A remoção de Dom Morris. Uma análise

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11 Mai 2011

A remoção do bispo William Morris do cuidado pastoral da diocese australiana de Toowoomba, Queensland, onde ele era bispo desde 1993, é uma reminiscência de outros dois casos: o do bispo Jacques Gaillot, da diocese de Evreux, na Normandia, França, em 1995, onde ele havia sido bispo por 12 anos, e a remoção efetiva do arcebispo Raymond Hunthausen da arquidiocese de Seattle, em 1986, onde ele era arcebispo desde 1975.

A análise é de Richard P. McBrien, professor da cátedra Crowley-O`Brien de teologia da Universidade de Notre Dame, nos EUA. O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 09-05-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eu digo "remoção efetiva" porque, embora Hunthausen não tenha sido removido enquanto tal, um bispo mais jovem foi empossado em seu lugar, com uma autoridade que já não pertencia mais ao arcebispo.

Esse bispo mais jovem é agora, ele mesmo, arcebispo, assim como cardeal: Donald Wuerl, que também preside a Comissão de Doutrina dos bispos dos EUA, que recém emitiu uma condenação contra  o livro de 2007 da Ir. Elizabeth Johnson, Quest for the Living God. Johnson é irmã de São José e renomada professora de teologia da Universidade Fordham, em Nova York.

Gaillot foi removido de sua diocese por supostamente ter deixado de exercer o "ministério da unidade".

Como Dom Hunthausen, Gaillot foi um forte defensor das iniciativas de paz durante a Guerra Fria e se opôs à Guerra do Golfo Pérsico de 1991. Ele também foi um aberto defensor dos sem-teto e deu entrevistas para revistas gays. Ele defendia um ministério efetivo para as pessoas com Aids.

Ele foi acusado de casar um casal gay. Na realidade, ele só havia se reunido com o casal e rezado com e por eles. Um deles estava morrendo de Aids. Ele também disse a uma publicação gay que existe uma obrigação moral para aconselhar as pessoas em risco de contrair Aids a se protegerem com preservativos.

Como Morris, ele apoiou a ordenação sacerdotal de homens casados e o retorno dos padres casados ao ministério ativo.

Gaillot criticou o governo francês por ter aprovado leis de imigração mais duras, tanto que se diz que o ministro do Interior reclamou pessoalmente com o Vaticano.

Apesar de que nenhum desses itens resulte ser uma singular razão convincente para que Gaillot tenha sido afastado do cargo, ele desenvolvera um perfil público que era uma fonte de irritação profunda para os conservadores dentro do governo francês, como o ministro do Interior, e dentro da Igreja Católica, como o cardeal Jean-Marie Lustiger, arcebispo de Paris.

Como nos casos de Hunthausen e agora de Morris, Gaillot foi removido sem qualquer processo canônico, nem uma revisão formal do seu caso pela Conferência Episcopal da França.

A Canon Law Society of America, reunida em Denver em outubro de 1986, aprovou a resolução 173-53 que constatou que a ação contra Hunthausen, conhecido como "Holandês" entre seus amigos e colegas bispos, era "questionável do ponto de vista canônico".

Mas os bispos ignoraram completamente a resolução dos canonistas, apesar de os próprios bispos terem mandado esses sacerdotes embora para obter graus canônicos e depois os nomearam para suas chancelarias, tribunais, faculdades e seminários.

É significativo, contudo, que os bispos tenham eliminado do seu esboço original uma descrição dos procedimentos do Vaticano no caso Hunthausen como "justos e razoáveis". Além disso, depois de afirmar que a sua Conferência Episcopal não teve nenhum papel legítimo na disputa, o projeto final incluía uma frase em que os bispos ofereciam "todo o apoio considerado útil e apropriado pelas partes envolvidas".

Alguns bispos ficaram horrorizados com o fato de o Vaticano ter colocado tanta credibilidade nas queixas de extremistas. E é isso que liga os casos de Morris, Gaillot e Hunthausen.

Um pequeno grupo de católicos ultraconservadores, sem nenhuma formação formal em teologia, Escritura, liturgia ou direito canônico, pode ter uma influência muito maior do que os seus números, porque eles têm amigos no Vaticano.

Sob o Papa João Paulo II e o agora Papa Bento XVI, eles encontraram ouvidos simpáticos no próprio papado.

E aqui é onde os casos de Hunthausen e Morris divergem. Quando o Vaticano chegou finalmente a perceber que o caso Hunthausen havia explodido em seus rostos, eles concordaram em enviar o cardeal Joseph Bernardin, o cardeal John O`Connor e o arcebispo John Quinn como mediadores para a crise.

E assim foi resolvido. Wuerl retornou à sua diocese de Pittsburgh, em 1988, como seu novo bispo, e Hunthausen foi autorizado a se aposentar com dignidade em 1991.

Infelizmente, o Vaticano enviou o ultraconservador Charles Chaput, arcebispo de Denver, como visitador apostólico para examinar as acusações contra Dom Morris.

Chaput não poderia fazer um julgamento ideologicamente livre da situação. Dom Morris nunca viu sequer uma cópia do relatório de Chaput. Tudo sobre esse caso fala mal sobre a liderança da Igreja.

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