Lynn Margulis e a paixão pela vida

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01 Dezembro 2011

"Demonstrando uma intuição excepcional e um conhecimento formidável da biologia, Lynn Margulis não demorou em dar-se conta do papel central que a simbiose exerceu na origem das células nucleadas de plantas, fungos, animais e uma infinidade de micro-organismos", escreve Antonio Lazcano Araujo, em artigo publicado no jornal espanhol El País, 30-11-2011. A tradução é do Cepat.

Antonio Lazcano Araujo é professor de Origem da Vida na Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) e ex-presidente da Sociedade Internacional para o Estudo da Origem da Vida.

Eis o artigo.

Quando o telefone tocava em horas insólitas da manhã eu tinha certeza de que era a Lynn Margulis (Chicago, 1938). Em um espanhol salpicado de aztequismos aprendido a muitos anos atrás em um povoado próximo à Cidade do México, me saudava recitando a lista interminável de meus nomes e sobrenomes e sem tomar fôlego me descrevia as descobertas ainda não publicadas sobre micro-organismos exóticos, me convidava a dar uma conferência, me contava os avanços de seu último livro, me pedia que lhe descrevesse as últimas novidades sobre a origem da vida e terminávamos a conversa com a certeza de que logo nos veríamos novamente. Dona de uma vitalidade inigualável, que levou os estudantes de Boston a apelidá-la de Nossa Senhora do Movimento Perpétuo, a mistura explosiva de sua inteligência, irreverência científica e grande calor humano seduziu uma infinidade de alunos, colegas e amigos, que seguimos lamentando sua morte prematura ocorrida em 22 de novembro passado, aos 73 anos, em consequência de uma embolia.

É impossível separar a vida pessoal de Lynn Margulis de sua biografia científica. Aos 14 anos ingressou na Universidade de Chicago, e ao concluir seus estudos de Biologia, três anos mais tarde, mudou-se para o México para trabalhar em um projeto de etnobotânica ao lado de Oscar Lewis, o legendário antropólogo da pobreza que estudava a vida cotidiana de Tepoztlán. Linguista nata, ali Lynn reforçou o amor por todas as variantes do castelhano que havia começado a conhecer quando se aventurava com audácia de adolescente pelos bairros baixos de sua cidade natal, Chicago. Sua permanência em Tepoztlán durou menos de um ano, mas quando retornou, 30 anos depois, as anciãs saíam de suas casas para abraçá-la, apresentar-lhe seus filhos e netos e convidá-la para comer sentados no chão em torno do fogão.

Lynn voltou para os Estados Unidos, casou-se com Carl Sagan, teve seus primeiros dois filhos e terminou seu doutorado. Divorciou-se de Sagan e se casou com Nick Margulis, químico norte-americano, e teve mais dois filhos, mas separou-se novamente porque não quis cuidar do fogão para Carl Sagan nem ninguém outro. Enquanto fazia a pós-graduação as descobertas da biologia molecular estavam transformando as ciências da vida mês a mês, mas pouquíssimos se interessavam pela origem e evolução das células.

Demonstrando uma intuição excepcional e um conhecimento formidável da biologia, Lynn Margulis não demorou em dar-se conta do papel central que a simbiose exerceu na origem das células nucleadas de plantas, fungos, animais e uma infinidade de microorganismos. Assim, enquanto alguns olhavam para o DNA, ela começou a debruçar-se sobre o planeta, o que lhe permitiu descrever a relação entre alguns processos centrais da evolução biológica com a transformação da atmosfera, os sedimentos e a hidrosfera da própria Terra. Algumas vezes se equivocou, mas seus acertos modificaram para sempre a nossa percepção da biosfera.

Eu a acompanhei para tomar chá com aristocratas ingleses, tentei mediar quando se enroscou em uma discussão com Stephen Jay Gould nos palacetes suecos de Alfred Nobel, e me arrastou com gosto para visitar George Gaylord Simpson e Ernst Mayr. Obrigou-me a acampar no meio de salinas desoladas, contemplei desde a segurança de uma praia como se metia a nadar entre os leões marinhos nas Ilhas Galápagos e a vi fascinar as boas famílias latino-americanas que faziam caso omisso de seu desinteresse pela etiqueta enquanto se rendiam ao encanto de sua inteligência deslumbrante. Mas onde realmente era feliz era com os estudantes, para os quais sempre teve um lugar em sua mesa e em seu coração. Não por acaso seu filho Dorion Sagan afirmou que tratava os seus alunos como se fossem seus filhos, e os seus filhos como se fossem seus alunos de pós-graduação.

Consciente das implicações de sua teoria sobre a origem simbiótica das células nucleadas, corrigiu Linneo e Haeckel e se pôs a reclassificar todas as criaturas visíveis e invisíveis, que agrupou em cinco grandes reinos. Os micróbios eram seus preferidos, e em sua carteira trazia as fotografias de seus protistas preferidos ao lado das imagens de seus filhos e netos. Escritora prolífica e de um enorme refinamento intelectual, fez da promoção da visão secular da evolução um de seus empenhos fundamentais. Foi uma amiga leal, uma mestra insuperável e uma colega generosa, que comecei a compreender e querer mais no dia em que, durante uma conferência, descobri em seu olhar o candor de uma criança frágil, mas armada de uma curiosidade e de uma coragem irrefreável, pronta para penetrar no desconhecido, como o fez agora e para sempre.

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