"Perdeu-se a vergonha no país", afirma jesuíta colombiano

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05 Setembro 2011

Não importa quanto discreto tente ser o padre Francisco de Roux – desde os sapatos até o tom da voz –, quando ele está presente bastam alguns minutos para que tudo termine gravitando ao seu redor. Sobretudo se se trata de uma conversa sobre a nova Lei das Vítimas ou, mais ainda, quando se põe na mesa uma pergunta: Que valores prezam os colombianos?

Hoje, por conta da aprovação da lei 1448 de 2011, as vítimas retornaram ao centro do debate. Mas no caso do padre estão presentes desde 1995, quando preparou suas malas e viajou até Magdalena Medio, onde aconteciam as mais duras batalhas entre paramilitares, gerrilha e exército, para criar um modelo de paz e desenvolvimento. Para trabalhar ombro a ombro com as comunidades e ajudá-las a recuperar sua dignidade.

Ninguém entende como ele os alcances e limitações da nova política para atender as vítimas. Ninguém tem mais autoridade moral para alertar que, como diz nessa entrevista, "não basta punir os criminosos de cada vítima, o importante é convertê-los para o valor da vida".

Francisco de Roux, padre jesuíta, atual superior provincia dos jesuías colombianos, concedeu uma entrevista ao jornal El Espectador, 24-08-2011. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Esta nova lei é a solução para os problemas das vítimas?

A Lei de Vítimas em minha opinião tem um valor importante porque torna todos os colombianos responsáveis pelo que aconteceu por aqui. E responsáveis não apenas moral e politicamente, mas também economicamente. Vamos ter pagar com recursos do Estado que é nosso, de todos. Quando se matar um homem que defenda o meio ambiente. Quando se sequestrar. Quando se descubra um falso positivo. Até agora a ideia que se tinha era que este país era um país de gente boa, onde não se tinha corruptos, tampouco injustiças institucionais, onde não destruíamos a natureza e sequer haviam grupos misturados com máfias, guerrilheiros ou paramilitares que atacavam os bons. A Lei diz que existe um conflito armado, profundo, todos somos responsáveis e as vítimas são de todos os lados.

Concorda que se considerem as vítimas apenas a partir de 1985?

Seria preciso uma posição mais sábia e sutil para fazer esse discernimento. Eu prefiro falar das comunidades vitimizadas, pois não apenas atacaram as pessoas que estão ali bem como todo o local que as rodeava foi totalmente destruído e transformado em local de medo e terror; o contexto ecológico foi transformado em processos agroindustriais e, uma das coisas mais criminosas, o campo foi semeado com minas antipessoas. Assim que resolver o problema de uma pessoa se não se tem a compreensão do todo que aconteceu pode se transformar em uma tarefa limitada.

Como então melhorar a Lei?

A Lei precisa da mobilização da opinião pública e das pessoas, aporte de recursos e a determinação de se fazer mudanças estruturais para que seus objetivos sejam atingidos. Através da dignificação da totalidade das vítimas, articulando com a natureza e a sociedade, poderemos conseguir a reconciliação. É preciso tocar as causas pelas quais as vítimas foram mortas, fazer mudanças estruturais para que isso não volte acontecer novamente. Isso não está garantido e nem explicitado no texto e irá exigir que as comunidades se envolvam para não deixar que a lei seja manipulada por aparatos burocráticos que a simplifiquem.

Receia que tudo isso fique apenas no papel?

O caminho pela frente é difícil. Vou dar uma imagem que pode ajudar a pensar. Uma das preocupações centrais é com o valor da vida.  É a relação do ser humano com a natureza. A imagem que me ocorre é do feto no interior do útero da mãe. Voce não pode proteger a mãe sem a totalidade da vida. Essa é a relação de cada um de nós com a natureza, com a paisagem, com o território. Somos uma só coisa com essa totalidade.

Sem ser pessimista, a devolução de terras não devolve o cenário que desatou essa guerra.

Aceito que a lei pode ficar pelo meio do caminho e devolver a situação agrária de 40 anos atrás em que foram usurpadas de seis a oito milhões de hectares. A condição para conseguir o que estamos buscando é trabalhar com seriedade desde o político e o educativo. Se não se cria um aparato sério que enfrente isso, não é possível. É preciso a presença empoderada das vítimas, não apenas na instituição que toma decisões em Bogotá mas também nas regiões onde vai ser muito mais difícil porque muitos dos responsáveis estão no poder local e tem ingerência na justiça e nas políticas locais. Se ali as vítimas não estão protegidas será muito difícil avançar. Mas não basta punir os responsáveis. É preciso convertê-los aos valores que estão em jogo, ao valor da vida.

Quando irá acontecer uma reconciliação?

É difícil que as vítimas perdoem até que não lhes digam toda a verdade, até que não se repare tudo. Lembro do cenário de Puerto Berrío. Naquela praça um homem sem fardas do Agrupamento Central Bolívar tomou o microfone e disse: "Vocês precisam nos perdoar". Foi muito bonita a respostas das vítimas, a manifestação foi de que "estamos abertos à reconciliação, mas não sejam sem vergonhas". E começaram a fazer perguntas: digam-nos porque nos mataram, digam-nos onde estão as pessoas de nossas famílias, com irão garantir que tudo isso não irá acontecer de novo. O que acontece é que a vergonha se perdeu no país. Há um sentimento de que foram violados os pactos de honra da comunidade.  Isso é importante sentir, que se foi infiel a minha gente. Que tocaram as coisas sagradas. Se não se conquista a confiança não se pode viver em paz, nem construir a segurança.

Quando iremos ter essas ferramentas e um país que faça tudo isso?

Acredito que para avançar nessa direção o processo teria que levar em conta os líderes, os processos camponeses, indígenas e afrodescendentes. Em todas as partes há uma liderança real baseado em mulheres e homens que são credíveis, que quando convocam as pessoas respondem, que não são políticos buscando o poder nem a manipulação dos demais. Essa riqueza é muito profunda. Perdemos pelo menos 10.000 pessoas assim. Pessoas que enfrentavam cara a cara a guerrilha, os paramilitares, os políticos e tocavam a alma do povo.

Mas é difícil desmontar esses aparatos de guerra.

A guerra desestabiliza, enreda, convida a viver num cenário de terror. Aí se move o aparato mafioso que manda matar. É preciso lutar com tudo isso para não se ter esse fim. Existem fortes interesses em se manter a guerra porque é o cenário onde tudo vale. O cenário oposto à vida. Vale derrubar os bosques e semear minas.

A Lei de Vítimas está de acordo com o modelo de desenvolvimento do Governo?

Um projeto como este deve ser consistente com seus proprios pressupostos éticos. O desenvolvimento do ser humano em harmonia com a natureza. A Colômbia, nesse momento, não pensa assim. Colômbia pensa em exportar mais barris de petróleo, mais azeite de palma, mais toneladas de cana-de-açucar, porque assim temos mais divisas, mais dinheiro e quem se importa que tudo se destrua. Esse é a questão de fundo. Entender que viver em harmonia com a natureza não está contra a produção e o desenvolvimento.

Como provincial dos Jesuítas, não acredita que a Igreja tem uma dívida com o país na educação desde uma perspectiva de respeito à natureza?

Meu sentir é que o cristianismo tem uma dívida com a ecologia, com o meio ambiente. Mas a Igreja produziu recentemente muitas orientações nesse sentido. As mensagens éticas de colocar em primeiro plano a responsabilidade com a natureza são muitas. Um companheiro jesuíta, já idoso, me dizia outro dia: quando eu entrei na Companhia me disseram que nosso objetivo era salvar as almas e levá-las ao céu; depois, nos anos 70, me disseram que a meta era lutar pela justiça e agora, quando tenho 80 anos me dizem que o objetivo é lutar pela natureza.

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