Sudão do Sul proclama independência sob peso da miséria, desemprego e analfabetismo

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11 Julho 2011

Lubna Winston não pode conter as lágrimas. "É como um sonho e não acredito, mas é real e por isso estou chorando", consegue dizer. Momentos antes, a bandeira do Sudão tinha sido arriada enquanto se içava a da nova República do Sudão do Sul, para marcar de forma oficial a independência do país mais jovem do mundo.

A reportagem é de José Miguel Calatayud, publicada pelo jornal El País e traduzida pelo Portal Uol, 12-07-2011.

Winston, um policial de 25 anos, nasceu durante a guerra que confrontou o norte e o sul do Sudão de 1983 a 2005. Então soa o hino do novo país e dezenas de milhares de pessoas aplaudem, saltam e comemoram no mausoléu de John Garang, o líder do sul até sua morte, poucos meses depois da assinatura da paz.

Os atos continuam e está prevista a intervenção de Omar al Bachir, o presidente do norte, inimigo do sul até o acordo de paz e sobre quem pende uma ordem de captura do Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra em Darfur. Mas momentos antes que Bachir comece seu discurso um apagão deixa o sistema de som mudo e impede o presidente sudanês de tomar a palavra. O fato, muito habitual em Juba, onde não há água corrente e a rede elétrica é incompleta e falha com frequência, lembra que apesar da festa da independência o caminho do Sudão do Sul como novo Estado está cheio de obstáculos.

Finalmente Al Bachir consegue falar e diz que o norte do Sudão vai apoiar o sul e ajudá-lo a ser estável. "Não creio em uma palavra, é um mentiroso", diz um membro da organização que prefere não dar seu nome. "Você vai ver, em alguns meses voltará a haver guerra em Darfur, no Kordofão do Sul, no Nilo Azul ou em Abiyei, que é nosso."

É que os problemas que ameaçam o país mais jovem do mundo são numerosos. Norte e sul ainda têm que chegar a um acordo sobre a administração dos recursos petrolíferos e a tensão se mantém alta na nova fronteira, onde há conflitos armados na região de Abiyei e nas montanhas de Nuba, na província de Kordofão do Sul.

Como se fosse pouco, "todas as classificações de desenvolvimento econômico e humano nos situam nos últimos lugares", reconheceu o próprio Salva Kiir em seu primeiro discurso como presidente da nova República.

As estatísticas da ONU sobre o Sudão do Sul parecem um roteiro de filme de terror: 85% da população são analfabetos; 90% das pessoas vivem com menos de US$ 1 por dia, uma em cada sete mulheres grávidas morrerá durante o parto e uma menina de 15 anos tem mais possibilidades de morrer dando à luz do que de terminar a escola.

Mas as estatísticas sempre supõem uma certa distância e frieza entre os números e a realidade. Uma visita ao povoado de Gudele, a 20 minutos de Juba por uma estrada de terra, dá imediatamente uma face aos problemas do Sudão do Sul.

Ali vivem Margaret Daniel, 30 anos, e seus cinco filhos, que voltaram a Juba do norte em 3 de dezembro do ano passado. Desde novembro, mais de 300 mil cidadãos do sul que residiam no norte fizeram a mesma viagem. "Em Cartum eu trabalhava como enfermeira, mas os árabes não me deram meus papéis e aqui não consigo encontrar trabalho", relata Daniel. Desde que chegaram não receberam a terra que o governo prometeu lhes dar e vivem em uma choça que pertence a um parente.

"No norte tínhamos nossa casa com eletricidade e água corrente, e as crianças iam ao colégio", lembra Daniel, que desde que voltou ao sul vive da caridade de seus parentes, já que não tem emprego nem dinheiro para mandar seus filhos à escola.

Esse regresso maciço colocou mais pressão em uma economia já disfuncional. "As pessoas não puderam cultivar, a próxima colheita vai ser muito ruim e seis dos dez estados do Sudão do Sul têm um alto risco de passar fome", resume Lise Grande, chefe de assuntos humanitários da ONU para o Sudão do Sul.

Outro dos grandes desafios do sul é o desarmamento, a desmobilização e a reintegração (DDR) de 150 mil membros das diferentes forças armadas do novo país. "O problema é a ausência de oportunidades econômicas", salienta William Deng Deng, presidente da Comissão de DDR do Sudão do Sul. "Nós podemos tirar seus rifles e lhes ensinar a ler e algum ofício, mas se quando saírem não tiverem trabalho até poderiam representar um problema de segurança, porque as milícias rebeldes poderiam recrutá-los."

Trata-se de sete grupos armados que deixaram de ser aliados às forças do sul para se opor ao regime de Juba. Mais de 2.300 pessoas morreram este ano em confrontos entre essas milícias e o exército, segundo números da ONU.

Mas nem tudo é negativo, e hoje em Juba o ambiente é de otimismo. Os cidadãos do novo Estado se veem capazes de superar todas as dificuldades. As comemorações continuam durante o domingo e na semana que vem. Como parte destas, as seleções de futebol e basquete jogarão suas primeiras partidas como representantes de um país independente. "No passado havia muitos problemas e é verdade que hoje também há", diz Majok Mangar, 20, uma das maiores promessas da equipe sul-sudanesa de basquete. "Mas na segunda-feira, quando eu vestir a camisa de meu novo país e sair para a quadra, será um sonho realizado e espero que as pessoas se orgulhem de nós."

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