"A representação é a ausência da participação’, diz Antonio Negri

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01 Dezembro 2011

Em uma nova visita à Argentina, o filósofo italiano Antonio Negri relata seu fascínio pelos novos movimentos estudantis no Chile e pelos indignados na Europa. Acaba de fazer uma visita para falar aos estudantes chilenos.

A entrevista é de Veronica Gago e está publicada no jornal argentino Página/12, 28-11-2011. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

O que significa a emancipação hoje?

É preciso situar a emancipação a partir de uma perspectiva espacial, que implica pensar "a partir de baixo", e a partir de uma perspectiva temporal, que coloca em primeiro lugar a tendência que deseja que todo o comum, que hoje só compartilhamos em um nível virtual e técnico, se converta em algo atual e político. E para isto é preciso pensar, como experimento, as figuras atuais da subjetividade. Com elas devemos confrontar qualquer expectativa de emancipação.

Quais são essas figuras?

A primeira delas é a do homem endividado, aquele trabalhador precário que fica preso ao crédito quase o resto da vida, reduzido a uma espécie de servidão por dívidas. A isto corresponde a "renda" do capitalismo atual, e a resistência é dizer "não pago", como uma forma multitudinária de recusa e, ao mesmo tempo, de apropriação da riqueza comum. Depois, o homem midiatizado, que substitui a velha noção de alienação para dar conta da submissão aos dispositivos de comunicação, que escondem a inteligência humana, a verdade comum da comunicação, sob formas novas de controle. Em terceiro lugar, o homem assegurado é aquele que é obsessivo pela segurança de sua propriedade, pelo risco de sua vida, pelo medo da pobreza. Finalmente, o homem representado, que podemos dizer que é o núcleo do problema da emancipação.

Por quê? Qual é a crítica?

Estamos trabalhando isto com Michael (Hardt) agora. É uma tipologia que tem como problema a questão da nova constituição a partir da qual entender quais são os desejos e as experiências destes sujeitos. Do ponto de vista negativo, Schmitt tem razão quando diz que a representação é a presença de uma ausência. Também a representação de Rousseau é sempre uma ruptura, uma fetichização da presença. E essa presença é construída por elementos que não tem nada a ver com a participação.

Em que sentido?

Enquanto a representação é a ausência da participação e a presença de uma máquina de poder que se organiza de maneira nova frente a estas figuras da dívida, do controle do risco e dos meios de comunicação. Neste sentido, não é a velha crítica à representação pela burocratização de seus procedimentos administrativos. Hoje, não existem esses procedimentos como instâncias separadas porque, entre outras razões, os lobbies já não são algo externo, mas que estão completamente absorvidos no governo.

Está pensando em alguma situação particular?

Em Obama, que, como candidato presidencial, propõe reformas, vence com esse discurso e, para levá-las adiante, convida os poderes de lobby que são contra essas reformas! É uma loucura. Isto se dá em um momento em que os governos em geral têm menos condições parlamentares para tomar decisões. O governo dos Estados Unidos pode intervir na magistratura sem nenhum sistema de controle nem de check and balance. Esta concentração de poder, no entanto, não consegue sair dos problemas de uma representação forjada no século XVII, que torna as constituições atuais constituições de direita. Com isto me refiro ao fato de que a democracia representativa impõe alguns limites à participação que são insuperáveis e torna impotente inclusive a concentração de poder.

Em boa medida, contra estes limites se levanta também o movimento de ocupação de praças de Tahrir a Madri, midiaticamente batizado de indignados.

Fiquei fascinado com o discurso dos indignados sobre o medo. Eles dizem "não temos medo". É uma coisa fantástica se pensamos que toda a filosofia política ocidental está fundada sobre o conceito de medo, que organiza o exercício da violência do exército e da polícia como efeito do nosso medo, pelo qual lhes cedemos o poder.

Além disso, há novas formas de debate assembleário nas ruas...

Esses jovens não falam mais que cinco minutos, vão ao essencial, aprenderam com o Twitter (risos). Fazem também uma crítica ao conceito de maioria, à obediência sem mais dos 51%. Por último, desenvolvem toda uma crítica muito interessante à ideia da decisão rápida, mostrando como sempre a decisão é um processo de construção lenta, conjunta, que se consolida nesse tempo compartilhado, o que anula de fato todo o privilégio dado ao discurso dos especialistas. E o que assinalo vocês aprendem ouvindo e falando com as pessoas na rua, não em um colóquio de filósofos.

Como compreender a situação italiana depois da renúncia de Berlusconi? O que muda?

A situação italiana após a queda de Berlusconi é exatamente a mesma de antes, menos o "bunga bunga". O governo de Monti é um governo "técnico" que procurará implementar o diktat europeu neoliberal que Berlusconi não conseguia e conseguirá fazê-lo com o apoio da esquerda. A chantagem do default funciona de maneira notável, sobretudo porque falta qualquer ideia alternativa e falta um mínimo de vontade política alternativa ao esquema neoliberal.

Essas referências ao mercado são conhecidas na Argentina...

É realmente grotesca a situação na qual nos encontramos: estamos sob o ataque dos "mercados" e ninguém procura entender o que são estes mercados e em nome de que coisa estão se movendo; quero dizer: a defesa do dólar e, em consequência, o ataque à Europa política. Ao mesmo tempo, faz-se tudo aquilo que é preciso fazer para obedecer aos diktat dos próprios mercados. Ninguém ousa dizer que os mercados são internos à lógica do poder político atual, seja Berlusconi ou Monti e do qual a esquerda faz parte.

Diante deste panorama, o que espera dos movimentos sociais europeus?

A primeira coisa que espero, porque na realidade já demonstraram isso amplamente durante os últimos meses, é a permanência de uma resistência a este desastre. Por resistência entendo duas coisas: em primeiro lugar, rechaçar ponto por ponto as iniciativas que se vem tomando, sobretudo contra os salários e o Welfare (Estado de Bem-estar social); em segundo lugar, a capacidade de imaginar um programa e instituições do comum para expulsar as atuais elites econômicas e políticas. A situação é dramática, mas, como sempre, frente a estas políticas capitalistas de choque, se abrem e se estendem frentes de resistência.

Nesse ponto é também um momento de inovação política?

São ocasiões relevantes para construir novas culturas políticas. Tudo isto não é imaginável sem conectar as práticas do comum e uma revitalização do projeto de construção política da Europa. Uma Europa das multidões e não dos mercados.

Falando da América Latina, você assinalou que já não se pode pensar os movimentos sociais como um poder paralelo e que, antes, se pode apostar numa relação dinâmica entre movimento e Estado. Contudo, hoje destaca também o risco de dissolução dos movimentos no Estado. Como o sintetizaria?

O poder paralelo busca enfrentar o Estado. Hoje a questão não passa por ali, mas pela construção de um comum que ultrapassa o Estado. Mas este além não pode ser pensado a partir da homogeneidade, pelas diferenças de espacialidade e temporalidade que existem. Neste sentido, os processos de singularização tornam-se centrais para pensar o comum. E, neste ponto, trata-se de uma totalidade muito difícil de conquistar. Então, devemos ser muito prudentes. Mas devemos imaginar novas formas de governo e, para isso, o primeiro problema é eliminar a propriedade privada. Não se trata de regulá-la ou conduzi-la para fins sociais. Só a eliminação real, não formal, da propriedade privada pode dar hoje o verdadeiro reconhecimento de que a organização do trabalho, a organização das formas de vida e das organizações sociais já não podem ser bloqueadas pelo capital privado enquanto são expressão da potência comum, laboral, cultural e social.

É uma inadequação das forças produtivas do social em relação aos limites das relações que as constrangem?

De algum modo é a clássica questão das relações de produção que bloqueiam as forças produtivas. O dilema é como conseguir abrir este comum a novas formas de constituição, o que significa transformar radicalmente o texto constitucional, ou seja, abrir um espaço ao poder constituinte, levando a sério as formas nas quais vivemos.

Após várias visitas à Argentina desde 2003 até hoje, que mudanças observa na linguagem política?

Na Argentina, em particular, o discurso político parece referir agora, e com insistência, sobretudo a saída de duas crises: 2001 e 2008. Neste ponto, alguns analistas começam a falar da América Latina, em particular da Argentina, Brasil e Bolívia, em termos de uma paralisação, de um momento de pausa. Isso se traduz em que na política destes países se faz mais forte a referência ao passado, ao que se conseguiu e superou, e tem menos presença um discurso de futuro. Em relação à Europa e à sua crise, chama a atenção como funciona aqui a ideia de pátria, já que lá não poderia ser evocada e aqui, ao contrário, parece uma coisa viva.

Isto, pode-se dizer, coloca um horizonte progressivo em relação à história recente do país e da região, mas tem o risco de ser conservador quando não dá lugar a outro horizonte...

É preciso ver até que ponto o discurso do estado-nação não entra em contradição com a aposta em uma região latino-americana, caso esta não for pensada a partir de um imperialismo interno. Uma relação plural a nível mundial deve calibrar suas políticas em relação aos outros.

Na Argentina, a referência a Gramsci é muito forte. É também o autor do conceito de hegemonia, que é chave na teoria de Laclau. Como você se relaciona com este autor italiano?

Gramsci sempre esteve constrangido, ao meu ver, pela política italiana, europeia, como um homem que esteve na formação do Partido Comunista na Itália, na Terceira Internacional e que, depois, uma vez na prisão, se dedicou a estudar e pensar de uma maneira que o transformou em outra pessoa. Mas essa mudança foi completamente escondida e anulada pelo PCI que o apresentou como o teórico da hegemonia. Mas que coisa era a hegemonia desse ponto de vista? Era a hegemonia do partido que se exercitava em uma aliança entre setores. E se deixava de lado, por exemplo, o grande problema pensado por Gramsci que é a relação entre o norte e o sul. Também toda a ideologia e a prática sobre os conselhos é anulada e a distinção entre guerra de movimentos e guerra de posições se evade. Com isto quero esclarecer que Gramsci não fez parte da minha formação. O primeiro livro de Asor Rosa contra Pasolini (N. do E.: Scrittori e popolo), que foi decisivo para nós, o lemos como uma interpretação contra o Gramsci nacional-populista. Isto quer dizer, contra o Gramsci que não faz nenhuma menção à questão de classe, ou que quando ela existe é confusa e dispersa.

 

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