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22 Mai 2011

"Não há inocentes, há, sim, cinismo. O argumento de Palocci é puro cinismo, sem dúvida. Ele fez, como disse, o que fizeram antecessores seus, quando estiveram no seu lugar, ou seja, no topo do poder, saindo de lá grávido de informações especiais, valiosas", escreve Cesar Fonseca, no sítio Patria Latina, 21-05-2011.

Segundo ele, "repete-se na periferia do capitalismo o que ocorre no capitalismo cêntrico. Os principais assessores econômicos do presidente Barack Obama sairam de Wall Street, o centro financeiro mais poderoso do mundo. Depois vão para o mercado, cheio de informações, faturarem bilhões. Do mercado para o governo, do governo para o mercado".

Eis o artigo.

A mulher de César não tem que ser apenas honesta, sobretudo, tem que parecer honesta. Esse é o dilema do ministro Palocci, enriquecido nas águas da traficância-comercialização das influências produzidas pela força das informações que somente aqueles que se situaram nas alturas dos poderes políticos dispõem para serem vendidas por alto preço àqueles que delas dependem para multiplicar seu capital nas esferas governamentais que puxam a demanda econômica por meio dos gastos públicos. O ministro da Casa Civil foi pego no contrapé, mas não fez nada que a oposição, quando no poder, não tenha feito à larga. O problema todo é que nesses casos o que vale não é a verdade mas a versão. E as versões correm os corredores do Congresso onde a disputa política se dá com grande velocidade e dose elevada de multiplicações diversionistas e diversificadas, ampliando as maledicências. Estaria o ministro contrariando interesses poderosos expressos na exclusão deles do poder político dilmista? Tudo pode estar acontecendo, mas o próprio Palocci reconhece que praticou as consultorias. Usou do poder das informações que angariou. Moral ou imoral? O capitalismo é isso aí, minha gente, sem tirar nem por.

O súbito enriquecimento do ministro da Casa Civil, Antônio Palocci, que multiplicou por vinte o seu patrimônio em menos de quatro anos, por ai, transformou-se na motivação maior dos oposicionistas, carentes de discurso e de apelos maiores para conquistar o poder, dado o esvaziamento geral da oposição, durante a campanha eleitoral, quando se revelou incapaz de conquistar a opinião pública com projeto de governo capaz de abrir novas expectativas e perspectivas como alternativa popular.

Perdeu feio nas urnas e se perdeu no Legislativo, onde virou minoria que sangra com a fuga de seus integrantes para outros partidos, como o PSD, parido do DEM, sob comando do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, cuja proposta é a de virar governo, saindo do jogo oposicionista, no país dos espertos que não sabem se movimentar como verdadeira oposição.

Que moral tem os oposicionistas que se movem, agora para detonar Palocci, argumentando que ele ganhou rios de dinheiro como consultor enquanto esperto aproveitador da sua proximidade do poder para exercitar esse papel altamente rentável? A experiência da esperteza dos que tiveram a oportunidade de ser governo para explorar as vantagens oferecidas pelas informações privilegiadas é uma norma e não uma exceção no capitalismo movido a moeda papel emitida sem lastro pelo Estado gerando compras de mercadorias improdutivas sem aumentar a oferta a fim de salvar os setores produtivos que, no sistema capitalista, tendem à deflação, no compasso do aumento da eficiência e da produtividade.

Não há inocentes, há, sim, cinismo. O argumento de Palocci é puro cinismo, sem dúvida. Ele fez, como disse, o que fizeram antecessores seus, quando estiveram no seu lugar, ou seja, no topo do poder, saindo de lá grávido de informações especiais, valiosas. Repetiu o mesmo blá, blá, blá utilizado pelo ex-presidente Lula para tentar salvar o PT do mensalão, ao afirmar que a utilização do dinheiro do caixa dois não era nada demais, sabendo que todos lançaram mão dessa jogada.

Quem perde a majestade, transforma-se em vira-lata qualquer. Palocci acumulou informações que valem ouro, quando ministro da Fazenda do Governo Lula, se enriqueceu, depois que saiu do cargo, com sua empresa, a Projeto, realizando consultorias, desativou-a, temporariamente, ao retornar ao Governo Dilma, e, certamente, amanhã, a empresa poderá ser reativada, depois de deixar o cargo, para continuar realizando o mesmo jogo, normal, que todos fazem, por que eu , também, não posso, como faz, agora, meu amigo José Dirceu? Palocci expôs a lógica explícita de que o poder enriquece quem dele participa, sem fazer força, apenas, traficando informações. E os seus colegas de governo que dispõem de empresas de consultoria que estão ainda ativadas com os personagens nos seus respectivos cargos, como relata, hoje, o jornal O Estado de São Paulo? A distância entre essa prática e a corrupção dos valores pode ser considerada extremamente tênue. Terremoto sobre o Planalto à vista.

Traficantes de informações

O todo poderoso Talleyrand, o diplomata da burguesia napoleônica, tornou-se, no seu tempo, o homem mais rico de Paris, exercitando, no poder e fora dele, as famosas consutorias, tanto para os setores privados franceses, como para os reis de toda a Europa que tentavam se safar das garras de Napoleão, empenhado em varrer do continente europeu as monarquias para colocar no lugar delas o poder burguês e com ele sua própria moeda, emitida pelo Estado para mudar os pressupostos do regime político, econômico e social. Grávido das mais fantásticas informações dos bastidores do poder europeu, Talleyyrand, um gênio tão temido como o próprio Napoleão, acabou se transformando no modelo ideal dos consultores que se espalhariam pelo mundo afora, com a ética segundo a qual vale ganhar muito dinheiro como traficante de informações, como fêz Palocci, logo depois que deixou o governo Lula, demonstrando ser excelente aluno do grande diplomata burguês. Falando nisso, qual a diferenca entre traficante de informações e traficante de drogas? O que dá mais dinheiro?

O espelho dos políticos tupiniquins vem dos exemplos praticados pelos comandantes das sociais democracias européias e americana e muito antes delas o jogo da exploração da influência se deu à larga, ao longo da história, com os personagens mais destacados do mundo político, diplomático e empresarial, permeando os mais altos cargos do poder. É ético? Não é ético? A natureza do regime capitalista no qual mandam os interesses ligados à reprodução ampliada do capital especulativo, fictício, nas economias monetárias, onde o dinheiro é emitido pelo governo sem lastro para dinamizar as atividades produtivas, demonstra que a norma é o jogo da influência como propulsor dos grandes negócios.

A burguesia, nas economias monetárias, livrou-se, durante o século XX, da canga da monarquia, que a explorava, cobrando altos impostos, para sustentar as guerras de expansão monárquica dos grandes reinos. A Inglaterra que o diga, tornando-se o poder global no século XIX. Mediante padrão ouro os reis impunham a reprodução do capital a partir do interesse expansionista, com a burguesia pagando ao reinado um grande pedágio. Os aristocratas, nesse contexto, tinham o jogo da influência ao seu dispor.

Quantos Palocci existiram em tais circunstâncias? Milhares, milhões, ao longo dos séculos. Talleyrand, o diplomata de Napoleão, como escreve, magistralmente, E. Tarlé, em “Um diplomata da burguesia em ascensão”, Civilização Brasileira, 1965, tornou-se o homem mais rico de Paris, na era napoleônica. Cobrava consultoria dos reis que Napoleão ia dominando pela Europa afora. Suas majestades iam a cidade luz conversar com o chefe, mas , antes, tinham que deixar algum na caixinha de Talleyrand. Quando a burguesia conquista o poder central, o que ocorre, no século XX, principalmente, depois da crise de 1929, ela se livra da moeda monárquica, sob padrão ouro, e coloca em cena sua própria moeda, a moeda papel. Livra-se do equilibrismo orçamentário monárquico.

O ouro, como diz Keynes, vira relíquia bárbara. Se havia dominado o poder, por que os burgueses teriam que continuar pagando pedágio ao rei, em vez de emitir sua própra moeda, para, com ela, puxar a demanda global? Os novos consultores do Estado emissor se livrariam das fiscalizações dos reinados dominados pelas preguiçosas aristocracias dos punhos de renda. Outros, com o perfil dos Palocci, ocupariam seus lugares a fim de continuarem os exercícios das ricas consultorias.

PT mergulhou no poço sem fundo

Como Palocci, Rui Barbosa, quando exerceu o cargo de primeiro ministro da Fazenda do governo republicano atuou como grande consultor de empresas privadas. Suprimiu o padrão ouro e tornou-se adepto das emissões monetárias sem lastro que impulsionaram especulações desenfreadas cuja consequências foram bolhas especulativas que acabariam implodindo a economia e promovendo fugas de capitais, enquanto o governo era obrigado a se render ao domínio da banca internacional. Como grande consultor privado, o baiano cabeçudo Águia de Haia acabaria se transformando, como grande jurista, economista e jornalista, num dos homens mais ricos do seu tempo. Hoje é considerado exemplo de patriotismo, embora fosse jogador dos interesses dos banqueiros internacionais.

No Brasil, quem entendeu, maravilhosamente, bem o papel do jogo monetário burguês, gerador de consultores paridos dentro do próprio poder, para servir à burguesia, foi o grande jurista Ruy Barbosa. Transformou ele num dos maiores especuladores no início da República, quando as economias periféricas estavam todas endividadas junto aos grandes banqueiros ingleses, que financiavam especulativamente pelo mundo afora a construção das ferrovias.

Marx alertou para tal especulação com o que denominou de dinheiro ferroviário. Eram os derivativos da época. Como primeiro ministro da Fazenda do primeiro governo republicano(1889-1890), Barbosa rompeu com o padrão ouro, partindo para a promoção da moeda emitida pelo governo sem lastro, inaugurando o encilhamento. De posse das informações ultra-privilegiadas que dispunha, alcançou, na tarefa de priorizar uma política de industrialização, uma riqueza extraordinária, transformando num dos homens mais ricos do Brasil, cercado de especuladores por todos os lados. Grande consultor privado, foi professor de muita gente.

Palocci está aí mesmo para comprovar. Homem rico, depois do exercício do poder e de volta a ele, manda prá burro no Governo Dilma. Barbosa, a Águia de Haia, por conta da sua inteligência fabulosa , da sua esperteza idem etc, contribuiu para gerar muitas riquezas fictícias, assim como acabou despertando ódio dos militares relativamente a ele, fato que o impediu de alcançar o seu grande sonho, o de chegar à Presidência da República. Quem quiser saber maiores detalhes sobre a história da corrupção praticada no tempo do ex-ministro da Fazenda do primeiro governo republicano não pode deixar de ler “Os cabeças-de-planilha”, de Luis Nassif, Ediouro, 2007.

Tremendo mergulho competente nas hostes do poder neoliberal vigente na Era FHC, onde o ensinamento barbosiano foi de muita utilidade no poder neorepublicano submisso ao Consenso de Washington. Muitas consultorias tal poder propiciaria. Não seriam, portanto, os integrantes do PT os que iniciaram a prática das consultorias milionárias, é claro, mas, assim que chegaram ao poder, os petistas se renderam aos financiamentos de campanha, aos caixas dois da corrupção eleitoral e, desde então, deixaram de ser as vestais que antes pontificavam como oposicionistas, prontificando, com seu grande poder de mobilização, a produzir as campanhas fiscalizatórias que infernizavam os governos.

Chegaram ao poder e viraram a casaca. Querem, agora, os oposicionistas que ontem foram governo destruir Palocci e, também, o ex-ministro José Dirceu, da Casa Civil. Este, no primeiro mandato do presidente Lula, todo poderoso, depois de defenestrado pelo mensalão, acabaria se transformando, igualmente, num grande consultor de empresários com negócios altamente lucrativos nas esferas mais altas do poder.

Banqueiro de calça curta

Diretor do Banco Central, na Era Colllor, quando, depois de trabalhar com o megaespeculador George Soros, atuou para abrir as porteiras internas para o capital especulativo internacional, Armínio Fraga ocuparia a presidência do BC para comandar a sobrevalorização do real que levaria a taxa de juros a 45%, na Era FHC, levando o país à bancarrota em 1997-1998, favorecendo à larga a bancocracia. Depois, fora do governo, transformou-se num grande consultor, no auge da financeirização econômica global, arregimentando fundos de investimentos, que seriam favorecidos pelas decisões que havia tomado de arreganhar as portas aos especuladores. Agora, com Dilma, Tombini tenta fechar as porteiras aos fluxos de capital que ameaçam a estabilidade interna. Grande consultor esse Armínio.

Onde estão hoje os ex-ministros e ex-presidentes do Banco Central do Governo FHC? Nos conselhos de administração dos grandes bancos privados que faturam em cima da mais alta taxa de juro do mundo que eles enquanto ministros produziram, assegurando lucratividades anuais superiores a 25%, enquanto o PIB cresce em média 5%, 6% e olhe lá. Pedro Malan, ex-ministro da Fazenda; Pérsio Arida, ex-presidente do Banco Central; Fernão Bracher, ex-presidente do BC(governo Sarney); Edmar Bacha, ex-presidente do BNDES; Mailson da Nobrega, ex-ministro da Fazenda; Affonso Celso Pastore (governo Figueiredo), ex-presidente do Banco Central, todos estão hoje na oposição, atacando a política monetária adotada pelo BC sob comando de Dilma Rousseff, muito bem postados, dando consultorias milionárias aos grandes bancos etc. São os filhotes de Talleyrand e de Ruy Barbosa. Nada de novo sob o sol.

Onde estão as investigações da grande mídia, para medir o avanço dos ganhos desses senhores que ontem eram todos-poderosos no governo e que continuam, atualmente, todos-poderosos no setor privado, ocupando os espaços privilegiados da grande mídia para veicular o pensamento neoliberal? Os líderes da oposição, nesse instante, como ienas insaciáveis, buscam motivações para bombardear o ministro da Casa Civil por ter sido consultor, quando todos os assessores desses líderes, enquanto foram governos, praticaram o mesmo jogo.

Repete-se na periferia do capitalismo o que ocorre no capitalismo cêntrico. Os principais assessores econômicos do presidente Barack Obama sairam de Wall Street, o centro financeiro mais poderoso do mundo. Depois vão para o mercado, cheio de informações, faturarem bilhões. Do mercado para o governo, do governo para o mercado.

Orgia total. A burgueia financeira, no comando das economias monetárias, impulsionadas pela moeda papel, fictícia, levou o capitalismo ao buraco com a expansão extraordinária da especulação por conta da desregulamentação bancária, demonstrando, à larga, que Lenin estava com a razão quando descreveu “Imperialismo, etapa superior do capitalismo”, em 1922, prevendo a financeirização econômica global especulativa que suprimiria o padrão ouro, livrando os burgueses do equilibrismo orçamentário como freio à emissão de moeda e dinamização dos negócios em regime de oligopolização crescente. Sob o poder burguês em que a moeda passa a ser emitida sem lastro o estado emissor vira capital. Quem o comanda o torna expressão do poder de quem domina o capital.

Os comandantes desse Estado emissor de moeda ficitícia, destituida de valor-trabalho, colocam em cena os personagens poderosos que se transformam em consultores privados quando deixam os governos. O Estado capital vira poder sobre coisas e pessoas. Palocci estava em seu elemento, como estão José Dirceu, Malan, Arida, Mailson, Pastore, Loyola. Estes são os filhotes que se transformam , como dizia Lauro Campos, em banqueiros de calças curtas.

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