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19 Junho 2011

Alguns estudiosos colocam em dúvida o fato de os homens serem "egoístas por natureza". Porque, ao contrário, tendemos a cooperar. A lógica não é mais a da competição, mas sim a ideia de colaboração. Ajudar o próximo ativa certas regiões do cérebro e se torna fonte de prazer.

A reportagem é de David Brooks, publicada no jornal La Repubblica, 17-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A teoria da evolução nos ensina que aqueles que sobrevivem são os indivíduos que melhor se adaptam ao ambiente. O mais forte prevalece sobre o mais fraco. As criaturas que se adaptam transmitem os seus genes próprios e egoístas. Aquelas que são incapazes de se adaptar vão ao encontro da extinção.

De acordo com essa tese, nós, seres humanos, somos marcados por um profundo egoísmo, assim como todos os outros animais. Visamos ao máximo resultado, competindo por status social, renda, oportunidades de encontrar um parceiro. Os comportamentos aparentemente altruístas são, na realidades, ditados por um interesse pessoal dissimulado. Caridade e fraternidade nada mais são do que uma mistificação cultural deliberada sobre a lógica férrea da natureza.

Tudo isso é parcialmente verdadeiro, obviamente. Mas todos os dias chega à minha mesa um livro que põe essa questão sob uma ótica diferente. Livros sobre solidariedade, empatia, cooperação e colaboração, escritos por cientistas, psicólogos evolucionistas, neurocientistas. Aparentemente, os estudiosos desse campo mudaram de orientação, dando origem a uma imagem mais imprecisa e frequentemente mais terna da natureza.

Comecemos pelo ensaio mais modesto. Trata-se de SuperCooperators, escrito por Martin Nowak junto com Roger Highfield. Nowak recorre à matemática superior para demonstrar que "cooperação e competição são perene e estreitamente interconectadas". Com a intenção de buscar o nosso interesse pessoal, muitas vezes somos levados a restituir uma gentileza recebida, de forma a poder contar com os outros em caso de necessidade. Somos estimulados a criar para nós mesmos a reputação de pessoas gentis, com a intenção de induzir os outros a colaborar conosco. Somos incentivados ao trabalho de equipe, mesmo que, no curto prazo, possa ser contraproducente com relação aos nossos interesses pessoais, porque os grupos coesos estão destinados ao sucesso. Nowak atribui à cooperação um papel central na evolução, equiparando-a à mutação e à seleção.

Mas grande parte dos novos livros superam a teoria do incentivo em sentido estrito. Michael Tomasello, autor de Why We Cooperate, criou uma série de testes adequados, com poucas variações, tanto aos chimpanzés quanto às crianças. Dos experimentos, surgiu que, já em uma idade muito precoce, as crianças têm um comportamento colaborativo e compartilham as informações, ao contrário do que acontece entre os chimpanzés adultos.

Uma criança de um ano informa às outras a presença de alguma coisa, indicando-a. Os chimpanzés e outros primatas não compartilham as informações com espírito colaborativo. As crianças estão prontas para compartilhar o alimento com estranhos. Os chimpanzés geralmente não oferecem comida, nem mesmo para a prole. Se uma criança de 14 meses percebe que um adulto está em dificuldade – não consegue, por exemplo, abrir a porta porque tem as mãos ocupadas –, vai tentar ajudá-lo. A tese de Tomasello é que o ser humano, mentalmente, se diferenciou dos outros primatas. A disponibilidade à cooperação é uma qualidade humana inata, que é deliberadamente exaltada nas várias culturas.

Em Born to Be Good, Dacher Keltner ilustra os estudos sobre os quais se empenhou, juntamente com outros, sobre os mecanismos da empatia e da conexão, descrevendo as dinâmicas do sorriso, do enrubescimento, do riso e do contato físico. Quando se ri junto com os amigos, começa-se com vocalizações separadas, que, depois, porém, se fundem em sons interconectados. Parece que o riso se desenvolveu há milhões de anos, bem antes das vogais e das consoantes, como mecanismo para construir cooperação. Faz parte do rico instrumentário inato da colaboração entre seres humanos.

Em um artigo, Keltner cita a obra de James Rilling e Gregory Berns, da Emory University. Os dois neurocientistas descobriram que o ato de ajudar o próximo ativa as áreas do núcleo caudado e do córtex cingulado anterior, envolvidas nos mecanismos do prazer e da gratificação. Isso significa que ser útil aos outros é uma fonte de prazer, como satisfazer um desejo pessoal.

No seu livro The Righteous Mind, que deve sair no próximo ano, Jonathan Haidt se associa a Edward O. Wilson, David Sloan Wilson e outros ao argumentar que a seleção natural ocorre não só mediante a competição em nível individual, mas também entre grupos. Em ambos os casos, a carta vencedora é a capacidade de adaptação, mas, na competição entre grupos, a capacidade de coesão, de cooperação, o altruísmo dos membros, são fatores determinantes para se impôr e transmitir seus próprios genes. Falar de "seleção de grupo" era uma heresia até alguns anos atrás. Hoje, essa teoria está ganhando terreno.

Os seres humanos, argumenta Haidt, são as "girafas do altruísmo". Assim como as girafas desenvolveram o pescoço para sobreviver, os seres humanos desenvolveram o senso moral para vencer na competição, em nível individual e de grupo. Os seres humanos dão origem a comunidades morais compartilhando regras, hábitos, emoções e divindades, para depois combater e até às vezes morrer para defendê-los. As novas teorias da evolução que exaltam o fator da cooperação fazem com que sejam revistos velhos critérios de análise como o que impunha, nas ciências sociais e particularmente na economia, o modelo da máxima vantagem com base no princípio da competição egoísta.

Mas o aspecto mais revolucionário refere-se à relação entre comportamento e moral, por décadas negado com base em critérios chamados de "científicos". Se é verdade, no entanto, que a cooperação é parte integrante da nossa natureza humana, o mesmo vale para a moralidade. Não podemos entender quem somos e como chegamos até aqui sem considerar a ética, as emoções e a religião.

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