Uma relíquia em socorro da baixa natalidade russa

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15 Novembro 2011

Sofia tinha 19 anos quando descobriu que estava grávida. O pai não queria a criança, nem a a sua família. "A sua vida está arruinada", disse-lhe a mãe. "Se você tiver o bebê, você pode colocar uma cruz sobre o seu ensino superior", afirmou a avó. Companheiro, amigos, parentes a convidavam a abortar. Sofia não queria saber disso.

A reportagem é de Marie Jégo, publicada no jornal Le Monde, 11-11-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ela resistiu as pressões. Deu à luz uma menina que hoje tem cinco anos. Ela teve que interromper seus estudos de medicina, acabou encontrando um emprego no turismo. Sofia não se arrepende de nada: "Eu escolho a vida em vez da ausência de vida".

No entanto, ela é favorável ao aborto: "Pessoalmente, eu não quis fazer recurso dele, mas acho que a decisão cabe a cada mulher individualmente". Sofia acompanhou de perto a adoção da lei sobre o aborto, no dia 21 de outubro, por parte da Duma (a câmara baixa do Parlamento russo). Em discussão desde o início de 2011, esse projeto de lei fez correr rios de tinta.

Sete religiosos ortodoxos e um muçulmanos faziam parte do grupo de trabalho encarregado de formular as sugestões. Entre estas, a obrigação para as menores de idade de pedir a autorização dos pais; para as mulheres casadas, a do marido. A outra proposta consistia em aumentar as taxas da operação para dissuadir as mulheres de abortar. "É algo estúpido: elas irão recorrer ao aborto clandestino, ou irão pôr filhos no mundo para depois abandoná-los", acredita Sofia. Até agora, o país conta com quase um milhão de órfãos, e os abandonos de recém-nascidos estão em um número muito alto.

Com grande alívio geral, essas indicações não foram seguidas pelos deputados. Na versão final, a lei prevê a instauração de um "período de reflexão" (entre os dois e os sete dias) e fixa o limite da intervenção para 12 semanas (22 semanas em caso de estupro ou de complicações médicas). Durante esse período, estão previstas consultas psicológicas.

Os religiosos da Fundação Ortodoxa de Santo André, autores das "recomendações médicas para as consultas em vista do aborto", falaram da necessidade de "assustar as mulheres insistindo sobre os riscos de complicações". Para se obter qual resultado?

Com 1,186 milhão de interrupções voluntárias de gravidez (IVG) em 2010, segundo a Rosstat, a agência estatal de estatística, a Rússia mostra uma das taxas mais altas de aborto do mundo. Alguns especialistas dizem que as estatísticas oficiais não levam em conta as interrupções praticadas nas clínicas privadas e que o número total de interrupções estaria entre 5 e 6 milhões por ano.

Apesar de uma década de melhorias no bem-estar econômico, Rússia (142,9 milhões de habitantes, dos quais um milhão são imigrantes legais) encontra-se diante de um problema vertiginoso: a sua demografia. Minada pela desnatalidade e sobretudo pela alta mortalidade masculina – a expectativa de vida masculina é de 62 anos segundo a OMS –, a Rússia perdeu 2,2 milhões de habitantes em oito anos, ou seja, uma diminuição de 1,6% da sua população, segundo os resultados preliminares de um censo de outubro de 2010.

Preocupadas com esse problema desde 2007, as autoridades puseram em prática medidas voltadas a encorajar os nascimentos (subsídio a partir do primeiro filho, duplicação dos subsídios familiares). Desde então, a natalidade teve um leve sobressalto, com 1,7 milhão de nascimentos em 2010. Mas serão necessários mais para que o país possa ter um saldo positivo da sua população. Ainda mais que as mulheres em idade fértil agora fazem parte das "classes vazias", ou seja, as gerações nascidas entre 1985 e 1990, quando surgiu o caos que surgiu do pós-comunismo não incentivava a formar uma família.

Por sorte, a Igreja Ortodoxa não tem falta de ideias. No dia 20 de outubro, o cinto da Virgem Maria, uma relíquia oriental que se acredita que estimule a fertilidade feminina chegou da Grécia em grande pompa. O primeiro-ministro Vladimir Putin foi pessoalmente acolhê-la no aeroporto de São Petersburgo, a antiga capital imperial.

Conservada até aquele momento em um mosteiro do Monte Athos – proibido para as mulheres –, o cinto jamais havia saído do país. Graças ao poder de persuasão da Fundação de Santo André, dirigida por Vladimir Iakunin, presidente da RJD (as ferrovias russas), um parente de Vladimir Putin, os monges gregos aceitaram emprestá-la.

Exposta na igreja de Nossa Senhora de Kazan, na Perspectiva Nevsky [a principal artéria da cidade], a preciosa relíquia vai começar em breve uma turnê por toda a Federação. Até o dia 23 de novembros, ela será exposta em 12 cidades, de Kaliningrado (o enclave russo entre a Polônia e a Lituânia) a Vladivostok (Extremo Oriente), passando por Moscou.

O seu sucesso está garantido. Em São Petersburgo, milhares de mulheres esperaram por horas para conseguir tocar a relíquia com a ponta dos dedos. Vestido pela Virgem – afirma-se – até o último suspiro, o cinto tem o poder de curar doenças graves e de favorecer a fertilidade. E não só isso. Exposta nos centros de aconselhamento psicológico para mulheres grávidas, ele também poderia dissuadi-las de abortar, afirma o site do Patriarcado Ortodoxo.

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