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12 Junho 2011

Madre Teresa e Lady Gaga são os últimos ícones da indústria da liderança. E isso não é uma piada.

A análise é da revista The Economist, 02-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Existem diferenças óbvias, é claro. O vestido de carne crua de Lady Gaga provavelmente não atrairia Madre Teresa de Calcutá. O costume da pop star de mudar de um figurino bizarro a outro várias vezes ao dia, e talvez 20 vezes durante um show, poderia chocar a falecida freira como algo extravagante.

Madre Teresa usava o mesmo hábito todos os dias: um sari branco com três listras azuis, refletindo seus votos de pobreza, castidade e obediência. Lady Gaga, ao contrário, não é um exemplo de castidade ("Baby when it’s love if it’s not rough it isn’t fun" [algo como "Baby, quando é amor, se não é rude, não tem graça"], ela canta).

No entanto, as diferenças entre as duas mulheres podem importar menos do que as suas semelhanças. Ambas são venerados. Madre Teresa ergueu as suas Missionárias da Caridade do nada em uma operação global presente em mais de 100 países. Lady Gaga tem a previsão de ganhar mais de 100 milhões em 2011 e pode em breve ultrapassar supergrupos como o U2.

Ambas as mulheres também são modelos para líderes corporativos, de acordo com duas publicações recentes, Mother Teresa, CEO, um livro de dois executivos, Ruma Bose e Lou Faust, e Lady Gaga: Born This Way?, um estudo de caso de Jamie Anderson e Jörg Reckhenrich, da Escola de Gestão da Antuérpia, e de Martin Kupp, da Escola Europeia de Gestão e Tecnologia.

Não é apenas pelo fato de que, no início de suas carreiras, elas tenham trocado nomes longos e mal pronunciáveis para nomes mais curtos e cativantes: Agnes Gonxha Bojaxhiu tornou-se Madre Teresa; Stefani Germanotta tornou-se Lady Gaga. Como as duas publicações argumentam, ambas tiveram sucesso ao desenvolver marcas simples e claras que, coincidentemente, se identificavam com as pessoas de fora.

Madre Teresa fazia seu ministério junto aos pobres e aos doentes: pessoas "evitadas por todos". Lady Gaga se descreve como "uma alma aberradora, aventureira, perdida em busca de pares". Ela assegura seus fãs que não tem problema em ser diferente. Essa é uma mensagem reconfortante não só para os gays, mas também para a maioria dos adolescentes.

Um trabalho duro ajudou as mulheres a se distinguirem. Madre Teresa levantava-se todos os dias às 4h40 para a missa. Lady Gaga "tira folga no dia de Natal fora – e aproveita para passar com os seus pais –, mas, senão, trabalha sem parar". Uma comunicação brilhante ajudou-as ainda mais. Madre Teresa era uma "máquina de relações públicas", que, quer conversando com um leproso moribundo ou com um rico doador, "sempre deixava sua marca através da comunicação, em uma linguagem que a outra pessoa compreendia". Lady Gaga é "um dos primeiros astros pop a realmente ter construído uma carreira por meio da internet e das mídias sociais".

Lady Gaga tem o que Anderson, Kupp e Reckhenrich chamam de "projeção de liderança", que um leigo chamaria de carisma. Os autores acham que isso se deve ao fato de ela contar "três histórias universais". Em primeiro lugar, uma história pessoal: quem sou eu? (ela afirma ter sido uma criança estranha na escola, mas estimulada a ser criativa). Segundo, uma narrativa de grupo: quem somos nós? (ela chama seus fãs de "meus monstrinhos" e a si própria de "Mãe Monstro", e se comunica com eles constantemente via Facebook e Twitter). E, em terceiro lugar, uma missão coletiva: para onde estamos indo? (ela promove os direitos dos gays e celebra a autoexpressão; ela diz a seus fãs que, juntos, eles podem mudar o mundo).

Lady Gaga tem a "capacidade de construir compromisso emocional" naqueles que ela lidera, diz Reckhenrich. Essa habilidade é cada vez mais valiosa no mundo empresarial de hoje, afirma ele. Em The Fine Art of Success, um livro que ele e seus coautores lançaram no ano passado, eles examinam isso em profundidade. Eles agora estão trabalhando com Egon Zehnder, uma empresa de recrutamento de executivos, para descobrir como identificar se os candidatos para os altos cargos corporativos têm a capacidade de "projetar a liderança" da forma como Lady Gaga faz.

Um risco desse estilo de liderança é que "contar uma história pessoal lhe expõe a ataques pessoais", admite Reckhenrich. Lady Gaga tem sido acusada de falta de autenticidade, e um juiz estúpido e literal, sem dúvida, a julgaria culpada. A capa do seu novo álbum a retrata como metade mulher e metade motocicleta, e afirma que ela Born This Way [nasceu assim]. Isso obviamente não é verdade. No entanto, acusar uma artista por ter uma impostura é um pouco como acusar um banqueiro de se interessar por dinheiro: pode ser verdade, mas ainda assim é banal.

Madre Teresa teve os seus críticos também. Christopher Hitchens, um polêmico ateu, chamou-a de "Anjo do Inferno". Em seu livro The Missionary Position, ele criticou-a por difundir uma forma extrema de catolicismo e por aceitar dinheiro de pessoas duvidosas, como o "Papa Doc" Duvalier, o falecido ditador do Haiti.

O mistério do carisma

Tratados sobre gestão com nomes famosos nos títulos são, em sua maioria, conversa fiada. Há tanta coisa que um gestor pode aprender com Genghis Khan – já não é mais prático empalar os concorrentes em estacas. Da mesma forma, os céticos podem duvidar que os segredos do sucesso de Lady Gaga ou da Madre Teresa possam ser utilmente aplicados, digamos, em uma empresa que produz rolamentos. Um gestor que chame seus subordinados de "monstrinhos" provavelmente não vai conquistar seus corações. Um chefe que declare que Deus quer que a equipe de vendas atinja suas metas será ridicularizado. Os céticos também podem apontar que Lady Gaga não tem muito a ver com uma gestora. Sua recente turnê mundial atraiu legiões de fãs, mas mesmo assim perdeu dinheiro, porque ela mudava continuamente de equipe.

No entanto, o carisma tem sua importância nos negócios, e as celebridades dizem-nos algo, sim, sobre como ele pode ser exercido. Já não é suficiente para um chefe corporativo ser inteligente e bom em dar ordens. Os trabalhadores do conhecimento moderno podem não acolher bem um chefe duro à moda antiga, como Jack Welch, que dirigia a General Electric. Muitos respondem melhor a um chefe que se comunica calorosamente: Indra Nooyi, da PepsiCo, às vezes escreve aos pais de seus gerentes para agradecê-los por terem educado filhos tão bons.

Os empregados desejam um senso de objetivo, e o chefe que pode fornecê-lo vai obter o melhor deles. As histórias pessoais ajudam: Steve Jobs e Richard Branson, cujos impérios empresariais dependem do seu carisma, destacam os seus passados como estudantes que abandonaram os estudos. O carisma é difícil de aprender, mas não é gaga [tolice] buscar orientação nas estrelas.

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