conflitos, em vez de atribuí-los ao outro fora de nós mesmos. Aqui se dá a escola da amizade: ao cultivar a própria humanidade, a própria consciência de si ou o conhecimento e a acolhida daquelas sombras negativas que estão dentro de nós e que, ao contrário, nós projetamos mais facilmente sobre o outro. Enquanto a pessoa não aprender a olhar para dentro de si e conhecer o que habita no seu íntimo, não lhe será possível cultivar aquela modalidade de relação baseada na gratuidade e na confiança que é a amizade.

Arturo Paoli muitas vezes indica no uso abusado da técnica uma das causas que impedem que os jovens criem amizades verdadeiras. Transmitir palavras a distância, sem se encontrar, não é amizade. Quais são os elementos que constituem uma relação que pode ser definida como amizade?

Excluo o fato de poder falar de amizade no Facebook, justamente porque ela não é feita apenas de palavras transmitidas à distância, mediadas pela técnica, mas tem uma necessidade essencial do rosto do outro. A amizade é encontro de rostos, partilha de tempo, prazer de ficar juntos, troca de palavras, escuta e silêncio. Tudo isso requer tempo, requer atenção, requer reconhecer a prioridade de uma dimensão – a da amizade – sem a qual a existência se torna desumana. Talvez não nos demos conta o suficiente disso, mas é justamente esse o motivo pelo qual eu considero que a dimensão da amizade é o horizonte da nova humanização à qual somos chamados.

Finalmente, uma referência à mensagem cristã, às palavras de Cristo: "não vos chamo mais servos, mas sim amigos". O que essas palavras significam?


Eu acredito que, quando Jesus de Nazaré dizia aos seus seguidores "não vos chamo mais servos, chamo-vos amigos", ele indicava uma qualidade específica da fraternidade e da sororidade: não mais a fraternidade marcada pela rivalidade, mas sim uma relação amorosa completamente livre do ciúme, da inveja, da luta.

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