"Irresponsável e desrespeitoso". Tarso Genro critica conduta da Azaleia, empresa beneficiada

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10 Mai 2011

Inconformado com a forma como a Azaleia anunciou o fechamento de sua unidade industrial em Parobé, na segunda-feira, o governador Tarso Genro investiu ontem contra a empresa e tachou o procedimento da calçadista como "irresponsável e desrespeitoso".

A reportagem é de Flávio Ilha e publicada pelo jornal Zero Hora, 11-05-2011.

O governador mostrou descontentamento com os incentivos fiscais concedidos pelo Estado à empresa desde 1993, por meio do Fundopem. Segundo Tarso, a Azaleia deveria levar em consideração esse benefício antes de anunciar o fim das atividades industriais no Rio Grande do Sul.

– Não fomos comunicados sobre a decisão da empresa, que recebeu benefícios fiscais homéricos do Estado. Portanto, recebeu dinheiro do povo gaúcho. Pelo menos deveria ter dado um aviso prévio e ter feito uma saída concertada (negociada) do Estado, para não causar uma comoção como essa que está causando. Aliás, o único comunicado foi o aviso prévio dado aos empregados demitidos – criticou o governador.

Levantamento da Secretaria de Desenvolvimento e Promoção do Investimento apontou que em 14 anos a Azaleia compensou pelo menos R$ 36,7 milhões (em valores atualizados) em créditos de ICMS. A empresa ganhou o benefício em agosto de 1993 para ampliar a unidade de Parobé. Em 1996, estendeu o prazo até 2006. No total, a empresa se comprometeu a realizar investimentos de R$ 75 milhões em três unidades para gerar 330 empregos diretos.

As declarações do governador foram feitas durante o lançamento da 7ª edição da Feira Nacional de Agronegócio do Sul (Fenasul) e da 34ª Expoleite, no Palácio Piratini. Mais cedo, Tarso havia dado declarações semelhantes no evento de abertura da feira de tecnologia BITS, na Fiergs – prova de que o assunto virou um problema de governo. No início da manhã, o governador convocou três secretários para a ala residencial do Piratini e cobrou alternativas emergenciais de recolocação dos empregados demitidos.

O secretário de Desenvolvimento do Estado, Mauro Knijnik, fez coro e criticou a decisão da empresa:

– Para nós não foi surpresa porque a Azaleia decidiu deixar o Estado há muito tempo. O que surpreende é a forma como estão saindo, sem sequer preparar um plano de demissões – disse o secretário.

Demissões apressam apoio a calçadistas

Embora ainda não tenha anunciado medidas de apoio ao setor calçadista, o governo gaúcho começa hoje a estudar programa que sirva para revitalizar o segmento, cuja situação foi agravada pela demissão de 840 funcionários da tradicional produtora de calçados femininos. Uma das ideias em análise será tornar o Vale do Sinos uma região considerada prioritária para receber novos investimentos de empresas interessadas em se expandir ou em se instalar no Rio Grande do Sul

Um dia depois de o fechamento da unidade industrial da Azaleia em Parobé surpreender os gaúchos, o governo Tarso prometeu ontem adotar medidas para retomar a competitividade do setor no Rio Grande do Sul. O Vale Calçadista está desafiado a se remodelar para reagir ao aumento da concorrência externa e à consolidação do deslocamento da produção para o Nordeste.

A extinção da linha produtiva deixou mais evidente a urgência de melhorar a competitividade da indústria calçadista gaúcha, modelo internacional de produção até a década de 90, apesar de o setor já ter aberto no município uma seleção para absorver os 840 trabalhadores demitidos.

A câmara temática do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), que seria instalada apenas na semana que vem, terá sua primeira reunião hoje. O encontro será reforçado com a presença de representantes do Banrisul e do Badesul, além do presidente da Agência Gaúcha de Promoção do Investimento (AGDI), Marcus Coester. O fechamento industrial da Azaleia provocou mal-estar no governo, pego de surpresa pela decisão.

A decisão foi decorrência da guerra fiscal, que incentivou a migração da empresa e de outras indústrias calçadistas para o Nordeste ainda nos anos 90. Depois disso, a fábrica, que já teve 10 mil funcionários no Estado, implantou unidades na Argentina e na Índia voltadas para o mercado externo – caminho que vem sendo seguido por outras empresas. Pesou também para o cenário de crise o fator cambial, já que a Azaleia exporta cerca de 30% da sua produção.

A Azaleia desativou a última unidade industrial que mantinha no Rio Grande do Sul depois de 53 anos de atividade. A empresa afirma que perdeu competitividade no Estado – a companhia emprega 44 mil pessoas em 27 unidades industriais no Nordeste, na Argentina e na Índia.

– Entre as fábricas que temos no Brasil, era a de maior custo e de menor escala. Por isso a opção pelo encerramento – disse o presidente da Azaleia, Milton Cardoso.

Para Hélio Henkin, diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS e consultor na área de competitividade industrial, a valorização do real ante o dólar, a fuga de mecanismos oficiais de proteção à concorrência externa desleal e a alta dos custos de produção são os três fatores que, conjugados, estão dificultando a vida de setores intensivos em mão de obra. Segundo Henkin, especialista nos setores de calçados, têxteis e móveis, o problema do custo se agrava no Rio Grande do Sul devido aos maiores salários e a preços de serviços valorizados.

Reunião emergencial traçou estratégias

Segundo Henkin, a saída para escapar da concorrência dos calçados asiáticos, por exemplo, é evitar a disputa por preço ao direcionar a produção para um calçado "de mais conteúdo, design e qualidade intrínseca". Outra saída é apostar no mercado interno.

O governo estadual não anunciou nenhuma medida, mas estuda incluir o Vale do Sinos como uma das áreas prioritárias para a atração de novos investimentos. Aos poucos, o Piratini quer modificar a vocação industrial da região, que tem a maior concentração de indústrias calçadistas do Estado.

Ontem, uma reunião de emergência entre o governador Tarso Genro e os secretários de Desenvolvimento, Mauro Knijnik, do Trabalho, Luis Augusto Lara, e da Economia Solidária, Maurício Dziedricki, traçou as primeiras estratégias para amenizar o drama social causado pela demissão coletiva.

O dia seguinte

A passos lentos e sorrisos nervosos, homens e mulheres voltaram ontem aos pavilhões da Vulcabras/Azaleia, em Parobé. Com guarda-pós nas mãos, chegavam para encaminhar o desligamento da empresa. Com o fim da produção da empresa anunciada na segunda-feira, se vão também sonhos, anos de dedicação e 30% da arrecadação do município.

Por horas sentado, com o olhar fixo no símbolo da empresa, Cleomar Mattiello, 36 anos, fazia as contas depois de 15 anos atuando na empresa. Estima que dificilmente conseguirá colocação a R$ 3,50 por hora, como obtinha na fabricante:

– Está difícil de acreditar, ver todo mundo saindo junto, parece que estão todos indo para férias, mas não é. Estão todos demitidos.

Jair Pereira, 39 anos, trouxe a família de Vicente Dutra, no norte do Estado, em busca de oportunidades. Foi a Azaleia quem o empregou, a mulher, Casemira Michinoki, 41 anos, e o filho Eder, 20 anos.

– Apesar de ter carro de som anunciando vagas na frente da fábrica, teremos muita competitividade e o valor-hora pago vai diminuir. Emprego vai ter, só não sabemos o salário – afirmou Casemira.

À frente do Sindicato dos Sapateiros de Parobé, João Pires, organiza ato público na próxima semana.

– Resolveram castigar Parobé. Para a economia da cidade é um rombo, afirma Pires.

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