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08 Julho 2011

Neste sábado, 9 de julho, nascerá oficialmente o 54º Estado africano. O Sudão do Sul irá proclamar oficialmente sua independência de Khartoum com uma cerimônia que começará à meia-noite, quando, na nova capital Juba, será recolhida pela última vez a bandeira do Sudão e será levantada a do novo Estado.

A reportagem é de Enrico Casale, publicada na revista dos jesuítas italianos, Popoli, 07-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"É com alegria que saudamos este dia depois de tanto sofrimento e morte!", escreveram em uma mensagem os padres combonianos Zanotelli Zolli e Gonzales. "`Foram necessários 191 anos de lutas para chegar a esta meta`: assim afirmou, em uma mensagem à nação, o primeiro presidente do novo Estado, Salva Kiir Mayardit. De fato, desde 1820, os povos do Sudão do Sul lutam contra traficantes de escravos e colonizadores, tanto árabes quanto europeus. Mas, mesmo depois da independência do Sudão (1956), o Sul resistiu aos regimes opressivos de Khartoum com duas guerras civis, que duraram quase 40 anos. Guerras assustadoras, que fizeram pelo menos dois milhões de mortos e milhões de refugiados".

O nascimento do novo país, no entanto, é acompanhado por uma série de problemas internos e externos. "O primeiro é a criação de uma classe dirigente democrática", explica Giovanni Sartor, representante da Campanha Italiana pelo Sudão (movimento que nasceu por iniciativa de algumas organizações da sociedade civil italiana). "Atualmente, os políticos são todos ex-guerrilheiros. A experiência da Somália e da Eritreia dos últimos anos nos diz que os líderes guerrilheiros, acostumados com o comando militar, geralmente custam para se transformar em políticos autenticamente democráticos e respeitosos dos direitos políticos. Por isso, será necessário que a comunidade internacional trabalhe para que essa tendência autoritária seja limitada o máximo possível e para que se forme um grupo dirigente respeitoso das normas democráticas e atento aos equilíbrio étnico-culturais".

O Sudão do Sul é um complexo mosaico de etnias que contribuíram para a criação do novo Estado e que, por isso, esperam não só um maior desenvolvimento econômico, mas também uma maior consideração da que Khartoum lhe reservava. "As expectativas são muitas – continua Sartor –, mas os meios são poucos. Inicialmente, os investimentos serão concentrados na região da capital Juba. Isso poderia descontentar as províncias periféricas. Se a classe dominante não se demonstrar à altura, esse descontentamento poderia logo se transformar em conflito, como ocorreu em muitos países africanos no passado".

"Somos conscientes dos enormes desafios que esperam o Sudão do Sul", destaca Antonella Napoli, presidente da Italians for Darfur, promotora da coalizão internacional envolvida há anos na campanha pelo Sudão. "Uma região devastada pela longa guerra civil e por um subdesenvolvimento extremamente grave. Mas consideramos, assim como os colegas da Anistia Internacional e do Human Rights Watch, que o novo Estado pode e deve adotar logo uma série de medidas para assegurar a proteção, o respeito e a promoção dos direitos dos seus cidadãos, que demonstraram grande confiança no futuro desse país com uma votação plebiscitária no referendo pela autodeterminação do dia 9 de janeiro passado".

O futuro do Sudão do Sul dependerá também das relações com que Juba souber instaurar com Khartoum. Nesse plano, são ainda muitos os pontos por resolver, a começar pela definição das fronteiras. Os recentes confrontos entre as tropas de Khartoum e as de Juba no Kordofan do Sul (que pertence ao Norte, mas é habitado por populações ligadas desde sempre ao Sul) e em Abyei (área disputada e muito rica em petróleo) colocaram em risco o acordo de paz de 2005 e a própria independência. No dia 4 de julho, o presidente do Sudão, Omar Hassan el-Bashir, e o do Sudão do Sul, Salva Kiir Mayardit, se encontraram em Adis Abeba e concordaram sobre a necessidade de silenciar as armas e de retomar as negociações para a definição das fronteiras depois do dia 9 de julho.

Se houver novos confrontos, certamente também serão discutidas outras duas questões não resolvidas: a distribuição equitativa dos recursos petrolíferos (de acordo com os cálculos do Ministério das Finanças de Khartoum, entre maio e junho, o Norte arrecadou 569 milhões de dólares, e o Sul, 396) e a subdivisão da dívida pública. "Sobre o petróleo – observa Sartor –, acredito que, no fim, se chegará a um entendimento. Nesse jogo, a China poderia ter um papel importante. Pequim é o maior comprador do petróleo sudanês e está interessado em manter essa posição de privilégio. De sua parte, os sudaneses (tanto os do Norte quanto os do Sul) precisam das receitas petrolíferas. Dessa convergência de interesses, acredito que nascerá um acordo. Mais complicada é a situação das fronteiras. Em Kordofan do Sul e em Abyei, houve confrontos muito duros e graves violações dos direitos humanos. O exército e a força aérea de Khartoum utilizaram os mesmos métodos `rápidos e drásticos` utilizados no Darfur. Quem está pagando as consequências são os civis. Estou convencido de que os confrontos destas últimas semanas se devem ao fato de que os dois Estados estão tentando se posicionar territorialmente da melhor forma, para depois se sentarem a uma mesa e discutir o acordo".

Também é complexo o quadro internacional no qual o novo Estado irá se inserir. Juba certamente deverá ter boas relações com a China (porque é a ela que vai vender a maior parte do seu petróleo), mas certamente não poderá virar as costas para os Estados Unidos, que até agora apoiaram o processo de autodeterminação sul-sudanesa. Não é por acaso que o vice-presidente sul-sudanês, Riek Machar, recém voltou de uma missão de três semanas nos EUA. Lá, ele encontrou o presidente Barack Obama, ao qual pediu que sejam levantadas as sanções contra Khartoum, que, indiretamente, afetam as exportações do Sudão do Sul (não tendo acesso ao mar, o país é obrigado a usar os portos do Norte). Ainda nos EUA, ele pediu que se invista no novo país, quase desprovido de infraestruturas: estradas, pontes, escolas, hospitais etc.

"Sem dúvida, o Sudão do Sul – observa Sartor – está ligado e se ligará sempre mais aos Estados anglófonos da África oriental e, de modo particular, a Uganda, Quênia e Tanzânia. Também será interessante notar quais relações ele irá manter com a Etiópia. Addis Abeba, fiel aliado de Washington, está assumindo nos últimos anos um papel de protagonismo na região como demonstra a intervenção militar na Somália em 2006 e a disponibilidade para enviar tropas de paz etíopes a Abyei. Juba poderia encontrar em Addis Abeba um país amigo".

Os problemas são muitos, mas a população, pelo menos no momento, parece não querer pensar nisso. "A moral da população é alta", declarou o padre Martin Ochaya, secretário-geral da arquidiocese de Juba, à agência Fides. "Há empolgação para o evento. Fervem os trabalhos para consertar as ruas e pintar os escritórios. A população alimenta grandes esperanças para o futuro, porque pensa que, graças à independência, a situação irá melhorar". Desde que o futuro já não esteja hipotecado.

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