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Economia de comunhão: uma proposta de mudança econômica. Entrevista especial com Luigino Bruni

"A Economia de Comunhão diz que a empresa deve mudar. Não é tanto apenas se ocupar dos pobres, sem mudar as estruturas econômicas, mas sim propor empresas diferentes, que não tenham o lucro como objetivo, que incluam os pobres, para evitar que haja pobres amanhã", explica o economista italiano Luigino Bruni (foto). Segundo ele, a Economia de Comunhão "é uma proposta mais radical na mudança estrutural do sistema econômico, por meio da mudança da sua principal instituição, que é a empresa".

No final do mês de maio, em São Paulo, foram realizadas a Assembleia e a Jornada Internacionais de Economia de Comunhão, por ocasião dos 20 anos do surgimento da Economia de Comunhão. Em maio de 1991, a leiga católica italiana Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, visitou o Brasil e, impactada pela disparidade entre as grandes favelas e os arranha-céus paulistas, teve uma ideia: "Sob o impulso da comunhão dos bens, deveriam surgir indústrias, empresas [...], a novidade seria essa: o lucro seria colocado em comum. Deveria nascer assim, uma Economia de Comunhão [...]. Queremos que o lucro seja colocado em comunhão livremente", escreveria ela posteriormente.

Em São Paulo, durante os eventos comemorativos, os colegas do Instituto Humanitas Unisinos – IHU Prof. Ms. Gilberto Antônio Faggion e Prof. Ms. Lucas Henrique da Luz conversaram pessoalmente com Bruni a respeito dessa proposta econômica.

Luigino Bruni é membro do Movimento dos Focolares e um dos maiores propositores em âmbito acadêmico da Economia de Comunhão. Professor de Economia Política da Faculdade de Economia da Università di Milano-Bicocca, na Itália, é também vice-diretor do centro interuniversitário de pesquisa sobre ética empresarial Econometica (www.econometica.it). Em português, é autor, junto com Stefano Zamagni, de Economia Civil: Eficiência, Equidade e Felicidade (Ed. Cidade Nova, 2010). Dentre suas demais obras, destacamos Reciprocity, Altruism and Civil Society (Routledge, 2008) e Civil Happiness (Routledge, 2006), que recebeu o segundo lugar no prêmio de melhor livro do ano, em 2008, da Templeton Foundation.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que diferenças há entre a Economia de Comunhão e outras formas de economia, como a economia social, solidária? Como alternativa ao modelo hegemônico, quais são os diferenciais da Economia de Comunhão?

Luigino Bruni – Uma diferença, por exemplo, a respeito do modelo da economia solidária – eu a conheço apenas em parte – é que esta tem um aspecto interessante: isto é, embora nasça de um paradigma essencialmente de tipo marxista, na realidade, ocupando-se da pessoa, sem querer, não coloca em discussão o sistema de produção, isto é, as relações econômicas normais. Ocupa-se das pessoas que ficam fora do jogo, dos marginalizados, dos excluídos, mas, ao fazer isso, não coloca em questão as relações econômicas do sistema capitalista.

A Economia de Comunhão, na realidade, colocando no centro também uma definição sobre a empresa, está dizendo que ela, a empresa, deve mudar. Deta maneira, não é tanto apenas se ocupar dos pobres sem mudar as estruturas econômicas, mas sim propor empresas diferentes, que não tenham o lucro como objetivo, que incluam os pobres, para evitar que haja pobres amanhã.

"Nós falamos de amor, de gratuidade, de ágape, porque não é tanto `o que faço`, mas sim `como o faço`. É um estilo de vida"

Assim, é uma proposta mais radical na mudança estrutural do sistema econômico, por meio da mudança da sua principal instituição, que é a empresa. E nisso há uma diferença muito importante. Depois, há outras diferenças como o laço profundo entre a empresa, de um lado, e os excluídos, de outro; a tentativa de dar vida à estrutura de governança de comunhão dentro da empresa etc.

IHU On-Line – Como o dom se manifesta na Economia de Comunhão?

Luigino Bruni – Basta ouvir os empresários, mas não é algo simples de explicar, porque há um modo que poderia ser equivocado de interpretar isso. Qual? Que o empresário produz riqueza, não se preocupa em mudar as relações de produção e, quando tem dinheiro, o doa aos pobres. Se fosse assim, seria um modelo muito pouco interessante e em nada inovador.

Nós podemos falar mais de gratuidade, e menos de dom, porque a gratuidade convive com os contratos, com os devedores, nas relações dentro da empresa, nas relações comunitárias. E, portanto, até mesmo empresas que não doam seu lucro, vivem a cultura do dom. Metade dessas empresas não tem lucro, porque ou estão em perda ou porque são empresas sem fins lucrativos, como as cooperativas sociais. O dom, portanto, não é simplesmente doar o dinheiro. O dom é muito mais profundo. Por exemplo, o empresário doa, sobretudo, talentos, recursos, não doa tanto dinheiro.

"É preciso mudar as relações dentro da empresa que, com formas jurídicas diversas, devem nascer da vida"

Assim, a cultura do dom é muito importante, mas não deve ser entendida como filantropia, não deve ser entendida como presente, mas deve ser entendida como relações novas de gratuidade, uma gratuidade que, talvez, deve conviver com o contrato. Portanto, o dom que nós falamos não é oposto ao contrato, ao devedor: é uma dimensão da vida. Nós falamos de amor, de gratuidade, de ágape, porque não é tanto "o que faço", mas sim "como o faço". É um estilo de vida.

IHU On-Line – Quais são as principais novidades da Economia de Comunhão quanto às relações de trabalho, mais especificamente, por exemplo, a relação entre patrão e empregado? É uma relação emancipatória, realizadora, ou o patrão é sempre patrão e o empregado é sempre empregado?

Luigino Bruni – A Economia de Comunhão que vemos hoje é ainda muito tradicional, porque recém iniciou um processo. Ou melhor, hoje é um pouco menos, mas há 10 anos era muito tradicional. E em 20 anos será muito diferente. Isto é, nós devemos também mudar os direitos de propriedade da empresa. Não é suficiente apenas dizer que o empresário, com boa motivação, é altruísta. É preciso também mudar as relações dentro da empresa que, com formas jurídicas diversas, devem nascer da vida.

Em certos países do mundo, como na Itália, por exemplo, já há experiências participativas, também no contrato, nas regras formais. Em outros países não, mas há um movimento que levará seguramente a uma superação da forma tradicional, em que há o patrão de um lado, e o funcionário de outro. Agora, isso não é muito visível.

Alguém que olha de fora não vê muita novidade – mas a verá em breve, em alguns anos. Porque a tendência é a de chegar a formas de empresa diferentes, mais participativas, mais inclusivas.

IHU On-Line – Quais são as principais dificuldades da Economia de Comunhão? E que contribuições ela pode dar ao paradigma liberal dominante global de hoje?

Luigino Bruni – Se olharmos para esses 20 anos, veremos um caminho. Isto é, hoje, a Economia de Comunhão começa a ser um projeto que produz categorias diferentes, que hoje começam a ser aceitas por alguns setores, como justamente a fraternidade, a reciprocidade, gratuidade, felicidade, bens relacionais. São categorias originais, nascidas dentro da Economia de Comunhão, também categorias teóricas.

"A Economia de Comunhão ainda é uma semente. Porém, já há alguma coisa. Há uma tendência importante"

Mas ainda é uma semente, ou seja, ainda está no início, porque é um projeto muito complexo. Estamos ainda nas primeiras horas de um dia. Porém, já há alguma coisa. Há uma tendência importante e, sobretudo, começamos a ver interesse crescente na universidade. Só no último ano, três ou quatro universidades – na África, no Chile, na Itália – que inseriram, dentro do currículo de estudos, cursos sobre Economia de Comunhão.

Há um movimento crescente. A tendência é muito positiva. Mas os tempos são longos, porque é um organismo muito complexo. E, quanto mais complexo é o organismo, mais longa é a infância. Por exemplo, um gato, depois de três meses, já é adulto; um homem precisa de 20 anos. Sendo o nosso carisma muito complexo – é um carisma espiritual, religioso, que tem muitas dimensões, da arte à cultura, do esporte à política –, ele precisa de mais tempo para entender às novidades que existem, porque há uma incubação muito mais longa.

Portanto, dentro de 10 ou 15 anos, veremos coisas belas. Em 10 anos, se poderá chegar a uma massa crítica para sair mais à vida pública e não só nos pequenos ambientes. Se estivermos vivos, veremos.

(Por Moisés Sbardelotto)

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