O arcebispo de Nova York e o futuro católico

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23 Junho 2011

Um retrato de Timothy Dolan, um homem que representa a ortodoxia e o diálogo. Se quisermos entender os movimentos da Igreja norte-americana no século XXI, é a ele que devemos nos voltar.

A análise é de John L. Allen Jr., correspondente do National Catholic Reporter, em artigo publicado no sítio Vatican Insider, 21-06-2011. Em outubro, a editora Random House irá publicar o seu livro-entrevista com o arcebispo Timothy Dolan intitulado A People of Hope. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Há pouco mais de 5.000 bispos na Igreja Católica, e, teologicamente, eles são todos iguais em dignidade como sucessores dos apóstolos. No entanto, em termos de influência no mundo real, alguns são, obviamente, mais iguais do que outros, e nestes dias seria difícil encontrar alguém mais igual do que o arcebispo Timothy Dolan, de Nova York.

Para provar, considere-se o histórico de Dolan entre fevereiro de 2009 e junho de 2011:

- Em 23 de fevereiro de 2009, Bento XVI nomeou Dolan como o décimo arcebispo de Nova York, o púlpito mais importante da Igreja norte-americana.

- No dia 31 de maio de 2010, o Papa Bento XVI indicou Dolan como Visitador Apostólico para a Irlanda, ajudando a conduzir a resposta do Vaticano à massiva crise dos abusos sexuais nesse país.

- No dia 16 de novembro de 2010, Dolan foi eleito presidente da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos, tornando-se o principal porta-voz do catolicismo no país.

- Em 5 de janeiro de 2011, Bento XVI nomeou Dolan como membro do novo "Conselho Pontifício para a Nova Evangelização", parte de um conjunto de prelados de elite que gozam da maior confiança do pontífice.

- No dia 20 de março de 2011, o famoso programa de TV norte-americano "60 Minutes" dedicou um segmento inteiro para Dolan, chamando-o de "papa norte-americano".

- No início de junho de 2011, Dolan viajou para Roma acompanhado pelo programa "Today", o telejornal matinal de maior audiência dos EUA. Durante uma transmissão ao vivo, apresentador descreveu Dolan como a "pessoa de mais alto perfil agora da Igreja Católica nos Estados Unidos", alguém com um "carisma enorme, uma grande personalidade".

Em breve, Dolan vai entrar para o Colégio dos Cardeais e, aos 61 anos, ele ainda é jovem para os padrões eclesiais. Para entender para onde a Igreja Católica se dirige no século XXI, e não apenas nos Estados Unidos, é preciso agora se voltar para o arcebispo de Nova York.

Compreender Dolan satisfatoriamente, contudo, é mais fácil de dizer do que de fazer. Ele é um personagem de grandes dimensões que, ao primeiro contato, tende a sobrecarregar os sentidos do interlocutor. Ele tem quase dois metros de altura, é grande como um urso, o que reflete o seu gosto por comer, beber e por um bom charuto, sem falar da sua falta de entusiasmo por exercícios físicos. Ele tem uma voz potente, um riso rouco e um sorriso muito eletrizante, que provavelmente poderia fornecer energia para várias quadros do centro de Manhattan. Ele é rápido para fazer piadas, o tipo de "pessoa do povo" que sempre dá tapinhas nas costas dos outros e beijos em bebês. Se Dolan não tivesse se tornado um bispo católico, ele poderia facilmente ter sido um senador dos EUA ou um diretor executivo corporativo.

Além do seu charme e de sua astúcia midiática, o que torna Dolan verdadeiramente interessante para os católicos de todo o mundo é que ele é a apoteose de uma opção para o futuro da Igreja: a "ortodoxia afirmativa".

Se os generais estão sempre combatendo a última guerra, os jornalistas estão sempre atrapalhando a última eleição. Durante os últimos 50 anos, a forma jornalística convencional de dimensionar o catolicismo foi em termos de uma luta entre esquerda e direita. Depois de mais de 30 anos de nomeações de bispos pelos Papas João Paulo II e Bento XVI, no entanto, essa disputa está em grande parte perdido no nível das lideranças.

Ao contrário, a verdadeira batalha para o futuro ocorre entre diferentes correntes no amplo campo conservador – entre guerreiros culturais que veem o mundo exterior principalmente como uma ameaça, e evangelistas que veem-no como terra de missão. O primeiro instinto é uma prescrição para retroceder; o outro para se encontrar com o mundo na metade do caminho.

Nesse cabo de guerra, Dolan encarna a versão aberta e positiva do conservadorismo católico, que eu chamei de "ortodoxia afirmativa". Ambas as partes dessa formulação são importantes. É "ortodoxa", no sentido de ser uma defesa tenaz do pensamento, do discurso e da prática católicos. É também "afirmativa", no sentido de apresentar a identidade católica em uma chave positiva. A ênfase está sobre aquilo que o catolicismo abraça e afirma, àquilo que ele diz "sim", ao invés daquilo que ele se opõe e condena.

Dolan é "ortodoxia afirmativa" pura. Ninguém pode questionar o seu compromisso com o ensino católico, e muitos o consideram intelectual e politicamente como um neoconservador. Ele também é igualmente muito conhecido, no entanto, pela sua profunda convicção de que a maioria dos problemas relacionados à vida podem ser resolvidos sentando-se juntos, bebendo algumas cervejas e falando sobre essas coisas. Se confrontado com uma escolha entre reconciliação e recriminação, Dolan invariavelmente irá preferir a primeira.

Apesar das claras diferenças com a Casa Branca, Dolan se encontrou com Barack Obama nos bastidores e diz admirar a civilidade do presidente. Embora os bispos entraram em confronto amargamente com a associação dos hospitais católicos dos Estados Unidos sobre a reforma da saúde, Dolan manteve as linhas de comunicação abertas. Ele geralmente se opõe à proibição da comunhão aos políticos católicos pro-choice [que defendem a liberdade de optar pelo aborto], preferindo mudar corações ao invés de bater cabeças. Ele diz ser um "líder de torcida para o diálogo" e que, em princípio, não há ninguém com quem ele se recusaria a se encontrar.

Se a ortodoxia afirmativa prevalecer no catolicismo, o arcebispo Timothy Dolan de Nova York terá uma grande parte nisso. Por si só, isso faz de Dolan um bispo consideravelmente "mais igual" do que a maioria dos bispos de hoje.

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