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Ana Córdoba, outra mártir pacifista da Colômbia

"Vão me matar, e ninguém fez nada", disse a ativista colombiana Ana Fabricia Córdoba durante uma reunião com representantes do governo colombiano no dia 29 de abril deste ano. Ela havia repetido isso várias vezes. Já tinham matado seu marido e dois de seus filhos. Seis semanas depois, no dia 7 de junho passado, um desconhecido lhe deu um tiro na cabeça enquanto ela viajava de ônibus em Medellín às 10 horas da manhã. Ela tinha 51 anos.

A reportagem é do jornal El País, 24-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A ativista, prima da senadora Piedad Córdoba, intermediária entre o governo colombiano e as FARC, conheceu a violência desde a sua infância. A guerra entre liberais e conservadores (19481960) obrigou seus pais a deixar suas terras em Tibú (no nordeste da Colômbia, na fronteira com a Venezuela) e se mudar para Urabá, na costa pacífica do país. Um irmão seu militou na União Patriótica, um braço político das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).

Então, "começou o caos", disse ela à revista Semana, em uma entrevista publicada em novembro do ano passado. Os líderes e os militantes da União Patriótica foram perseguidos e praticamente exterminados por grupos paramilitares. Entre 1985 e 1988, morreram dois candidatos presidenciais, oito congressistas, 13 deputados, 11 prefeitos, 70 vereadores e milhares de seus militantes.

Mas a violência não cessou. Os paramilitares mataram seu marido no ano 2000. Córdoba e seus cinco filhos se mudaram para Medellín um ano depois. Ela lembrava a sua impressão ao chegar à segunda cidade mais populosa da Colômbia. "Chamou-me a atenção que as pessoas se mantinham muito asseadas, diferentemente do campo, onde se encontram homens de barba a todo a hora e as mãos ficam pretas de trabalhar na terra. Eu não sabia nem quando os carros tinham que parar nos semáforos, e eu me jogava quando transitavam por aí", contou à revista.

As ameaças continuaram, e ela pediu repetidas vezes a proteção do Estado. De pouco lhe serviu. Um de seus filhos, Carlos Mario Ospina Córdoba, morreu assassinado aos 13 anos no ano 2000, e outro, Jonatan, faleceu com 19 anos em um tiroteio há apenas 11 meses. A ativista culpava a polícia pelos dois crimes. Em nenhum dos casos os culpados foram encontrados.

A dor, no entanto, não lhe impediu de acusar em voz alta para os diferentes membros das equipes de segurança de fornecer apoio para a estrutura paramilitar na região, além de cometer atos de tortura contra os jovens de Medellín, segundo informa um relatório da Federação Internacional dos Direitos Humanos.

Córdoba se converteu em líder do bairro La Cruz, em Medellín, fundou em 2008 a organização Adelante por un Tejido Humano de Paz (Latepaz) e se juntou à Rota Pacífica das Mulheres, um grupo que busca uma saída pacífica para o conflito armado. A morte da ativista desfez a ilusão de paz na Colômbia, motivada pela recente ratificação da Lei de Vítimas, que busca ressarcir o dano a quatro milhões de pessoas afetadas pelo conflito armado e restituir mais de dois milhões de hectares aos desalojados. Por enquanto, algumas organizações de direitos humanos anunciaram a suspensão do diálogo com o governo colombiano por causa do assassinato.

Três filhos de Córdoba continuam vivos: Diana, de 28 anos; Carlos Arturo, de 18; e Caroline, de 12. No mesmo dia em que sua mãe morreu, eles voltaram a ser ameaçados. Pediram o apoio do governo colombiano. "Mataram seu pai, dois irmãos, a mãe, e o que eles expressam é toda a preocupação", disse nesta terça-feira o vice-presidente colombiano, Angelino Garzón, acrescentando que estão estudando os "mecanismos necessários" para transferi-los para outro país. "Foi um assassinato que poderíamos ter evitado", reconheceu.

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