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26 Agosto 2011

Milhares de jovens se manifestaram nas ruas, algo que não se via desde os anos finais da ditadura [n1]. Os estudantes chilenos, em três meses de grandes mobilizações mudaram a cara do país e colocoram em uma incômoda posição o governo direitista de Sebastián Piñera.

A reportagem é de Victor de la Fuente e publicado pelo Le Monde Diplomatique, versão chilena, 25-08-2011. A tradução é do Cepat.

A sociedade chilena despertou depois de década em que esteve semi-adormecida já que de alguma maneira conformou-se com a ideia de que não havia outra alternativa que o neoliberalismo. "Está terminando uma etapa da história do país. Iniciou-se faz mais de vinte anos e envolveu cinco governos. Começou cheia de esperanças quando os chilenos puseram fim 1988 a uma ditadura. Para além de suas conquistas, a etapa pós-ditadorial acumulou desesperanças e frustrações. As promessas não realizadas consolidaram uma sociedade profundamente injusta" [n.2].

Onde ficou o exemplar "modelo chileno", o "jaguar da América Latina"? Faz quarenta anos quando o país era mais pobre do que hoje, a educação era gratuita, o que aconteceu com o desenvolvimento e os altos índices de crescimento? Onde está o dinheiro do progresso? Perguntam os estudantes.

No dia 28 de abril, antecipando o grande movimento que irromperia em junho, se realizou a primeira mobilização nacional de universitários, de escola públicas e privadas contra o alto nível de endividamento que devem assumir para cursar a educação superior [n.3].

Em maio começaram a se perceber ventos de mudanças quando trinta mil pessoas se manifestaram em Santiago e em centenas de cidades contra o projeto HidroAysén que busca instalar cinco megarepresas na Patagônia. Os opositores reagiram com rapidez na defesa do meio ambiente e contra o gigantesco negócio da multinacional Endesa-Enel, associada ao grupo chileno Colbún. Esse projeto, apoiado pelo governo e dirigentes de partidos de direita e da Concertaciónn [n.4] foi aprovado não levando em conta a opinião da população, gerando amplos protestos em todo o país.

Pouco antes aconteceram importantes movimentos regionais como em Magallanes contra a alta de gás em Calama para obter benefícios de produção de cobre na região, assim como a recuperação de terras e greves de fome dos mapuches. Depois, somaram-se outras reivindicações, os atingidos pelos terremotos de fevereiro de 2010 que passaram seu segundo inverno em moradias provisórias, os sindicados do cobre que paralisaram as minas, as marchas pelo direito à diversidade sexual, mas sem dúvida foram os estudantes secundários e universitários com massivas manifestações e ocupações de escolas, exigindo educação gratuita e de qualidade que transformaram a situação dando outra dimensão às mobilizações e emparedaram o governo de direita.

Questionamentos ao sistema

O movimento estudantil se lançou contra as bases do sistema neoliberal, reivindicando o papel do Estado e pedindo que a educação não seja considerada uma mercadoria. Exigem que se acabe com o sistema educacional fundado no lucro deixado pela ditadura militar. A consigna mais repedita tem sido: "Vai cair, vai cair, a educação de Pinochet"!

Para alcançar as mudanças de fundo pedem uma Assembleia Constituinte que elabore uma nova Constituição. Os estudantes também propõem que a financeirização para a educação gratuita se faça através da reestatização do cobre e de uma reforma tributária [n.5]. A solução do conflito busca-se exigindo mais democracia com a realização de um plebiscito para que a população decida que tipo de educação quer o país.

Os estudantes denunciaram a imprensa oficial que criminaliza as manifestações e fizeram duras críticas tanto ao governo de Piñera como à Concertación. Ocuparam o canal de TV Chilevisión, e também ocuparam as sedes da ultradireitista UDI e do Partido Socialista.

Renasce, paralelamente, com força a figura de Salvador Allende (foto), jovens disfarçados como o presidente socialista eram aplaudidos com entusiasmo nas manifestações em que apareciam com faixas como "os sonhos de Allende são possíveis". Os discuros do presidente mártir, pronunciados faz 40 anos sobre a educação e a nacionalização do cobre bateram recordes de visitas na internet [n.6].

O movimento estudantil tem se caracterizado por sua clareza política e também por sua massividade e persistência. Tem sido unitários com a participação de secundaristas e universitários, além de professores, associações de pais, Ongs e sindicatos [n.7].

Da mesma forma que em outras rebeliões no mundo tem usado as novas tecnologias, mas o principal é que tem sido um movimento democrático e participativo. Os estudantes têm buscado manter uma boa relação entre as lideranças dos dirigentes e participação das bases, realizando assembleias onde todos opinam e decidem.

Os protestos têm mostrado grande criatividade, a cada dia apareciam nas ruas com uma novidade: máscaras, danças, imitações de suicídios coletivos, beijos massivos, corpos nús pintados, caminhadas de dias ao redor do La Moneda, faixas criativas,,, Buscam assim não apenas chamar a atenção, mas também incorporar outros setores e distanciarem-se dos acontecimentos de violências nas ruas. Inclusive, consertaram estragos causados pelos protestos, pintando fachadas de casas ou juntando dinheiro para o proprietário de um carro que acabou sendo queimado.

A educação chilena

Se as mobilizações têm sido fortes se devem também ao injusto modelo educacional chileno, implantado pela ditadura e desenvolvido pelos governos civis que o sucederam. Na educação primária e secundária, nas últimas três década houve um boom de escolas privadas ou subsidiadas, que hoje recebem 60% dos alunos. Não existe sequer uma única universidade pública gratuita já que todas – tanto as públicas como as privadas – cobram altas tarifas, caso único na América Latina.

Menos de 25% do sistema educativo é financiado pelo Estado e mais de 75% depende dos aportes dos estudantes. O Estado apenas dispensa 4,4% do PIB para a educação, bem menos que os 7% recomendados pela UNESCO. Hoje em dia existem 60 universidades no Chile, a maioria privadas. Os estudantes devem pagar entre 170 mil e 400 mil pesos chilenos (250 e 600 euros) mensais em um país em que o salário mínimo é de 182 mil pesos (menos de 300 euros) e o ganho médio é de 512 mil pesos (menos de 800 euros).

Essa situação faz com que 70% dos estudantes chilenos utilize um crédito universitário. Os 65% dos mais pobres não terminjam sua carreira universitária por problemas econômicos [n.8]. Segundo o sociólogo Mario Garcés se trata de um sistema perverso que deixa milhares de jovens chilenos de classe média e baixa endividados quando nem ainda terminaram de estudar já que os créditos devem começar a serem pagos com o primeiro emprego. Acrescente-se a isso que a educação deixou de ser um mecanismo de mobilidade social no Chile e passou a ser o contrário: um sistema de reprodução da desigualdade [n.9].

Por que agora?

É certo que houve mobilizações estudantis durante diferentes governos da Concertación, incluindo as de 2006, sob a presidência de Michelle Bachelet, conhecida como a "revolução dos pinguins" (pela cor do uniforme e o branco das camisas dos secundaristas em colégios públicos).

Nunca, entretanto, nos últimos vinte anos, os protestos foram tão importantes como estes. Durante duas décadas da Concertación administrou-se o sistema tentando manter o complexo equilíbrio entre as políticas de mercado e a regulação estatal. Realizaram-se algumas reformas, conseguindo-se diminuir os índices de pobreza e extrema pobreza, mas aumentando as desigualdades, deixando o Chile com um dos 15 países mais desiguais do planeta [n.10].

No começo o governo da Concertación contava com a imagem positiva de ter contribuido para o fim da ditadura, mas o mal estar e as críticas da população foram se acumulando, assim como o endividamento dos estudantes. A injustiça do sistema se fez flagrante com a chegada de um governo abertamente de direita, que administra o país como uma empresa.

Sebastián Piñera e os novos dirigentes chegaram com uma concepção ainda mais clara de empurrar as educação para as mãos do mercado, o que acabou com a paciência dos jovens que não viveram na ditadura e estão menos influenciados pelo discurso do anti-estatismo.

Os conflitos de interesse também contribuiram para a rebelião estudantil já que o própria ministro da Educação, Joaquín Lavín era fundador e acionista da Universidade do Desenvolvimentos [n.11].  O descrédito da classe política alcança um elevado nível. Todas as pesquisas de opinião mostram uma baixa permanente no apoio aos partidos da direita no governo e tambem tem diminuido o apoio a hoje opositora Concertación.

Os jovens confiam apenas em suas proprias forças e nas do movimento social, mas não nos partidos e tampouco nas instituições, rejeitanto a medicação de políticos e inclusive da propria Igreja. O governo, para enfrentar as mobilizações tem utilizado-se do diálogo e da repressão, carregando cada vez mais nas tintas da criminalização do movimento. A imprensa oficial – quase toda ela – tem superdimensionado as ações violentas que se produziram ao final de muitas manifestações, levadas a cabo por marginais, alguns delinquentes infiltrados, inclusive policiais, que tem sido denunciados com vídeos e fotografias [n.12].

O dia 04 de agosto ficou conhecido como a "quinta negra" para o governo. O presidente Sebastián Piñera (foto) disse que "tudo tem um limite" e o Ministro do Interior, Rodrigo Hinzpeter negou o direito aos estudantes de se manifestaram na Alameda como sempre se fazia. A repressão foi sistemática durante todo o dia, sendo presos, segundo as proprias cifras oficiais 874 estudantes. A resposta da população não se fez esperar e nessa mesma noite ressurgiram as manifestações de rua, os "cacerolazos" em todos os bairros e cidades do Chile. O governo, com sua intransigência, transformou a marcha em um Protesto Nacional, como nos tempos da ditatura. Nesse mesmo 04 de agosto, a influente pesquisa CEP deu a Sebastián Piñera apenas 26% de apoio, a apreciação mais baixa para um presidente desde o retorno da democracia [n.13].

Os estudantes continuam com suas mobilizações, rejeitam as proposta do governo e exigem uma mudança radical do sistema. Unem-se aos demais movimentos sociais, participaram da Greve Nacional de 24 e 25 de agosto e continuam pedindo um plebiscito para que sejam os chilenos quem decidam democraticamente qualquer projeto. Seja qual for a continuidade das mobilizações, já nasceu uma nova forma de fazer política que vêm desde os movimentos sociais. Os jovens chilenos estão abrindo as grandes alamedas de que falou Allende [n.14].

Notas:

1 – A maior manifestação desde 1990 foi a do Primeira Fórum Social chileno em 2004 contra a visita de George W. Bush que reuniu 70 mil pessoas. O atual movimento desde junho já realizou cinco marchas com mais de duzentas mil pessoas.
2 – "O povo contra as duas direitas" de Jorge Arrate, Sergio Aguiló e Pedro Felipe Ramírez, membros do Movimento Amplo de Esquerda (MAIZ). Publicado na edição chilena do Le Monde Diplomatique, agosto, 2011 e no sítio www.movimientoampliodeizquierda.cl
3 – Camila Vallejo, presidente da Federação de Estudantes da Universidade do Chile (FECH) e dirigente da Confederação de Estudantes (CONFECH) www.camilapresidenta.blogspot.com
4 – A Concertación pela Democracia é uma aliança de centro esquerda, hoje composta por quatro partidos (PS, PPD, PDC e PRSD) que governou os últimos vinte anos.
5 – A empresa estatal CODELCO nunca foi privatizada, mas a ditadura abriu novas concessões mineiras às empresas multinacionais e a Concertación continuou com o mesmo caminho. Hoje 70% do cobre chileno é explorado por empresas estrangeiras www.defensadelcobre.cl
6 – Allende e a educação: http://www.lemondediplomatique.cl/Discurso-pronunciado-por-Salvador.html - Allende e a nacionalização do cobre: http://www.lemondediplomatique.cl/Hace-40-anos-el-11-de-julio-de.html
7 – Em cada bairro, os vizinhos conseguem ajuda para os Liceus ocupados. Segundo as sondagens, o apoio das pessoas às mobilizações estudantis se siuta entre 75% e 80% www.accionag.cl
8 – Estudo sobre as causas da deserção universitária. Centro de microdatos, Departamento de Economia, Universidade de Chile. www.microdatos.cl
9Mario Garcés Durán, diretor da Organização Não Governamental chilena ECO Educação e Comunicação em declarações à BBC Mundo.
10PNUD: Informe Regional sobre o Desenvolvimento Humano para a América Latina e o Caribe, 2010, hdr.undp.org/es/informes/regional/destacado/RHDR-2010-RBLAC.pdf
11 – O ministro Joaquín Lavín foi tirado do ministério da Educação em pleno conflito, em 18 de julho, ainda que Piñera o mantenha no governo, agora como ministro do Planejamento. Ver também Franck Gaudichaud, "Botellas nuevas, vino viejo", edição chilena Le Monde diplomatique, maio 2011.
12 - http://www.chilevision.cl/home/content/view/370956/81
13 - www.cepchile.cl
14 – Em seu último discurso, no dia 11 de setembro de 1973, desde o La Moneda, Salvador Allende disse "muito mais cedo do que espera se abrirão grandes alamedas por onde passará o homem livre para construir uma sociedade melhor".

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