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30 Outubro 2011

O fato de o papa ter rejeitado um princípio de ruptura com relação ao Concílio Vaticano II foi lido como uma apologia à imobilidade. Mas leituras desse tipo se esqueceram que o termo usado pelo papa é "reforma".

A análise é do cientista político e leigo católico italiano Christian Albini, em artigo publicado no sítio Vino Nuovo, 25-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Com o motu proprio Porta fidei, Bento XVI convocou o Ano da Fé que começará no dia 11 de outubro de 2012. A referência ao Concílio é central, com o devido respeito àqueles que gostariam de arquivá-lo e anulá-lo:

"Considerei que fazer coincidir o início do Ano da Fé com o cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II poderia ser uma ocasião propícia para compreender que os textos deixados em herança pelos Padres Conciliares, segundo as palavras do Beato João Paulo II, "não perdem o seu valor nem a sua beleza. É necessário fazê-los ler de forma tal que possam ser conhecidos e assimilados como textos qualificados e normativos do Magistério, no âmbito da Tradição da Igreja. Sinto hoje ainda mais intensamente o dever de indicar o Concílio como a grande graça de que beneficiou a Igreja no século XX: nele se encontra uma bússola segura para nos orientar no caminho do século que começa" (Novo millennio ineunte, 57). Quero aqui repetir com veemência as palavras que disse a propósito do Concílio poucos meses depois da minha eleição para Sucessor de Pedro: «Se o lermos e recebermos guiados por uma justa hermenêutica, o Concílio pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a renovação sempre necessária da Igreja (22 de dezembro de 2005)".

Reafirmar o valor dos textos conciliares significa não dar marcha à ré (e o papa nem poderia fazê-lo) sobre aqueles aspectos que levaram a uma compreensão mais aprofundada da fé católica, como a reforma litúrgica, a Igreja como povo de Deus, a possibilidade para que todos os homens (ateus ou crentes em outras fés) se associem ao mistério pascal, a contribuição à Igreja da evolução e da história do gênero humano, o ecumenismo, o reconhecimento dos elementos de verdade e de santidade nas outras religiões... Citei justamente alguns pronunciamentos conciliares que alguns consideram ser, no entanto, contrários à fé. Mas qual fé?

A Tradição da Igreja transmite integralmente a Palavra de Deus, confiada pelo Senhor e pelo Espírito aos apóstolos (Dei Verbum 9), e o magistério não é superior à Palavra de Deus, mas a serve, ensinando apenas o que foi transmitido. A Igreja escuta, conserva e expõe a Palavra, que constitui o único depósito da fé da qual se obtém tudo o que ela propõe a crer como sendo revelado por Deus (Dei Verbum 10). O dogma está sob a Palavra de Deus. É verdadeiro na medida em que a expressa.

É por isso que, segundo a Dei Verbum 8, a tradição de origem apostólica não é uma realidade imóvel e estagnada, mas progride na Igreja com a ajuda do Espírito Santo: "Progride a percepção tanto das coisas como das palavras transmitidas, quer mercê da contemplação e estudo dos crentes, que as meditam no seu coração (cfr. Lc. 2, 19. 51), quer mercê da íntima inteligência que experimentam das coisas espirituais, quer mercê da pregação daqueles que, com a sucessão do episcopado, receberam o carisma da verdade".

Na íntima constituição da fé cristã, e, portanto, da Igreja, há uma exigência contínua de renovação. É a exigência de buscar uma fidelidade cada vez maior ao Evangelho e de esclarecer suas formas históricas. Assim me parece ser possível expressar o sentido do apelo de Bento XVI a uma "hermenêutica da reforma" na recepção do Vaticano II.

Para se entender tal afirmação, é preciso sair do uso instrumental, feito por alguns círculos católicos, da dicotomia descontinuidade/reforma utilizada pelo papa. O fato de ter rejeitado um princípio da descontinuidade e de ruptura foi lido como uma apologia à imobilidade e da fixidez, negação de qualquer novum. Leituras deste tipo esqueceram o termo usado pelo papa: "reforma", que é continuidade com as raízes, com o evento original, não falta de qualquer novidade.

Nesse sentido, o documento da Pontifícia Comissão Bíblica, O povo judeu e as suas sagradas escrituras na Bíblia cristã (2001), no nº 10, especifica que a tradição "é indispensável para tornar viva a Escritura e atualizá-la" e que o Concílio rejeitou "a ideia de uma tradição completamente independente da Escritura".

Ainda mais direta é a Comissão Teológica Internacional, no documento A interpretação dos dogmas (1989), no qual se lê que, no processo histórico da tradição, "a Igreja não acrescenta nada de novo [non nova] ao evangelho, mas anuncia a novidade de Cristo de uma forma sempre nova [noviter]".

É por isso que o papa fala de um processo de novidade na continuidade, em que esta última só pode ser adesão à Palavra, laço vital com ela. O que mais é a Tradição, se não reforma que traz a seiva desse laço? O pontífice faz com que a natureza da verdadeira reforma consista em um "conjunto de continuidades e descontinuidades em diversos níveis", em que identifica o aspecto duradouro com os princípios, e a mudança com as formas concretas da sua aplicação, que dependem das situações históricas.

Quando se fala de princípios imutáveis, abre-se o problema da sua identificação, mas é certa a sua necessária coerência com a boa notícia da salvação. E é aqui que se disputa o jogo da reforma da Igreja: no abandono de algumas formas históricas em favor de outras, para alcançar uma profundidade mais fidelidade ao Evangelho. Além disso, trata-se de compreender melhor as verdades da fé e expressá-las de um modo novo, segundo as exigências do tempo.

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