"Nunca sonhei em ser presidente", afirma Evo Morales

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04 Julho 2011

Em entrevista ao Página/12, o presidente boliviano lembrou que antes dele houve cinco chefes de Estado em apenas cinco anos, disse que Kirchner foi "um pai político" e contou que um programa de ajuda social foi copiado na África.

O jogo entre a Argentina e a Bolívia de sábado à noite e o gasoduto para levar o gás para o norte argentino eram os dois grandes temas da visita de Evo Morales à Argentina até que irrompeu o protesto da comunidade judaica contra a viagem do ministro de Defesa iraniano a La Paz. São 11h e Evo acaba de se despedir dos dirigentes da DAIA (Delegación de Asociaciones de Israelitas Argentinas). Saíram sorridentes. Talvez tenham sido contagiados pela tranquilidade que emana hoje deste presidente aymara e ex-dirigente sindical que, no último dia 22 de janeiro, completou cinco no Palacio Quemado.

A entrevista é de Martín Granovsky e está publicada no jornal argentino Página/12, 02-07-2011. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Nunca sonhei em ser presidente – disse Evo. Nunca pensei que seria presidente.

Nunca?

Até 2002, nunca. Nunca. Eu, de tão abaixo? Quando meus companheiros em 1997 me propuseram ser candidato à presidência, pensei que estavam gozando de mim.

Mas o elegeram deputado.

Sim. Fui candidato a Presidente em 2002, e a candidatura me surpreendeu a mim mesmo. Eu candidato? Foi uma satisfação. E depois, em 2005, vencemos, mas temos muito que aprender sobre o novo sentido da política boliviana: antes o povo era escravo do governo. Agora o governo é escravo do povo. É serviço ao povo.

Os bolivianos votaram várias vezes em eleições presidenciais e para a reforma da Constituição. Como um Presidente faz para avaliar o sentimento popular diariamente?

As reuniões com os movimentos sociais permitem saber como se serve ao povo. Os resultados de gestão não só satisfazem, mas também orgulham quando o povo se sente atendido em suas demandas. Nem sempre é suficiente, claro, porque os recursos são insuficientes. Mas sempre escutamos.

Os dirigentes da DAIA que conversaram com você comentaram isso: que os escutou, que admitiu ter cometido um erro e que confiavam em você.

Houve problemas e os reconhecemos. Melhor aprender errando. Melhor não ocultar as coisas. Assim a vida é melhor. Essa é a minha experiência na família, no sindicalismo e no governo.

Admitir um erro não pode ser tomado como sintoma de fragilidade?

Para mim, não. Sempre me perguntam por que reconheço os erros. Quem não comete erros? Lamentamos coisas que não estavam em nossos planos e expressamos nosso reconhecimento.

Qual é o interesse nacional boliviano para o gasoduto que começou a ser negociado em 2006 e sobre o qual falou com a Presidenta?

A Bolívia, em boa parte lamentavelmente, viveu de seus recursos naturais. Em um momento a borracha, em outro o estanho, depois o gás. As relações que começamos com o presidente Néstor Kirchner continuam agora com o cumprimento dos acordos com a companheira Cristina e a construção do gasoduto Juana Azurduy, tão importante para os dois povos, um que abastece e outro que se beneficia. Ao mesmo tempo, melhoramos a economia da Bolívia e damos um serviço ao povo argentino. Falei muito sobre isso com a presidenta Cristina. Sabe do tema. Não parece advogada, parece petroleira. Garantir energia frente à crise do mundo, no marco da complementaridade, é importante. Nós necessitamos do povo argentino e de seu governo e se eles precisarem de nós, estamos aqui. Eu nunca esqueci que quando nos faltou trigo e farinha para o pão, ela nos mandou. Não sei como fez, mas o trigo ajudou a nossa felicidade.

A nova Constituição estabelece um Estado plurinacional. Como está funcionando a construção?

Nossa história mostra tantos irmãos assassinados, colgados, descuartizados, discriminados, marginalizados... Houve rebeliões com resultados nefastos, mas nessas rebeliões nossos antepassados defenderam a identidade e os recursos naturais. Agora estamos em uma revolução. Não com balas. Com o voto. O Estado plurinacional se constrói também descolonizando-nos. Três etapas. Rebelião, revolução, descolonização. Esta etapa não é fácil. Podemos mudar normas e procedimentos pelos quais um funcionário público se converterá em um servidor público. Mas é mais difícil mudar a mentalidade.

A do funcionário?

Sim. Por sorte, na Bolívia o povo começa a pensar de maneira diferente na política. No passado o político era visto como um delinquente, como um meliante, como um ladrão, como um farsante. Estamos mudando isso. Agora ser político é prestar serviço ao povo por tempo determinado.

O que significa por tempo determinado?

Que depende dos tempos da democracia, dos mandatos, do voto. Antes, ser político era dizer: "Chegou a minha vez. Vou aproveitar". Na Bolívia isso terminou. O povo era escravo do governo. No meu gabinete há intelectuais e profissionais que poderiam estar ganhando melhor em outro trabalho. Mas se somam a este trabalho para prestar um serviço por tempo determinado. E descolonizar também é a busca da soberania com igualdade de todos os bolivianos. Não pode haver uns vivendo no luxo e outros morrendo de fome. Não pode ser que existam essas diferenças de família para família, e tampouco de país para país, ou de continente para continente. Este milênio não deve ser o das oligarquias, das hierarquias e das monarquias. Olhemos as reações que há por estes dias em outros continentes. Na Europa, por exemplo. Antes eles olhavam para a América Latina. E o que viam? Os golpes militares, as ditaduras, crises, convulsões sociais, mortes. A Bolívia, antes da minha chegada à Presidência, tinha tido cinco presidentes em cinco anos.

Nós ganhamos: cinco em uma semana.

Sim. E não posso acreditar nisso: entrei no sexto ano da presidência. Isso quer dizer que vamos mudando.

Bom, e pelo Honoris Causa da Universidade de Córdoba já é o doutor Evo Morales.

E sou doutor, sim. Mas o que vale é o que vamos mudando estruturalmente, no campo econômico. No financeiro. Estamos nos libertando financeiramente. O próximo passo é tecnológico e científico. Devemos fazer uma aliança estratégica com toda a América do Sul para a tecnologia. Porque a América do Sul já é a mãe de todos os recursos estratégicos do mundo. Temos a Amazônia, água doce... É uma esperança para o mundo. É preciso desenvolver uma nova tese. A tese da vida, da humanidade. Falávamos disso muito com o companheiro Néstor Kirchner.

Vocês se conheceram antes da presidência.

Sim. O Néstor foi muito prático em suas recomendações e sugestões. Para mim segue sendo um pai político. Quando cheguei à Presidência já eram presidentes Néstor, Lula, Chávez e que podiam me dar sugestões e fazer recomendações.

Qual foi a recomendação mais importante?

O serviço ao povo. E lembro a ajuda que me deu em Tarija. Me disse: "Se vês que as empresas não querem investir, pega o telefone e me liga, que a Argentina vai investir". Talvez a mensagem possa ser entendida como simbólica. Mas foi muito importante. Os presidentes devem se ajudar, e também em temas de investimento.

Qual é, no plano mundial, a novidade boliviana em termos de identidade e desenvolvimento dos povos originários?

Programas, por exemplo. Aos setores mais pobres dos indígenas o governo garante 70% dos investimentos para empreendimentos produtivos. Os beneficiários têm que entrar com 30%. O Banco Mundial está exportando este programa para a África. Outro programa: a criança que termina o ano escolar recebe um pequeno bônus de 200 bolivianos ao ano. O segredo deste bônus é evitar que haja novos analfabetos. Onde há deserção escolar, especialmente nas áreas rurais do antiplano e nos bairros periféricos das cidades, vamos diminuindo dessa forma. Baixamos a deserção de 6% para 2%, e temos que impedir que haja novos analfabetos. Mais outro programa: os mais pobres, os abandonados, os que trabalharam toda a vida, recebem 200 bolivianos por mês. Não será muito, mas é alguma coisa. Nas áreas rurais o idoso que recebe sua renda resolve seu problema de água e de luz. E estamos entregando terra, embora alguns sejam muito ambiciosos.

O que querem?

Em vez de 50 hectares, querem 150. Alguns dizem: "Vamos aproveitar a presidência do companheiro Evo, do irmão Evo, porque, caso contrário, depois não vai haver mais".

Como é o estado atual da unidade da Bolívia, sobretudo, em relação a Santa Cruz de la Sierra? Os enfrentamentos de 2008 são coisa do passado?

Antes se falava na Meia Lua. Isso acabou. Agora é lua cheia. Nosso movimento se baseia na política do bem viver, não do viver melhor. Se queres viver melhor, tens que roubar, saquear os recursos, explorar. Podemos garantir isso porque o meu partido, o dos mais pobres, o dos camponeses indígenas originários, tem dois terços na Câmara dos Deputados e dos terços na Câmara dos Senadores. Nunca aconteceu na história da Bolívia. Há um sentimento popular que simpatiza com as mudanças profundas. E isso apesar das corridas bancárias, que fracassaram. Ou do boicote ao açúcar ou ao óleo para jogar a culpa em mim. Mas sempre estamos preparados para aprender errando, errando.

Mauricio Macri disse que um dos problemas da Argentina, e o repetiu depois, é o que chamou de "imigração descontrolada". Como reagiu ao ouvir isso?

Respeitamos as opiniões de todos. Cada um tem o direito de expressar o que pensa e sente. Mas todos somos latino-americanos. Todos somos sul-americanos. Temos a obrigação de compartilhar. Mas não apenas na Bolívia, mas, por exemplo, na Europa, na Espanha e outros países, ao boliviano é visto como honesto e trabalhador. Veio para cá buscando melhores condições de vida. Mas também contribui para o desenvolvimento da Argentina. Isso sempre acontece com as migrações. As externas e as internas. Na Bolívia vemos o que acontece com os que chegam a Cochabamba, ou com os que vão para Potosí ou de Oruro para Santa Cruz. Por isso em Santa Cruz se encontram pessoas de origens tão diferentes. Vão para trabalhar. Ajudam assim o desenvolvimento. Na América Latina acontece o mesmo. Nos complementamos para viver juntos.

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