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26 Mai 2011

"Eis um filme que procura falar ao espectador sobre temas como dignidade, fidelidade a certos princípios, coragem diante do inevitável, sem esquecer que a natureza humana tem aspectos diversos e nem sempre o comportamento é uniforme", escreve Hélio Nascimento, crítico de cinema, comentando o filme Homens e Deuses, em artigo publicado no Jornal do Comércio, 27-05-2011.

Eis o artigo.

A influência de Robert Bresson, presente na forma e na temática de Homens e deuses, realça um aspecto dos mais importantes deste filme de Xavier Beauvois, aquele que o coloca entre as obras que expressam empenho em resistir às concessões e às facilidades, às quais até mesmo Kenneth Branagh, recentemente, pagou tributo com Thor. Numa evidência, também, que o mercado não está assim tão dominado, em termos qualitativos, pelo produto norte-americano, este é o sexto filme premiado em Cannes no ano passado a chegar ao mercado exibidor brasileiro. Os outros foram Tio Boonmee, de Apichatpong Weerasethakul, Turnê, de Mathieu Amalric, Biutiful, de Alejandro Gonzales Iñarrutu, Um homem que grita, de Mahamat-Saleh Haroun, e Cópia fiel, de Abbas Kiarostami. Filmes realizados por cineastas da Tailândia, da França, do México, do Chade e do Irã ultrapassaram barreiras e demonstraram que se a ocupação do mercado por filmes dedicados ao público infantil dificulta o trânsito de trabalhos com outras preocupações ela não é assim tão poderosa ao ponto de impedir a exibição de outro tipo de cinema.  Importa, sim, que o público prestigie a exibição de filmes voltados para um cinema empenhado em testemunhar acontecimentos e reconstituir rituais que expressem o tempo presente. Os filmes de ação e aventura sempre existiram e continuarão existindo. Alguns são obras-primas que pertencem à história do cinema, mas não devem ser vistos como os únicos. A diversidade necessita ser mantida e por isso cumpre ao espectador exercer esse papel essencialmente democrático de garantir a existência de um espaço cada vez maior para obras que se expressam de forma diferente dos postulados de um cinema voltado para as bilheterias. Os grandes espetáculos são essenciais para o funcionamento da indústria cinematográfica, mas cumpre aproveitar esse impulso para procurar caminhos que possibilitem o enriquecimento do cinema.

Homens e deuses não recebeu o prêmio maior em Cannes. A Palma de Ouro, esta ficou com o filme de Weerasethakul. O trabalho de Beauvois recebeu o Grande Prêmio, espécie de segundo lugar. Até para que tal colocação seja aceita ou rejeitada pelo espectador é interessante a visão de Homens e deuses. Porém, independentemente de prêmios, este filme é obra a ser prestigiada. A ação, baseada em fatos reais, se desenrola em um monastério localizado na Argélia, na década de noventa do século passado, quando o país esteve envolvido por uma violência originada, entre outras causas, por radicalismos de ordem religiosa. Beauvois não está interessado em reconstituir meticulosamente acontecimentos históricos. Estamos diante de uma obra que mesmo partindo de fatos verídicos procura ampliá-los e transformá-los em matéria que coloque o espectador diante de uma realidade que ultrapassa barreiras impostas por datas e acontecimentos. Eis um filme que procura falar ao espectador sobre temas como dignidade, fidelidade a certos princípios, coragem diante do inevitável, sem esquecer que a natureza humana tem aspectos diversos e nem sempre o comportamento é uniforme. Nos cantos religiosos a unissonância predomina. Mas esta unidade não se amplia e não predomina no grupo de seres ameaçados.

Como realização a obra é perfeita. Toda a sequência inicial, que reconstitui o cotidiano daqueles monges, já nos informa sobre o papel do grupo no cenário onde atuam. Todos eles se dedicam a trabalhar pelo próximo e parecem estar harmonizados com uma realidade. Várias vezes, durante o filme, o diretor acentua o fato de que esta realidade está ameaçada. Numa dessas cenas um grupo de extremistas islâmicos executa um massacre que será o ponto de partida para o drama a ser enfrentado. Quando o médico do grupo surpreende a todos com a colocação de um acompanhamento sonoro que nada tem de religioso - o trecho mais conhecido de O lago dos cisnes - a irreverência como que se instala em cena, a ironia constatando que todos aqueles rituais haviam perdido o sentido. A realidade de um mundo dividido termina por conduzir os homens para uma neblina que tudo apaga, num cenário de gelo e impiedade.

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