Bento XV, o Papa da decisão

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05 Setembro 2011

De estatura baixa, tanto que poderia ser chamado de "pequeno", frágil, assimétrico por culpa de um ombro mais alto que o outro, de rosto anguloso e muitas vezes abatido, o nobre genovês Giacomo Della Chiesa, no dia da eleição – inesperada para todos, mas, pelo que parece, não para ele – surpreendeu os cardeais e os colaboradores pela firmeza de seu caráter e de sua vontade. Poucas horas depois de se ter convertido em Bento XV, no dia 3 de setembro de 1917, deu imediatamente uma série de ordens. Tanto foi assim que suscitou a exclamação de um cardeal, impressionado com tanta segurança: "Caramba, temos um Papa já "professo’, não um Papa "novato’".

A reportagem é de Andréa Tornielli e está publicada no sítio Vatican Insider, 01-09-2011. A tradução é do Cepat.

Filho de um marquês que descendia das famílias de Berengário II e de Calixto II, e de uma nobre descendente da família de Inocêncio VII, Giacomo se graduou em leis em Gênova e, em 1878, foi ordenado sacerdote. Após ter completado os estudos na Academia de Nobres Eclesiásticos, ingressou na Secretaria de Estado como colaborador de dom Mariano Rampolla del Tindaro, futuro cardeal. Nomeado substituto em 1901, havia feito carreira no ambiente papal de Leão XIII. Depois da eleição de Pio X, em 1903, o grupo dirigente foi trocado. O Papa decidiu não continuar utilizando-o para o serviço diplomático, mas nomeá-lo arcebispo de Bolonha (1907), mas despojando-o do cargo cardinalício – tradicionalmente associado à sede – durante sete anos. Só três meses antes de morrer, em 25 de maio de 1914, Pio X decidiu conferir-lhe o cargo de cardeal. O nome do cardeal Giacomo Della Chiesa nunca entrará no anuário pontifício.

No começo de seu reinado, o Vaticano mantinha relações diplomáticas com apenas 17 países, majoritariamente de pouco peso político, caso se excluir a Áustria, Espanha, Baviera e Prússia. Na época da morte de Bento XV, em 1922, o número já tinha subido para 27, e inclui a França, Grã-Bretanha e a Alemanha. "O Vaticano – escreve o historiador John F. Pollard – se havia convertido numa nova força no plano internacional." Convencido articulador de uma estratégia para a paz, definirá a guerra – cujo início coincide com o seu pontificado – como um "espetáculo monstruoso" e um "flagelo da ira de Deus". Na famosa Nota à ONU, de 1º de agosto de 1917, se referirá ao conflito como um "massacre inútil". Uma posição contrastada pelos países católicos, ao ponto de Bento XV revelar: "Querem condenar-me ao silêncio, mas jamais vão conseguir selar meus lábios. Cuidado se o Vigário do Príncipe da Paz emudecer na hora da tempestade! A paternidade espiritual universal de que estou investido me impõe um dever preciso: convidar os filhos à paz, eles que, de um e outro lado das barricadas, se matam entre si". A condenação da guerra, que pela primeira vez assoma no cenário da humanidade como mundial e capaz de levar à morte milhões de homens, não é formulada apenas em termos morais, mas também teológicos e bíblicos, que convidam a considerar os homens como "filhos de um único Pai que está nos céus", dotados "de uma mesma natureza" e "todas partes de uma mesma sociedade humana". O Papa finaliza, com seu secretário de Estado, Pedro Gasparri, o critério da "imparcialidade"; a Santa Sé pretende ficar acima das partes, fora dos desdobramentos, mas isto não significa que seja "neutro" em relação ao que está acontecendo.

De caráter reflexivo, pouco acostumado aos ataques de ira, mas muito firme, o papa Della Chiesa amava a tal ponto a pontualidade que chegou a presentear relógios aos seus colaboradores, dizendo-lhes: "Toma, pega isso. Assim não terás mais desculpas para chegar atrasado." Em um escrito seu de 1915 se pode ler: "Um bom relógio pode nos ajudar a sermos exatos e a estar preparados para qualquer compromisso, sem perder tempo com antecipações inúteis, nem tampouco parecer descorteses com atrasos injustificados". Será precisamente esta atenção à pontualidade que lhe será fatal na aurora de 17 de novembro de 1921, quando teve que esperar durante alguns minutos o guarda que lhe abria a porta que permite a entrada na Basílica de São Pedro através da Sala do Sacramento. Devia celebrar a missa matutina para as irmãs de Santa Marta, e essa breve espera no frio o fez resfriar-se e, mais tarde, enfermar-se de bronquite, doença que o levará à tumba no dia 22 de janeiro de 1922.

Hábil navegador do mundo dos ardis curiais, controlava cada um dos aspectos da vida da Santa Sé e costumava redigir um documento com os pontos correspondentes que era entregue no final do mês ao diretor do L’Osservatore Romano, o conde Giuseppe Dalla Torre, e aos redatores do jornal vaticano. Contará mais tarde o diretor: "As correções chegavam de imediato. Uma vez, o jornalista havia escrito que, em uma cerimônia em Bolonha, se encontrava presente a sra. Augusta Nanni Costa – o que na realidade não havia acontecido – a quem o Papa queria entre os participantes da Junta Diretora; que havia atribuído aos Estados Unidos uma determinada ilha asiática; que havia visto em outra cerimônia uma personalidade de renome. Bento XV escreveu: "A sra. Nanni Costa não se encontrava nesse dia em Bolonha; a ilha pertence à Ásia; a personalidade está morta. Portanto, o L’Osservatore Romano outorga o dom da ubiquidade, transporta as terras de um continente a outro e ressuscita os mortos".

Giacomo Della Chiesa foi também um excelente garimpador de talentos, conhecedor das qualidades de seus súditos. Às suas decisões se deve a assunção de três de seus sucessores: foi Bento XV quem deu início à carreira diplomática do prefeito da Biblioteca Vaticana, Achille Ratti, que se converterá em núncio na Polônia, cardeal arcebispo de Milão durante alguns meses antes de ser eleito Papa. Foi Bento XV quem consagrou pessoalmente o arcebispo Eugenio Pacelli, nomeando-o núncio da Baviera. E foi sempre ele quem chamou a Roma, de Bérgamo, a Angelo Roncalli, o futuro João XXIII, confiando-lhe o cargo de diretor da Obra de Propaganda Fide. Homem de grande caridade, foi acusado de esbanjar os pertences do Vaticano. "Corre a voz de que eu esbajo os bens da Santa Sé – dirá em uma entrevista privada. Exceto o que encontrei de seu patrimônio, creio que tudo o que entra nestas gavetas deve sair oportunamente. A Providência proverá. Essa é sua tarefa."

De Bento XV se recorda também seu destacado senso de humor. Em um texto assinado por ele e com direito a fotografia, dirigido aos bombeiros do Vaticano, escreveu: "Abençoamos de coração os "Guardas do fogo’ do Vaticano, com o augúrio de que jamais tenhamos que apagar incêndios, porque sabemos de antemão o valor que na eventual circunstância saberiam demonstrar."

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