O exorcismo. Quem, o que, onde, como?

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12 Março 2011

Nascido na Suíça em 1960, o Padre Gilles Jeanguenin é o exorcista da diocese de Albenga-Imperia, no norte da Itália. Autor de “Le diable existe” (Éditions Salvator), ele nos explica em quais condições a Igreja permite recorrer excepcionalmente ao exorcismo e previne contra os abusos, as superstições e a confusão com as doenças unicamente físicas.

A entrevista é de Benjamin Legendre e está publicada na revista francesa La Vie, 08-03-2011. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

O que é um exorcismo e quem o pratica?

Pelo exorcismo é a Igreja que age, em nome de Jesus, para libertar uma pessoa ou um objeto que está sob a influência do Maligno. É o Cristo que tem autoridade sobre os demônios; é, portanto, em seu nome que a Igreja ordena esses espíritos maus a abandonarem aqueles que eles possuem ou infestam. Na sua forma simples, o exorcismo é praticado na celebração do Batismo. O exorcismo solene, chamado grande exorcismo, só pode ser praticado por um padre e com a permissão do bispo do lugar. Consequentemente, os leigos não podem proferir o exorcismo em nome da Igreja: na maioria das vezes não passam de charlatões. Esta observação se aplica também aos padres que gostariam de exorcizar sem estar em comunhão com o bispo local.

O exorcismo é um sacramento?

Não, o exorcismo não é um sacramento, mas faz parte dos sacramentais instituídos pela Igreja. São sinais sagrados que a Igreja quis dar aos cristãos para santificar algumas circunstâncias da sua vida. Estes ritos sagrados compreendem orações de bênçãos às quais se acrescenta o sinal da cruz e outros sinais, como a aspersão de água benta. Estas bênçãos são muito úteis, já que elas nos colocam sob a proteção de Deus e nos ajudam a agir em vista de sua glorificação.

Uma pessoa psiquicamente doente (maníaco-depressiva, esquizofrênica) pode recorrer a um exorcismo para melhorar?

As doenças na ordem da natureza são tratadas com remédios de acordo com a ordem da natureza, e os males espirituais por remédios espirituais: em consequência, não podemos curar as doenças psíquicas ou físicas pelo exorcismo, a menos que o maligno tenha uma influência comprovada sobre elas. Como o “natural” e o “sobrenatural” estão frequentemente ligados, é preciso tomar tempo para discernir a fim de não incorrer em falsas pistas, tanto num sentido como noutro.

Qual é a diferença com uma oração de libertação?

É preciso distinguir oração de libertação e exorcismo. Pela oração de libertação nós pedimos a Deus a libertação daqueles que estão sob o domínio do Maligno. Esta oração pode ser aplicada tanto a si próprio como a outras pessoas que a pedem. A oração de libertação pode ser celebrada pelos padres, diáconos ou por leigos, mas sem tomar a forma de um exorcismo. A oração de libertação com a imposição das mãos deve, não obstante, ser reservada aos padres. Alguns movimentos carismáticos, que fazem da oração de libertação uma espécie de “exorcismo comunitário”, cometem graves abusos. As orações imperativas – a ordem dada a Satã de sair das pessoas possuídas – pertencem exclusivamente ao exorcismo.

O alívio induzido pelo exorcismo é imediato?

Geralmente, sim. Isso não quer dizer que basta um único exorcismo para obter a libertação definitiva da pessoa possuída ou infestada. Se nem sempre há uma libertação total, há uma libertação parcial, que traz um alívio e paz interior a esta pessoa. O exorcismo deve, pois, ser repetido até a obtenção da libertação definitiva, que não depende de nós, mas de Deus.

Há fracassos?

Sim, e por diferentes motivos, alguns conhecidos e outros não. Por exemplo, uma pessoa que vem pedir a libertação, mas que não procura realmente se aproximar de Deus ou continua consultando médiuns e outros profissionais do ocultismo, tira pouco proveito do exorcismo. A falta de colaboração da pessoa pode ser um freio, até mesmo um impedimento para a sua libertação.

Posso ir diretamente ao exorcista ou devo ser recomendado pelo meu sacerdote?

Um primeiro discernimento poderá ser feito por um padre (pároco, capelão...) ou mesmo por um leigo formado e bom conhecedor desse tipo de problemas. Ordinariamente, há um grande número de doentes psíquicos que vão à procura dos exorcistas: é enlouquecedor! Uma triagem é bem preciosa e necessária para evitar ser absorvido por essas pessoas perturbadas. Habitualmente, aqueles pacientes que me são enviados pelos padres ou mesmo pelos médicos, têm problemas mais sérios que aqueles que vêm diretamente após ter pegado o meu endereço na internet!

Existem contra-indicações (saúde psíquica ou física)?

Não se deve submeter pessoas afetadas por doenças psíquicas ao exorcismo, mesmo quando se tem fortes presunções de que o maligno possa ter participado ativamente na ruína física e psíquica de algumas pessoas. Geralmente, a opinião de um médico se impõe. Algumas pessoas, mantidas no obscurantismo, consideram que a epilepsia é uma doença diabólica.

Animais, objetos, lugares podem ser possuídos da mesma forma que os humanos?

Fala-se de infestação para os lugares e as coisas e não de possessão. O demônio pode tomar posse de um corpo humano e mais raramente de um animal. Em geral, a influência dos espíritos maus pode se estender a todas as coisas criadas, mas não sobre a alma humana.

É gratuito?

Nenhum verdadeiro exorcista, com mandato oficial da parte de seu bispo, apresentará a fatura àqueles que virão lhe pedir ajuda. O exorcismo é, portanto, gratuito. Entretanto, é bem-vinda a ajuda econômica para sua Igreja e seus ministros através de uma oferenda livre.

Que precauções devem ser tomadas diante de alguém que se diz possuído?

Só raramente o envolvido admite ser possuído ou enfeitiçado. Trata-se na maioria das vezes de pessoas doentes psiquicamente. É preciso antes convencê-las a consultar um padre ou alguém que possa fazer um discernimento, e dirigi-las às instâncias competentes. O Ritual dos Exorcismos previne contra a imaginação de alguns que podem ser levados a crer que são presas do demônio. Em todos os casos, é preciso verificar que aquele que se diz possuído pelo demônio, realmente o seja. O texto recomenda distinguir entre uma verdadeira intervenção diabólica e a credulidade de alguns fiéis que pensam ser o objeto de malefícios ou de maldições. “Não se deve recusar uma ajuda espiritual, mas não se deve praticar um exorcismo a qualquer preço”.

Os padres abusam do exorcismo de pessoas psicologicamente doentes?

Infelizmente, sim. Mas seu número é mínimo. Tive que intervir muitas vezes junto a bispos para que cessassem o prejuízo de seu exorcista. Trata-se geralmente de padres piedosos, mas sem discernimento nem competência em matéria de exorcismo. A prudência e o discernimento são as qualidades ineludíveis do exorcista. O Ritual acrescenta: “O exorcista decidirá com prudência sobre a necessidade de utilizar o rito do exorcismo após ter procedido a uma pesquisa diligente – respeitando o segredo de confissão – e após ter consultado, segundo as possibilidades, os especialistas em matéria espiritual, e, se julgar oportuno, especialistas em ciência médica e psiquiátrica, que têm o senso das realidades espirituais”.

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