As leituras divinas do cardeal Martini

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30 Outubro 2011

Utopia, liberdade e fé: o método maiêutico do cardeal Martini.

A análise é do teólogo italiano Vito Mancuso, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 26-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No fim, o que determina o valor de um ser humano é o método, mais do que os conteúdos da mente ou as ações realizadas pelas mãos. O que diz quem somos e confere a nota dominante à nossa personalidade é o método pelo qual olhamos e enfrentamos a vida. Il Meridiano, dedicado pela editora Mondadori ao cardeal Carlo Maria Martini, reunindo seus escritos principais, é, acima de tudo, um solene discurso sobre o método.

O método de Martini se chama "lectio divina". Na verdade, no mundo real, só podemos ler o que vemos, portanto, só o que, por definição, não é divino, como os textos escritos pelos homens ou os fenômenos naturais. Se chegamos a falar de lectio "divina" não é, portanto, pelo objeto material que se lê, que é e sempre será totalmente humano na medida em que pode ser captado pelo olho, lido e compreendido. Se falamos de leitura "divina" é, ao contrário, pela intencionalidade que guia quem lê, uma intencionalidade que provém da profundidade do homem interior, onde, dizia Agostinho, habitat veritas.

A leitura do real é, assim, definível como "divina" quando lê o mundo à luz da realidade ontológica e axiológica subentendida ao conceito de Deus, isto é, quando o lê com a convicção de que a realidade primeira e última é o bem, ou a beleza, o amor, a justiça, todos modos diferentes de dizer a mesma coisa.

Dessa intencionalidade proveniente da profundidade espiritual, surge em alguns aquilo que a tradição espiritual chama de lectio divina do real. Praticar e ensinar esse método foi, a meu ver, o trabalho peculiar da vida e da obra do magistério de Carlo Maria Martini.

Ao longo da sua vida, ele leu o mundo humano como um texto a ser interpretado à luz das promessas divinas atestadas pela Bíblia e antes ainda esculpidas na alma de todos os justos. Em particular, ele leu essa característica totalmente peculiar do mundo humano que se chama "cidade", e não por acaso Il Meridiano está subdividido nas suas três grandes partes com os nomes das três cidades da vida de Martini: Roma, Milão, Jerusalém.

Nessa perspectiva, ele praticou sobretudo uma honesta atenção analítica (no seu léxico: discernimento), respeitando sempre as individualidades singulares, sem jamais reconduzi-las a fórmulas genéricas. Falo por experiência pessoal, tendo advertido os seus olhos se pousarem tranquilos para compreender o fenômeno, sem querer já saber a solução e sem querer encaixotar o que estava diante dele em esquemas pré-confeccionados, doutrinais ou pastorais.

Nunca, em Martini, o dogma prevaleceu sobre a vida real, jamais a letra matou o espírito, e é nessa perspectiva que devem ser lidos os seus iluminados posicionamentos no campo bioético, assumidos publicamente uma vez que ele não era mais arcebispo de Milão, mas desde sempre cultivadas dentro de si, tão diferentes da gélida intransigência de outros prelados. E, se há um limite à seleção feita por Il Meridiano é precisamente o fato de ter ignorado esses textos. As posições bioéticas, assim como as teológicas dos "Diálogos noturnos em Jerusalém", são a lógica consequência do primeiro elemento do método martiniano de abordagem do real, voltado a preservar o fenômeno singular em toda a sua complexidade e fragilidade. Nesse sentido, Martini é um exemplo entre os mais límpidos do catolicismo liberal e não dogmático, resumido perfeitamente por seu lema episcopal: "Pro veritate adversa diligere".

O segundo momento do método martiniano de leitura divina do real consiste no que se poderia definir laicamente como imaginação criadora, ou seja, capacidade de saber prever e favorecer o grau de evolução do fenômeno. O critério-gria dessa imaginação criadora é o bem aqui e agora, o máximo de bem aqui e agora que, de um ser humano singular ou de uma situação individual, é possível fazer brotar. Cada um de nós contém mais do que aparenta na superfície. O mesmo vale para as instituições e os sistemas. Cada coisa contém mais do que aparenta na superfície.

A lectio divina do real é uma arte maiêutica que desenvolve as potencialidades humanas e espirituais à luz da sabedoria e da profecia divina. Não é a ideologia política ou doutrinal que esquematiza e classifica os fenômenos em uma direção prefixada, mas também não é um ato notarial que registra o que aparece, premiando quem tem e punindo quem não tem, como é típico de qualquer perspectiva conservadora.

A lectio divina lê o fenômeno concreto à luz das exigências e das potencialidades divinas e tende a suscitar nisso uma resposta prática, concreta, operosa. A finalidade da leitura divina do real, de fato, sempre é prática, é a ação, o trabalho, a caritas. Ela se inclina sobre o fenômeno, mas não se nivela a ele, ao invés, o exalta, o eleva, incitando a sua liberdade para além do que ele pode dar e que já contém em si mesmo.

Vem daí uma combinação singular de análise objetiva e de carga utópica, de adesão ao presente e de impulso para o futuro, na qual o primeiro momento é mais frio e refere-se à mente, o segundo é mais quente e diz respeito à vontade, com o coração e as mãos chamados a se pôr em empatia com o fenômeno e a sustentá-lo, fazendo-o caminhar e indicando-lhe a direção. O método-Martini enquanto lectio divina flui desse duplo movimento da mente e do coração.

Esse método reproduz exatamente o método de Jesus que aparece nos Evangelhos, como quando, por exemplo, o rabi de Nazaré se recusou a aplicar o apedrejamento para a mulher surpreendida em adultério como prescrevia a Lei (hoje diríamos o Código de Direito Canônico) e, ao mesmo tempo, no entanto, lhe disse "não peques mais", sem cair na névoa niilista de um além do bem e do mal. A atenção ao indivíduo é sempre mais importante do que as normas gerais, mas com a finalidade de estimulá-lo para o puro e severo ideal da fidelidade ao bem e à justiça.

Tudo isso significa propor um modelo de fé cristã funcional ao mundo. Isso aparece claramente no tipo de oração que Martini privilegia, que não é a oração de puro louvor como quer a mentalidade religiosa clássica, mas é a oração de intercessão, que, para Martini, é a oração por excelência, por reproduzir o movimento fundamental do Deus bíblico, isto é, a comunhão e a aliança com o mundo. Há tradições que consideram alcançar o cume da experiência espiritual quanto mais transcendem o mundo. Não é assim na Bíblia e na tradição judaico-cristã, que, ao contrário, vive da comunhão Deus-Mundo, uma comunidade não estática, mas dinâmica, ou, melhor dizendo, dialética, por viver essa relação como completude no momento da sabedoria e como incompletude no momento da profecia, como "já e ainda não".

Sabedoria e profecia são as duas almas especulativas da espiritualidade judaica, e Martini, que gosta de Israel e que é impensável sem o seu vínculo com Jerusalém, as reproduz perfeitamente na sua visão cristã. Ele nunca deixou de sustentar que, sem um vínculo orgânico com o judaísmo, o cristianismo autêntico não se dá.

Tudo isso, como perceberá o leitor de Il Meridiano, com um estilo que privilegia a clareza e a simplicidade. Martini, de fato, sempre fez uso da sua grande inteligência e da sua vasta preparação na direção da simplicidade, resultando um homem que difunde humildade e mansidão. Assim como o seu Mestre, que, um dia, definiu a si mesmo como "manso e humilde de coração".


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