Por que a cultura precisa da ciência. Entrevista com Daniel Dennett

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12 Novembro 2011

O filósofo norte-americano explica a sua teoria da competência sem compreensão. Como os computadores podem fazer alguma coisa mesmo que não saibam como ela funciona.

A reportagem é de Maurizio Ferraris, publicada no jornal La Repubblica, 04-11-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No debate entre realistas e antirrealistas, não está em questão a existência da realidade, mas sim o papel de esquemas conceituais e práticas sociais na construção da realidade. Por exemplo, é evidente que os impostos e os casamentos dependem de esquemas conceituais e de construções sociais, mas isso também vale para as montanhas e os números? E – com consequências políticas mais complexas – para entidades que parecem oscilar entre natureza e cultura, como, por exemplo, o sexo ou as doenças?

Os antirrealistas e, em particular, os pós-modernistas tendem a alongar a lista das realidades construídas, a partir do pressuposto de que o mundo exterior é uma realidade amorfa que recebe forma e sentido apenas dos nossos esquemas e das nossas práticas. Mas isso pressupõe que a nossa relação com o mundo (a competência com a qual nos relacionamos no ambiente) consiste em uma ininterrupta atividade deliberada e consciente (em uma compreensão).

Falamos a respeito disso com Daniel Dennett, um dos mais influentes filósofos da mente contemporâneos, que elaborou a hipótese de uma "competência sem compreensão".

Eis a entrevista.

Pode nos ilustrar brevemente a sua teoria?

Durante milênios, os filósofos e outros pensadores tomaram como boa uma perspectiva" de cima para baixo", para a qual – na maioria dos casos, senão em todos – a compreensão está na origem das nossas competências. Isto é, eles pensam que nós somos competentes porque compreendemos. Quando, ao contrário, é muito mais razoável pensar que a compreensão é o resultado de elementos que, por sua vez, não compreendem a si mesmos.

Talvez, neste caso, um exemplo ajudaria na compreensão...

Podemos fazer alguma coisa sem saber como ela funciona. O computador não conhece a aritmética, mas sabe calcular. Em outras palavras: assim como as coisas vivas hoje são compreendidas como compostas por organismos não vivos – por exemplo, pelas proteínas –, que são altamente competentes (não são simplesmente "tijolos"), as coisas acompanhadas de consciência podem ser explicadas como compostas por elementos altamente competentes, mas não compreendentes. Em nenhum dos dois casos há um misterioso elemento extra. Não é preciso um élan vital misterioso para fazer com que alguma coisa viva, nem um espírito imaterial ou uma "res cogitans" para fazer com que, de uma competência cada vez mais evoluída, emerja a compreensão. A consciência é o resultado de um grande número de atividades não conscientes.

Se as coisas estão nesses termos, a iniciativa vem muito mais do mundo – do ambiente enquanto dotado de informações e de características estáveis – e não da mente.

Mesmo que você pense que tem que tomar aquela chamada realidade externa e vê-la como algo produzido por aquilo que está na sua cabeça, você se dá conta de que aquela chamada realidade dá forma e constrição àquilo que está na cabeça de qualquer outro. Então, por que a sua cabeça deveria ser diferente? Os nossos cérebros e órgãos dos sentidos foram moldados ao longo das eras para extrair informações verdadeiras do ambiente e usá-las para criar previsões sobre o futuro. Ter razão sempre foi uma coisa muito importante para a vida e a morte. E certamente não evoluímos contra a nossa necessidade de verdade.

Certamente é verdade que o nosso sentido subjetivo da realidade é "mental ou socialmente construído", mas os vínculos sobre a construção são tão fortes que, se você mostrar a mesma cena a milhares de pessoas diferentes provenientes de todo o mundo, elas estarão de acordo sobre quase todas as principais características da cena, até mesmo sobre aquelas que não entendem. O fato de que podemos compreender, e portanto manipular, reconhecer e integrar as diferenças residuais, de percepção e de convicção, devidas a características idiossincráticas, não nos torna impenetráveis uns aos outros e não nos imerge em mundos privados.

Além disso, um dos maiores resultados da cultura humana é a invenção de milhares, literalmente, de "próteses", voltadas a remover as diferenças subjetivas devidas à nacionalidade, religião, gênero, idade, riqueza e educação. Essas próteses são chamadas de "ciência", que é a mesma para todos e atinge todos os cantos das nossas vidas. Para dar um exemplo banal, colocar uma rede pendurada no aro de uma cesta [de basquete] torna mais fácil para que todos, estejam de pé ou sentados, vejam se a bola passou pela cesta.

E as divergências que se produzem acerca de valores, escolhas políticas, decisões existenciais?

Grandes diferenças políticas ou religiosas, se não resolvidas, podem levantar aquilo que, à primeira vista, parece ser um obstáculo insuperável para a cooperação e para a comunicação. Muitas vezes, podem levar a confrontos dramáticos até. Mas é evidente que, em uma comunidade democrática, até elas podem ser compreendidas e discutidas. Por exemplo, pode-se argumentar que, apesar das "bênçãos da tecnologia e da ciência", todos nós estaríamos melhor, viveríamos vidas melhores em um mundo pré-moderno.

Eu discordo, mas acho que é uma opinião que vale a pena explorar e fico feliz em contribuir para a catalogação das perdas e dos compromissos que toleramos por amor das "conveniências da modernidade". Em uma conversa sobre os nossos diversos pontos de vista sobre o significado da vida, nunca haverá uma vitória definitiva, mas sempre estaremos de acordo sobre o que são os computadores, os celulares, os antibióticos. E a partilha desses fatos está na base de todas as interações comunicativas, mesmo as mais ardentes.

Algumas formas de realismo podem reduzir a crítica e o espaço da liberdade?

O realismo reduz a sua liberdade da mesma forma que a força da gravidade e a atmosfera. A nossa liberdade é maravilhosa, mas não absoluta, e sem o "entrave" reconhecido pelo realismo seríamos idiotas que fantasiam. Mas não por muito tempo. A natureza sabe como dar fim às ilusões daqueles que subestimam o realismo. Pensando bem, eu não posso acreditar que houve pessoas convencidas pelas tentativas do pós-modernismo de negar a importância da realidade e da diferença entre o verdadeiro e o falso. No entanto, pelo que parece, a moda do pós-modernismo desapareceu, pelo menos nos Estados Unidos. Há muitos anos que eu não vejo rastros dele nos estudantes, que comumente, nas aulas, me inundavam com perguntas pós-modernas.


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