Bombas humanas são usadas para se ganhar a guerra da Libia

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11 Maio 2011

Muammar Khadafi é um guerreiro astuto, de má-fé proporcional a de seus inimigos do Ocidente. Khadafi não lança bombas contra a Europa, mas utiliza imigrantes como armas de guerra.

A reportagem é de Eduardo Febbro e publicada pelo Página/12, 11-05-2011. A tradução é do Cepat.

Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), muitos dos imigrantes que chegaram nos últimos dias na ilha italiana de Lampedusa foram obrigados pelas forças de Khadafi a subir em barcas precárias para atravessar o Mediterrâneo. A munição humana como estratégia de guerra provocou um enorme drama neste fim de semana, quando um barco com 600 fugitivos a bordo naufragou, sem que se saiba até o momento exatamente quantas pessoas sobreviveram.  As últimas informações falavam em 415 afogados.

Um outro barco com 500 imigrantes também naufragou nas costas de Lampedusa, mas a proximidade com a orla possibilitou que todos fossem salvos. Laura Boldini, porta-voz do ACNUR (Alto Comissariado para os Refugiados), denunciou o uso de seres humanos como arma para desestabilizar a Europa. Boldini disse que esta "estragédia mostra que o regime não tem escrúpulos. Não hesita em colocar em risco centenas de vidas, permitindo que barcos completamente  inadequadas zarpem com o objetivo de provocar uma onda de migração na costa norte do Mediterrâneo".

A onda imigratória no contexto da guerra na Líbia já vitimou centena de pessoas tragadas pelo mar e abriu um forte debate na Europa sobre as formas de lidar com esta migração. Desde o início do conflito na Líbia, há três meses, mais de mil pessoas morreram tentando cruzar o Mediterrâneo. O velho continente tem mostrado a sua pior face. Suas canções humanistas chocam-se com a dura realidade: os tunisinos que fogem do seu país e ao desembarcarem na Itália e tentarem viajar para a França são perseguidos como criminosos, enquanto no que diz respeito à Líbia, dezenas de milhares fogem do combate em um contexto globalizado de total inação e indiferença.

Há uma onda de imigração desproporcional, mas vários líderes da União Européia, incluindo o presidente francês, Nicolas Sarkozy, propuseram  fechar as fronteiras dentro da UE, para reduzir os fluxos. Os dados fornecidos pela Organização Internacional para as Migrações são espantosos. A OIM fala em 746.000 pessoas que "atravessaram as fronteiras com os países vizinhos da Líbia."

Os números superam os 250.000 retirados pela OIM durante a primeira Guerra do Golfo (1990), os 85.000 da guerra de Kosovo (1999) e os 35.000 da recente guerra no Líbano (2006). A quantidade de refugiados que chegaram à Europa é mínima em comparação com os países fronteiriços da Líbia. Entretanto, isso serviu como uma "senha" para que a direita e a extrema-direita italiana e francesa sacassem os seus discurso anti-estrangeiros e aproveitassem a ocasião para "martelar" sobre o pânico imigratório.

De acordo com a OIM, dos 746.000 refugiados que fugiram da Líbia, a Tunísia recebeu 360.000; Egito, 269.000; Nigéria, 61.200; Chade, 24.423, Argélia, 18.000;Sudão, 2800;Malta, 1000 e Itália, 10 371 (dados de 8 de maio). Neste fim de semana, a OIM recolheu testemunhos terríveis de mais de 1.800 fugitivos africanos que chegaram em Lampedusa. A maioria teria sido forçado por militares a embarcar em um porto da Líbia situado cerca de 15 km de Tripoli.

A hipocrisia europeia

Nada parece comover o Primeiro Mundo, cuja responsabilidade no aumento da guerra é incontestável. Foram as capitais ocidentais como Paris e Londres à cabeça que apresentaram ao  Conselho de Segurança da ONU a resolução 1973, que levou à intervenção militar da França, Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, e agora a OTAN.

Os grandes moralistas do Ocidente deixaram completamente sozinhos países como a Tunísia, o Egito, Sudão e o Chade com a gigantesca tarefa de assumir centenas de milhares de refugiados que chegam às suas fronteiras. A solidariedade ocidental parece ter um destino único, os rebeldes líbios, mas não as vítimas indefesas do conflito, ou seja, os somalis, etíopes, eritreus, nigerianos, sudaneses ou egípcios cercada pela guerra. Neste contexto, o responsável da Acnur, Antonio Guterres, questionou as potências industrializadas exigindo que manifestem com Tunísia e o Egito, principais receptores dos refugiados, "a mesma solidariedade que têm demonstrado com os refugiados provenientes da Líbia".

A própria OTAN encontra-se em xeque. Segundo denunciou o jornal Guardian, a Aliança Atlântica deixou sem assistência uma barca em que estavam 72 imigrantes com destino a Lampedusa. O Guardian afirma que um helicóptero da OTAN arremessou biscoitos na água, mas não socorreu os imigrantes. Um porta-aviões da OTAN, presumivelmente o porta-aviões francês Charles De Gaulle passou cerca de 400 metros da barca, mas tampouco ajudou. A barca ficou à deriva por 16 dias e 61 africanos, entre eles mulheres e crianças morreram de sede. O porta-voz da OTAN Carmen Romero negou as informações do Guardian. "Não havia navios da OTAN na área", disse. No entanto, a dúvida persiste.

Os fugitivos que enfrentam o desafio do Mediterrâneo são recebidos como hostis extraterrestres e o seu destino fica sujeito a soluções não de caráter humanitário, mas de cálculos políticos sobre a proteção da Europa.
A generosidade de um mundo globalizado e interconectado dá mostra de ser muito mesquinho quando se trata de ajudar os outros para que não morram.  A OIM fez um chamado para arrecadar US$ 160 milhões de dólares com o objetivo de intervir na crise da Líbia. Até agora, recebeu apenas  68 milhões de euros. A guerra, entretanto, tem um custo exorbitante. Uma hora de vôo do avião francês Rafale custa 16.000 dólares. Uma hora de vôo do ultramoderno avião francês Mirage custa US$ 13.000. Uma hora de navegação do porta-aviões Charles de Gaulle custa 60 mil dólares.

As bombas e mísseis lançados contra Khadafi cada uma custa entre US$ 320.000 e US$  450.000. Imigrantes, população civil, refugiados, vítimas dos bombardeios pagam o tributo da selvageria de Khadafi e da golopante desumanidade do Ocidente, particularmente da Europa. Assiste-se ao horror da Europa do século XXI quem não quer quem não seja ocidental e branco.

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