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30 Novembro 2011

A meio século da abertura da cúpula convocada por João XXIII, percebe-se a necessidade de um encontro que coloque em debate todos aqueles que se reconhecem no Evangelho de Jesus. São precisamente as suas recorrentes diatribes que demonstram que as diversas confissões cristãs são irmãs.

A análise é Alberto Melloni, historiador da Igreja italiano e professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 27-11-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Era outubro de 1999. A sede, o Sínodo dos Bispos, o órgão que, com a sua impotência canônica, zomba da colegialidade episcopal e, com a sua simples presença, agudiza a sua necessidade. A voz, a do arcebispo de Milão, Carlo Maria Martini. O tema, a necessidade de um Concílio para a Igreja Católica.

Não se tratava de uma novidade: muitos já haviam dito que era preciso um sínodo geral – o slogan é o do "Vaticano III". Os teólogos de várias tendências, por volta do fim do pontificado de Paulo VI, com a intenção de enfatizar a dramaticidade de uma situação, com o sonho de radicalizar ou de inverter as posições do Concílio de João XXIII. Mas não era normal que uma instância desse tipo encontrasse a voz de autoridade do cardeal de Milão: que, de São Carlos em diante, constitui a nomeação mais decisiva para um papado e, justamente por isso, está fatalmente destinado a se tornar, graças à estatura que o papa lhe reconhece e à visibilidade que a sede lhe confere, uma espécie de antagonista atenuado do pontífice – como foi Ferrari para Pio X, Schuster para Ratti, Montini para Pio XII, Martini para João Paulo II.

Os pontos que Martini indicava como agenda de uma futura assembleia de bispos de escala universal – um eufemismo que não queria fazer sombra ao papa, ao qual compete a convocação do Concílio – haviam sido no máximo encostados pelo magistério de Karol Wojtyla: a "carência dos ministros ordenados", a "posição da mulher", a participação "dos leigos em algumas responsabilidades ministeriais", "a sexualidade, a disciplina do matrimônio, a práxis penitencial", a revitalização da "esperança ecumênica". E a década que o cardeal indicava como horizonte temporal se colocava além do seu episcopado e – como efetivamente ocorreu – também do pontificado wojtyliano.

Desde então, o tema desapareceu da agenda dos bispos: levantada de tempos em tempos como uma boutade jornalística de efeito seguro, a questão do "Concílio futuro" é, segundo alguns, muito banal. Obviamente, haverá um novo Concílio irá, mais cedo ou mais tarde: mesmo depois do Vaticano, quando o maximalismo de alguns teólogos dizia que, depois de ter deliberado sobre o primado e a infalibilidade, as tarefas de uma cúpula dos bispos haviam sido reabsorvidas pelo papa, se discutia a necessidade de um Concílio que tratasse, com a lente e não com o bastão, os problemas doutrinais, culturais e políticos classificados por Pio X como "modernismo". E, naquela primeira metade do século XX, quando o movimento ecumênico dava os seus primeiros passos com dificuldade, a esperança de um Concílio percorria todas as Igrejas: em Moscou, no distrito de Fanar de Istambul, em Roma, no Lambeth Palace, de Londres, a ideia de que a comunhão tivesse mais autoridade do que o poder como tal era "tratada" como um talento de graça dado às Igrejas.

Muitas Igrejas abordaram o "talento" conciliar no final do século XX. Em primeiro lugar, a Igreja Católica, cujo Vaticano continua sendo, 50 anos depois da sua celebração, objeto de uma discussão que testemunha a sua vitalidade, que lhe é conferido pelo seu status, pela sua obediência, pela sua vitalidade regeneradora, ou – como Bento XVI – "de reforma". Depois, as Igrejas não calcedonianas, que realizaram o milagre de um Concílio comum em Adis Abeba, em 1978. E ainda a ortodoxia russa, que, depois do cativeiro soviético, começou novamente a celebrar Concílios que moldam o seu direito e até uma espécie de "doutrina social" hegemônica. O Concílio pan-ortodoxo, que há décadas espera um ponto de reviravolta, poderia ter encontrado no neoconstantinismo de Erdogan e na humilde tenacidade do patriarca ecumênico Bartolomeu I, a chave para chegar a uma cúpula que marcaria para sempre a história cristã. E as grandes Igrejas da Reforma e do protestantismo – teoricamente, as mais relutantes em usar a sinodalidade – continuam recorrendo ao consenso sinodal para serem elas mesmas, ao ponto de que o Concílio mais recente da grande série de edições críticas dos "Conciliorum oecumenicorum generaliumque decreta", realizada para o Corpus Christianorum, é o Concílio de Grand Rapids de 2010...

Certamente, a julgar pela mediocridade do debate teológico destes anos – muitas vezes reduzido a banalidades adulatórias, vícios personalistas e acuradas eliminações dos verdadeiros problemas das Igrejas –, se poderia dizer que o Concílio de uma Igreja, mesmo que vasta como a católica, correria o risco de se empobrecer em traços óbvios. E o sonho de um Concílio "das Igrejas" – que no Conselho Mundial de Igrejas, de Genebra, se esgotou em um precioso trabalho de diplomacia infraeclesiástica – parece muito longe para quem conhece a quantidade de descortesias que as Igrejas sabem trocar entre si.

Mas talvez justamente esse desdém extravagante, que só se atenua para falar mal em coro da laicidade ou do secularismo, diz que verdadeiramente as Igrejas são "irmãs" no sentido mais simples e familiar do termo: e, portanto, capazes de retaliações.

E capazes, pelo mesmo motivo, no mesmo momento, até de se amarem: o Concílio – de uma confissão, de muitas confissões –, no fundo, é sobretudo isso. Além de um tribunal, uma cátedra, um "scriptorium", um coro vesperal, é o lugar para aprender a amar na diferença, no confronto, na luta: e, portanto, um destino para as Igrejas, que as desafia justamente através da sua dramática perda de autoridade espiritual e deforma a sua resistência à unidade.

Por quanto tempo a Igreja poderá aceitar ser a guardiã de símbolos, a protetora de três princípios morais, um agente político a ser temido, pagando o preço de não ser lida por todos, dentro e fora dos muros, como mestra de fé e de penitência? Não para sempre: como dizia a voz a Paulo, resistente à conversão, "duro te é recalcitrar contra o aguilhão", e o Concílio também é isso, uma espora fincada no futuro.

 

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