O imobilismo doutrinal sobre os grandes temas da ética pessoal

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27 Setembro 2011

A viagem do Papa Ratzinger à Alemanha concluiu-se com o paradoxo de um sucesso midiático que, substancialmente, deixa as coisas como estão

A análise é do historiador e cientista político italiano Gian Enrico Rusconi, professor da Universidade de Turim, em artigo publicado no jornal La Stampa, 26-09-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Basta a simpatia comunicativa para colocar novamente em movimento a fé, para relançar um sólido diálogo ecumênico, para recomeçar um diálogo com o mundo secular que há muito tempo foi interrompido? Na realidade, a viagem do Papa Ratzinger à Alemanha concluiu-se com o paradoxo de um sucesso midiático que, substancialmente, deixa as coisas como estão.

De fato, permanece o imobilismo teológico, o imobilismo doutrinal sobre os grandes temas da ética pessoal, sexual e familiar que são os que tocam em profundidade a milhões de crentes. Não é uma curiosidade jornalística que, entre as autoridades alemãs que receberam cordialmente o pontífice, esteja o chefe de Estado, católico, divorciados e em segunda união; o prefeito de Berlim, católico, gay declarado e comprometido com o pleno reconhecimento jurídico, sob todos os efeitos, da homossexualidade; e a chanceler filha de um pastor evangélico, chanceler, por sua vez divorciada e em segunda união. E todos são sinceramente abertos à religião, à qual reconhecem um papel público decisivo – exatamente como diz Ratzinger –, salvo pelo fato de dissentirem sobre questões que o pontífice considera cruciais. É tudo um equívoco? O é precisamente um ponto que merece uma reflexão?

Na Alemanha, ao lado das vozes críticas de simples cidadãos, há um forte grupo de teólogos profissionais que, há muito tempo, expõem publicamente as suas objeções e fazem propostas inovadoras bem argumentadas – da questão do celibato, à posição da mulher na estrutura da Igreja ou do acesso à Eucaristia dos fiéis divorciados. Para silenciar o debate sobre as questões bioéticas que influencia também na legislação (como mostrou a recente resolução do parlamento alemão sobre o diagnóstico pré-implantação). Mas eu não acho que o Papa Ratzinger, nestes dias, tenha reconhecido, ainda que indiretamente, a legitimidade e a relevância dessas discussões.

Pode-se objetar que o pontífice não podia "descer" para o campo desses argumentos. Mas essa é uma estranha objeção para quem diz pôr o discurso da fé no centro da vida, da vida cotidiana. Digamos simplesmente que, desse pontífice, que mostrou, porém, uma extraordinária, tocante e eficaz reação ao escândalo da pedofilia, não se pode esperar, sobre os temas éticos lembrados acima, qualquer inovação teológica ou mesmo somente o mínimo desvio da doutrina tradicional.

A percepção da crise da Igreja no mundo ocidental – da qual o papa também falou expressamente – requer, segundo Ratzinger, "uma renovação da fé", não modificações estruturais ou doutrinais. E ele repetiu isso na Alemanha, que é a nação europeia de tradição cristã onde está mais viva – também graças ao pluralismo confessional – uma reflexão teológica e religiosa não conformista.

Na realidade, por trás do imobilismo doutrinal da Igreja Católica, há uma intuição paralisante: mesmo os problemas menores (o reconhecimento dos casais de fato, uma mudança de atitude para com os fiéis em posições familiares "irregulares" ou a aceitação da homossexualidade) levam a uma reconsideração antropológica da "natureza humana" tal que, levada a sério, faz explodir toda a construção sobre a qual se apoia a doutrina tradicional.

Mas sobre esse ponto a Igreja não é capaz de inovações que implicariam em uma atitude diferente para com as modernas ciências do homem e uma nova relação com a laicidade. A laicidade em particular, longe de ser reconhecida na sua plena legitimidade e autonomia, é diminuída na distinção e contraposição simplista e instrumental entre laicos (autorizados pela Igreja) e laicistas (todos os outros).

Mas voltemos ao campo da fé, a um tema crucial da visita papal à Alemanha: a relação ecumênica, em particular a relação entre confissão católica e confissão luterana e evangélica. Aqui, também, se revelou toda a personalidade de Ratzinger. Sincero e convincente ao reconhecer a grandeza espiritual de Lutero, mas, ao mesmo tempo, intransigente ao manter os insuperáveis limites dogmáticos que historicamente surgiram dessa grandeza histórica – de forma irreversível.

Nos encontros entre a Igreja Evangélica e o papa, muitos desejavam ingenuamente um gesto religioso revolucionário: a celebração comum da Ceia Eucarística. Não sei como se pôde criar essa expectativa que diz muito sobre a crescente distância de sensibilidades entre os simples fiéis e a hierarquia eclesiástica, quaisquer que sejam as motivações teológicas que possam ser citadas. Mas não há dúvida de que uma Ceia Eucarística comum daria um duro golpe contra tantas outras certezas teológicas sobre as quais a Igreja Católica construiu historicamente a sua identidade.

A reação dos evangélicos, em particular dos mais altos representantes da sua Igreja, foi articulada. Muitos expressaram desilusão; outros, ao contrário, reconheceram, no entanto, no comportamento do pontífice, um outro passo à frente rumo ao ecumenismo.

Olhando com um olho laico para esse fato, não é fácil tirar conclusões. As Igrejas, prescindindo da denominação confessional, são muitas vezes solidárias entre si sobre os grandes temas bioéticos, quando, por exemplo, fazem uma frente comum contra aqueles que consideram os possíveis descarrilamentos das biotecnologias.

Mas, sobre outros temas referentes à sexualidade (do tipo daqueles citados acima), existem diferenças significativas entre elas. Só a Igreja Católica se apresenta doutrinalmente como um monólito, sobretudo nas suas condenações – como se existisse uma linha perversa contínua, que vai da contracepção ao uso selvagem das biotecnologias, passando pela homossexualidade, considerada, portanto, como uma patologia.

As atitudes pastorais mais compreensivas e os corretivos tacitamente introduzidos não tiram nada da substancial inadequação doutrinal que deve acertar as contas com situações insustentáveis, com o risco de comprometer os próprios fundamentos teológicos dos quais, supostamente, descende a doutrina moral.

Diferente – embora muito diferenciado – é a atitude das Igrejas Reformadas, que permaneçam, contudo, solidamente ancoradas no pressuposto da centralidade e da autonomia da consciência individual e da sua responsabilidade. Se as coisas estão assim, o diálogo entre as Igrejas no Ocidente ainda tem, diante de si, uma longa estrada acidentada.

 

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