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07 Agosto 2011

O rabino Di Segni acusa o Vaticano de querer impor a cruz de Jesus também aos judeus, no lugar do Yom Kippur. Denuncia a ruptura do diálogo e coloca em dúvida sua presença em Assis. Os esclarecimentos do cardeal Koch. O pensamento de Ratzinger.

A reportagem é de Sandro Magister e está publicada no sítio Chiesa, 05-08-2011. A tradução é do Cepat.

A polêmica foi pouco divulgada, mas correu seriamente o risco de colocar em dúvida a presença dos judeus na Jornada de reflexão, diálogo e oração pela paz e a justiça no mundo, convocada por Bento XVI para o próximo dia 27 de outubro, em Assis.

A mecha pegou fogo com um artigo do cardeal Kurt Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos, no L’Osservatore Romano de 7 de julho, como ilustração do sentido da Jornada.

Na parte final de seu artigo, o cardeal Kock definia a cruz de Jesus como "o permanente e universal Yom Kippur" e assinalava nela "o caminho decisivo que, sobretudo, judeus e cristãos [...] deveriam acolher em uma profunda reconciliação interior".

Na sequência, reproduzimos com mais exatidão o que o cardeal escreveu em seu artigo:

"Segundo a fé cristã, a paz tão desejada pelos homens de hoje provém de Deus, que revelou em Jesus Cristo seu desígnio originário, ou seja, o fato de nos ter "chamado à paz’ (1Cor 7, 15). Sobre esta paz, a Carta aos Colossenses diz que nos é dada através de Cristo, "com o sangue de sua cruz’ (Col 1, 20). Porque a cruz de Jesus anula todo desejo de vingança e chama todos à reconciliação, ela se ergue sobre nós como o permanente e universal Yom Kippur, que não reconhece outra "vingança’ senão a cruz de Jesus, como afirmou Bento XVI com palavras muito profundas, no dia 10 de setembro de 2006, em Munique: "sua vingança é a cruz: o não à violência, o amor até o extremo’.

Como cristãos, não menosprezamos o respeito devido às outras religiões, pelo contrário, o consolidamos se, sobretudo no mundo de hoje no qual a violência e o terror são utilizados também em nome da religião, professamos esse Deus que opôs o seu sofrimento à violência e que na cruz venceu não com a violência, mas com o amor. Portanto, a cruz de Jesus não é obstáculo para o diálogo inter-religioso; ela indica antes o caminho decisivo que sobretudo judeus e cristãos [...] deveriam acolher em uma profunda reconciliação interior, convertendo-se assim em fermento de paz e de justiça no mundo".

Especialmente estas últimas linhas despertaram a reação do rabino-chefe de Roma, Riccardo Di Segni, que já outras vezes se mostrou menos pacífico que seu predecessor Elio Toaff na sua relação com a Igreja Católica.

A ponto de concluir assim sua réplica, que apareceu na edição do L’Osservatore Romano de 29 de julho:

"Se os termos do discurso são os de indicar aos judeus o caminho da cruz, não se entende o porquê de um diálogo e o porquê de Assis".

* * *

Em sua réplica ao cardeal Koch, o rabino Di Segni insiste no fato de que o Yom Kippur, o dia da expiação, é a festa litúrgica mais importante do ano judaico. É o dia em que se concede o perdão dos pecados, o único dia em que o sumo sacerdote entrava no "sancta sanctorum" do templo e chamava Deus por seu nome. É precedido pelos dias de arrependimento e é celebrado nas sinagogas com grande presença de povo. Nele predomina a leitura do livro de Jonas, grandiosa representação da misericórdia divina. O jejum é total, e durante 25 horas não se come nem se bebe.

Já no dia 8 de outubro de 2008 Di Segni havia explicado o sentido desta festa no L’Osservatore Romano, em primeira página. E já então havia destacado que no Yom Kippur se manifestam as "diferenças irreconciliáveis entre os dois mundos", o mundo dos judeus e o dos cristãos, porque "um cristão, em razão dos princípios de sua fé, não tem mais a necessidade do Kippur, da mesma maneira que um judeu que tem o Kippur não tem necessidade de ser salvo do pecado, da maneira como propõe a fé cristã".

Para confirmar esta distância, Di Segni faz notar que a Igreja retomou em sua liturgia as festas judaicas da Páscoa e do Pentecostes, mas não a do Kippur. Esta escolha é compreensível – escreve – porque "o crente cristão pode pensar certamente que a Cruz substitui de forma permanente e universal o dia do Kippur".

Mas, então – acrescenta Di Segni – o cristão "não deve propor ao judeu as próprias crenças e interpretações como indicações do "caminho decisivo’, porque deste modo se arrisca realmente a reingressar na teologia da substituição e a Cruz se converte em obstáculo".

E prossegue:

"A própria diferença não pode ser proposta ao outro como modelo a ser seguido. Deste modo se supera um limite que na relação judeu-cristão pode ter se esfumado, mas que deve ser intransponível. Pelo menos, não é um modo de dialogar que possa interessar aos judeus".

* * *

Ao lado da réplica do rabino Di Segni, o L’Osservatore Romano de 29 de julho publicou também a tréplica do cardeal Koch:

"Não considero em absoluto que os judeus devam ver a cruz como nós cristãos, para poder empreender juntos o caminho para Assis. [...] Não se trata de substituir o Yom Kippur judeu pela cruz de Cristo, embora os cristãos vejam na cruz "o permanente e universal Yom Kippur’. Aqui se toca o ponto fundamental, muito delicado, do diálogo judeu-católico, isto é, a questão de saber como se pode conciliar a convicção – vinculantes também para os cristãos – de que a aliança de Deus com o povo de Israel tem uma validade permanente, com a fé cristã na redenção universal em Jesus Cristo, de tal forma que, por um lado, os judeus não tenham a impressão de que sua religião é vista pelos cristãos como superada, e, por outro lado, os cristãos não tenham que renunciar a nenhum aspecto de sua fé. Certamente, esta questão fundamental ocupará ainda durante muito tempo o diálogo judeu-cristão".

* * *

Koch foi chamado pessoalmente por Bento XVI para presidir o Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos e ocupar-se particularmente do diálogo com o judaísmo. E é um dos cardeais de cúria mais próximos do ponto de vista do Papa.

Basta, para entender isso, abrir o segundo volume do livro Jesus de Nazaré no capítulo 4, ali onde Bento XVI analisa a "oração sacerdotal" de Jesus na vigília de sua paixão, que ocupa o capítulo 17 do Evangelho Segundo São João.

"Esta oração – escreve o Papa – é compreensível apenas sobre o transfundo da liturgia da festa judaica da expiação, o Yom Kippur. O ritual da festa com seu rico conteúdo teológico se realiza na oração de Jesus, realizado em sentido literal: o rito é traduzido à realidade que ele mesmo significa. [...] A oração de Jesus o manifesta como o sumo sacerdote do grande dia da expiação. Sua cruz e sua elevação constituem o dia da expiação do mundo, no qual toda a história do mundo encontra seu sentido, contra toda a culpa humana e todas as suas destruições. [...] A oração sacerdotal de Jesus [...] é, por assim dizer, a festa sempre acessível da reconciliação de Deus com os homens".

* * *

Não é casual que o profeta Jonas, o profeta lido na festa judaica do Kippur, apareça no centro dos afrescos da Capela Sixtina, entre a criação do mundo e o juízo final.

Em uma frase misteriosa, Jesus se designou a si mesmo como o "sinal de Jonas" (Lc 11, 29-32). E, além disso, acrescentou: "Aqui está alguém que é mais do que Jonas".

Esse sinal de contradição que foi Jesus para os judeus de seu tempo permanece ainda hoje entre os cristãos e judeus e se manifesta no Yom Kippur.

Os judeus celebrarão a festa da expiação no dia 10 de outubro, poucos dias antes da Jornada de Assis.

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