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28 Março 2011

"Ao colocar os Estados Unidos a favor de Yunus e contra a primeira-ministra de Bangladesh, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, parece ser culpada de intervir arrogantemente nos assuntos domésticos de um governo democrático e amistoso - em contradição direta com o "modus operandi" de Barack Obama", escreve Jagdish Bhagwati, professor de economia e direito na Columbia University, em artigo publicado pelo jornal Valor, 29-03-2011.

Eis o artigo.

A disputa em Bangladesh entre a primeira-ministra do país, xeique Hasina, e Mohammed Yunus, fundador do banco de microcrédito Grameen Bank e ganhador do prêmio Nobel da Paz, vem sendo retratada como uma repetição moderna da famosa batalha entre o malvado Kauravas e o virtuoso Pandavas, no épico indiano, "Mahabharata". A insinuação é a de que uma primeira-ministra vingativa por questões políticas está punindo o santificado Yunus, o pioneiro das microfinanças, porque ele ameaçou entrar na política. Hasina vem sendo comparada até a Vladimir Putin, da Rússia, em sua campanha contra o oligarca Mikhail Khodorkovsky.

O caso do Grameen, no entanto, é mais complicado e a moral da história é o contrário do que sugere a bem administrada campanha de relações públicas de Yunus.

Em primeiro lugar, Hasina não é uma política comum. É filha do primeiro presidente de Bangladesh, xeique Mujibur Rhaman, um líder carismático frequentemente descrito como o Pai da Nação, assassinado em agosto de 1975 pelas Forças Armadas.

Hasina chegou ao poder em 2009, após vitória esmagadora em eleição livre de fraudes. Também foi uma das poucas mulheres a ganhar o cargo sem tê-lo herdado, mas por méritos próprios, muito depois de seus pais e alguns de seus irmãos terem sido assassinados. Hasina escapou do massacre de sua família apenas porque na época estava na Alemanha. Ao longo de vários anos, trabalhou pacientemente sua volta à política - e à liderança - em Bangladesh.

Além disso, Hasina ganhou o poder político nas urnas em um país islâmico, o que não é feito menor para uma mulher. Ao colocar os Estados Unidos a favor de Yunus e contra a primeira-ministra de Bangladesh, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, parece ser culpada de intervir arrogantemente nos assuntos domésticos de um governo democrático e amistoso - em contradição direta com o "modus operandi" de Barack Obama.

Em segundo lugar, muitos dos que agora minimizam as credenciais de Hasina são culpados de inflar as de Yunus. Consideremos o frequente refrão, de que Yunus é o "pioneiro" do movimento das microfinanças. Na verdade, a verdadeira pioneira das microfinanças é uma mulher notável, de Ahmedabad, Índia, (onde estava o ashram de Mahatman Ghaddi), Ela Bhatt, seguidora de Gandhi, que criou a Self-Employed Women`s Association (Sewa, na sigla em inglês) como um banco em abril de 1974, dois anos antes de Yunus ter fundado o Grameen Bank Project, em Jobra, Bangladesh.

Ao longo de sua existência, o Sewa foi regulamentado pelo Reserve Bank of India, banco central do país, permanecendo estritamente dentro da lei, sem buscar isenções especiais. Diferentemente do Grameen Bank, não recebeu dinheiro estrangeiro (como a doação de US$ 100 milhões da Noruega, cuja administração levou às primeiras acusações de má conduta contra Yunus) e distribuiu dividendos anuais entre 9% e 12% em todos os anos desde sua fundação. Yunus está sob suspeita de ter ocultado perdas do Grameen com quantias imensas de dinheiro do exterior, enquanto o Sewa demonstrou que as mulheres pobres, com empregos autônomos podem ter e administrar uma instituição financeira de forma autossustentável sem doações externas.

Em terceiro lugar, muitos bengaleses, zelosos da independência que ganharam no crisol do genocídio perpetrado pelas Forças Armadas do Paquistão Oriental há 40 anos, ressentem-se do grande influxo de dinheiro estrangeiro, que tornou o Grameen Bank e Yunus em quase rivais do governo eleito democraticamente, fenômeno que nenhum governo toleraria. De fato, a intervenção de Hillary Clinton na disputa entre Yunus e Hasina coloca em destaque o perigo da influência estrangeira nos assuntos internos do Bangladesh.

Por fim, está a questão das próprias microfinanças. O microcrédito certamente é um suplemento útil para instrumentos, que tenham eficácia comprovada, de políticas de combate à pobreza - e que traz o dividendo extra de auxiliar as mulheres. Mas o fato é que as reformas econômicas maciças da Índia, iniciadas para valer em 1991, tiveram impacto muito maior na pobreza e na renda de vários grupos menos favorecidos, incluindo as mulheres. Isso ficou amplamente documentado por recentes estudos empíricos mostrando que as afirmações contrárias no passado estavam erradas.

Em contraste, Bangladesh não passou por nada parecido à aceleração econômica vivenciada pela Índia. Como Hasina parece ter percebido desde que voltou ao comando há dois anos, Bangladesh ficou em desvantagem durante décadas por doutrinas que minaram o crescimento. Infelizmente, os economistas mais influentes de Bangladesh e, portanto, as políticas do país, continuam atoladas em uma economia socialista, aprendida em Cambridge e na London School of Economics há meio século, que ataca o crescimento econômico.

Ela Bhatt, da Sewa, soma-se aos enormes benefícios aos pobres e menos privilegiados que a reforma na estrutura macroeconômica trouxe à Índia. Em contraste, o Grameen Bank, de Yunus, na melhor hipótese, tampou com seu dedo microeconômico o vazamento na represa das políticas macroeconômicas bengalesas em grande parte ainda não reformadas. Será que podemos esperar que o caso Grameen seja um prelúdio para a luta pelas reformas liberais necessárias para transformar a economia de Bangladesh?

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