Bispos dos EUA censuram livro de Elizabeth Johnson, teóloga feminista

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30 Março 2011

Um livro muito popular de 2007 da Irmã Elizabeth Johnson, uma das teólogas católicas feministas mais renomadas dos Estados Unidos, está marcado por uma série de "equívocos, ambiguidades e erros" e, por isso, "não está de acordo com o autêntico ensino católico sobre pontos essenciais", segundo um comunicado divulgado nesta quarta-feira pela Comissão de Doutrina da Conferência dos Bispos dos EUA.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 30-03-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto e revisada pela IHU On-Line.

O tratamento de Johnson sobre a Trindade em seu livro "Quest for the Living God" [A Busca do Deus Vivo], em particular, de acordo com os bispos, "arruína completamente o Evangelho e a fé daqueles que creem no Evangelho".

Apesar dessa conclusão, os bispos não apresentaram quaisquer medidas disciplinares contra Johnson, tais como a proibição de ensinar ou de publicar. Johnson, 69 anos, é uma distinta professora de teologia sistemática da universidade jesuíta Fordham, em Nova York.

Segundo o comunicado, a comissão se sentiu obrigada a denunciar publicamente o livro de 2007 de Johnson, "Quest for the Living God", por ser direcionado a um "público amplo" e porque está sendo usado em muitos locais "como um livro didático para o estudo sobre Deus".

Quando foi publicado, "Quest for the Living God" foi elogiado em muitos lugares por esboçar novas compreensões de Deus com base em diversas correntes intelectuais contemporâneas, incluindo as teologias política, da libertação, feminista, negra, hispânica, inter-religiosa e ecológica.

A declaração, no entanto, afirma que o livro chega a muitas conclusões que são "teologicamente inaceitáveis".

A Comissão de Doutrina da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos é presidida pelo cardeal Donald Wuerl, de Washington. Embora datada do dia 24 de março, a declaração sobre o livro de Johnson foi divulgada nesta quarta-feira.

Johnson é uma teóloga de alto perfil, que possui inúmeros prêmios e doutorados "honoris causa" de inúmeras instituições católicas e que já foi presidente tanto da Catholic Theological Society of America, como da Ecumenical Theological Society. Em 2008, o livro "Quest for the Living God" ganhou o prêmio de primeiro lugar da Associação de Imprensa Católica dos EUA na categoria "teologia acadêmica".

A declaração de 21 páginas da comissão doutrinal apresenta sete categorias de problemas no livro.

Em primeiro lugar, em nível de método, a declaração acusa Johnson de questionar elementos fundamentais da teologia cristã tradicional, incluindo sua compreensão de Deus como "incorpóreo, impassível, onipotente, onisciente e onipresente". Fazer isso, afirma a declaração, é "deturpar seriamente a tradição e assim distorcê-la para além do reconhecimento".

Em segundo lugar, a declaração acusa Johnson de tratar a linguagem sobre Deus na Bíblia e na tradição da Igreja em grande parte como metafórica, implicando que a verdade sobre Deus é essencialmente "incognoscível". Mesmo que mistérios como a Santíssima Trindade e a Encarnação nunca possam ser plenamente compreendidos, diz a declaração, eles podem, contudo, ser "conhecidos". Enquanto Johnson embasa parte de sua argumentação nos Padres da Igreja primitiva, o seu posicionamento, de acordo com o comunicado, tem mais em comum com Immanuel Kant e com o "ceticismo iluminista".

Em terceiro lugar, a declaração afirma que ao falar sobre o "sofrimento" de Deus, Johnson realmente sabota a transcendência de Deus, ao sugerir que Deus difere apenas em grau, e não em espécie, dos demais seres.

Em quarto lugar, segundo a declaração, Johnson defende uma nova linguagem sobre Deus, não baseada em sua verdade, mas em sua utilidade sociopolítica. Em especial, ela defende que a linguagem totalmente masculina sobre Deus perpetua "uma relação desigual entre mulheres e homens", e assim tornou-se "religiosamente inadequada". De fato, segundo o comunicado, o imaginário masculino sobre Deus encontrado na Escritura e na Tradição "não são meras criações humanas que podem ser substituídas por outras que podemos achar mais apropriadas".

Em quinto lugar, a declaração afirma que a ênfase de Johnson na presença do Espírito Santo em religiões não cristãs "nega a unicidade de Jesus como Verbo encarnado". Com efeito, de acordo com a declaração, a argumentação de Johnson sugere que, para a plenitude da verdade sobre Deus, "é preciso Jesus + Hinduísmo, Budismo, Islamismo etc.", uma posição que é "contrária aos ensinamentos da Igreja".

Em sexto lugar, diz a declaração, o tratamento de Johnson sobre Deus como Criador acaba no panteísmo, prejudicando a compreensão tradicional de Deus como "radicalmente diferente da criação".

Em sétimo lugar, a declaração culpa o entendimento de Johnson sobre a Trindade. De acordo com o documento, Johnson trata a linguagem tradicional de Deus como três pessoas como simbólica, desprezando desse modo a crença da Igreja de que "Jesus é ontologicamente o Filho eterno do Pai".

Em sua conclusão, a declaração diz que a raiz do problema no livro de Johnson é que ele "não tem a fé da Igreja como seu ponto de partida".

"Ele efetivamente exclui a possibilidade do conhecimento humano de Deus por meio da revelação divina", diz a declaração, "e reduz todos os nomes e conceitos de Deus a construções humanas que devem ser julgados não pela sua exatidão (...), mas sim pela sua utilidade social e política".

Com a declaração, "Quest for the Living God" se une a alguns outros livros recentes de proeminentes teólogos norte-americanos que foram alvo de críticas formais da Comissão de Doutrina. Essas obras incluem "The Sexual Person" [A pessoa sexual], de Todd Salzman e Michael Salazar (Georgetown University Press, 2008); "Being Religious Interreligiously" [Ser religioso inter-religiosamente], de Peter Phan (Maryknoll, 2004), e dois panfletos de 2006 sobre contracepção, aborto e casamento entre pessoas do mesmo sexo de Daniel Maguire.

Em todos os casos, a comissão doutrinal criticou tanto o raciocínio quanto as conclusões, mas não buscou impor medidas disciplinares aos autores. Em geral, dizem as fontes, a ideia por trás dessa abordagem é focar nas ideias e não nas pessoas.

Também chama a atenção o fato de essas declarações virem da comissão doutrinal dos bispos dos EUA ao invés da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano. Isso está em consonância com a recente política da congregação que afirma que as controvérsias devem ser tratadas em nível local sempre que possível, especialmente quando as questões teológicas envolvidas já foram abordadas pelo Vaticano em outros locais.

 

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