Os "papáveis" de Milão

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08 Março 2011

A corrida final rumo à sucessão do cardeal Dionigi Tettamanzi, arcebispo de Milão, na Itália, a ponto de deixar a diocese por ter atingido o limite de idade, começou. Mas o sucesso, principalmente nessa ocasião, parece ser incerto. Para muitos, continua na pole position Dom Gianfranco Ravasi, ex-prefeito da Pinacoteca Ambrosiana e agora presidente do Pontifício Conselho da Cultura, insigne biblista.

A reportagem é de Valerio Gigante, publicada na revista Adista, 07-03-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto e revisada pela IHU On-Line.

Mas, apesar do ótimo currículo, para Ravasi, o caminho que leva à Madonnina [estátua sobre a catedral de Milão] é totalmente íngreme. O biblista, de fato, não tem muitos estimadores no Vaticano, apesar de que circulem vozes de que a sua candidatura seria apoiada pelo secretário de Estado, cardeal Tarcisio Bertone. Uma faca de dois gumes, porque Bertone, nos últimos anos, em questão de nomeações a prestigiosas sedes cardinalícias, gozou junto ao Papa de êxitos alternados. Basta pensa na ardente derrota sofrida em Turim, quando até dois dos seus candidatos, o arcebispo de Alexandria, Dom Giuseppe Versaldi, e o observador permanente da Santa Sé junto ao Conselho da Europa, Dom Aldo Giordano, foram derrotados por Dom Cesare Nosiglia, fidelíssimo do cardeal Camillo Ruini.

 


Dom Gianfranco Ravasi

Ravasi, no entanto, tem do seu lado também o apoio e a simpatia da mídia e da opinião pública: de fato, ele sempre prestou muita atenção no cuidado da sua imagem. Seja dentro do mundo católico, por meio dos livros, dos ensaios, das conferências e da sua coluna cotidiana – "Mattutino" – na primeira página do jornal Avvenire; seja dentro do mundo laico: no seu "histórico" programa – "Le frontiere dello Spirito" – transmitido pelo Canale 5, aos domingos de manhã, Dom Ravasi há pouco tempo iniciou uma coluna fixa – "Diverso parere" – na revista semanal L’Espresso. Depois, existe a colaboração ao caderno dominical do jornal Sole 24Ore, que testemunha um bom "feeling" com o mundo empresarial e financeiro, necessário para aspirar à cátedra milanesa. Por fim, a recente iniciativa do "Átrio dos Gentios", um projeto que teve grande ressonância na imprensa e que se propõe a colocar em confronto ateus e crentes sobre temas universais.

O "Átrio" assemelha-se, com evidência, à "Cátedra para os não crentes", desejada pelo cardeal Martini em Milão nos anos 80. Mas a escolha do termo "gentios" ao invés de "não crentes" ou "ateus", além de ser uma homenagem a São Paulo, representa também um sinal dos tempos: a sensata escolha lexical de quem, em uma fase em que na Igreja os "não crentes" são mais um território a ser evangelizado do que uma realidade com a qual se confrontar, busca não construir uma imagem muito "secularizada". Mas justamente a grande exposição midiática constitui para Ravasi um limite, até de um recurso.

O episcopado lombardo, que o núncio apostólico na Itália consultou para obter orientações e humores a serem referidos no Vaticano, critica Ravasi justamente pela sua excessiva presença nos jornais e na televisão, além de seu perfil excessivamente intelectual e a ausência de experiência pastoral "em campo". Certamente, o cardeal Carlo Maria Martini, em 1980, também foi nomeado arcebispo de Milão sem que antes tivesse sido pároco ou bispo em alguma outra diocese. Mas o quilate do personagem era enorme. E, depois, a nomeação de Martini foi uma encenação de Wojtyla, que, recém tornado Papa, havia se entusiasmado com a profunda cultura do estudioso jesuíta, há pouco reitor da Pontifícia Universidade Gregoriana.

"Comunhão e Libertação" leva tudo

A nomeação do próximo arcebispo de Milão será necessariamente fruto de difíceis mediações. Além do episcopado lombardo, de fato, será preciso levar em boa conta a opinião do cardeal Tettamanzi, que fará pesar a influência conquistada nestes últimos anos, durante os quais ele representou (voz quase única entre os grandes do episcopado italiano) a oposição à linha do cardeal Ruini dentro da Conferência dos Bispos da Itália - CEI.

Depois, absolutamente não secundário, é o poder do movimento Comunhão e Libertação - CL, que, por meio da Companhia das Obras e do apoio do presidente da Região da Lombardia, Roberto Formigoni, conquistou uma a uma as alavancas do poder político e econômico da região, por meio de nomeações, contratos e uma rede finíssima de relações. O CL estimula a eleição à cátedra milanesa do cardeal Angelo Scola, ciellino [membro do CL] puro, atual patriarca de Veneza. Com Scola arcebispo, o movimento de Giussani conquistaria um papel hegemônica também na diocese, obtendo o controle dos escritórios da Cúria.

 


Dom Angelo Scola

Mas a nomeação de Scola teria também um enorme valor simbólico: Milão, de fato, é a cidade onde o Pe. Luigi Giussani iniciou a sua lenta mas inexorável ascensão. Mas Milano também é a diocese em que o movimento do "Gius" sempre teve uma vida difícil. Antes com o cardeal Montini, o futuro Papa Paulo VI, que, no fim dos anos 60, limitou fortemente o seu raio de ação. Depois, durante o episcopado do cardeal Martini, que teve com o CL uma relação muito conflitante. Durante o qual, caso quase único na história das dioceses italianas, o movimento de Giussani foi denunciado ao tribunal eclesiástico de Milão pelo movimento católico Rosa Bianca.

Era 1987, o reitor da Universidade Católica, Giuseppe Lazzati, havia falecido há um ano, quando dois jornalistas da revista ciellina Il Sabato, Antonio Socci e Roberto Fontolan, criticaram duramente seu pensamento e obra, chegando a apontá-lo como um dos responsáveis pela "corrosão protestante" que atravessava a Igreja pós-conciliar. O processo, no fim, não existiu, mas os dois jornalistas foram obrigados a publicar uma retratação. Mas, se para os seguidores de Giussani a reconquista de Milão seria a cereja sobre o bolo de uma irresistível ascensão, dentro do episcopado milanês, assim como no Vaticano, uma hegemonia "ciellina" tão excessiva na região desperta mais do que uma preocupação, também para as investigações judiciárias que estão fazendo surgir os laços entre os clãs calabreses no norte da Itália e a máquina de poder do Comunhão e Libertação.

É difícil, portanto, que a Igreja dê uma legitimação tão sensacional ao movimento do Pe. Giussani exatamente quando o sistema de poder do CL na Lombardia parece começar a ranger. Assim, justamente a força do movimento em Milão como na Lombardia poderia – paradoxalmente – constituir o limite da candidatura de Scola, cujo currículo, além disso, não apresenta nem aquele indispensável perfil intelectual e pastoral que a diocese mais importante da Itália, depois de Roma, requereria.

Muitos "outsiders"

É justamente a "estatura" que falta em muitos dos "adversários" de Ravasi. Cúmplice disso é o pontificado wojtylano, que, nos últimos 20 anos, fez uma limpeza de todos os expoentes mais vivazes e ativos do episcopado italiano e do mundo teológico, substituindo-os por homens do "aparato", de obediência provada, mas frequentemente de escassa importância.

E, então, além de Scola e Ravasi, há espaço também para uma densa fila de candidatos intrusos. Nomes certamente menos conhecidos, mas com algumas cartas na manga. Entre eles, Dom Gianni Ambrosio, bispo de Piacenza, ex-assistente eclesiástico da Universidade Católica de Milão, cujo nome encontraria o consenso do CL e o apoio de Bertone (que foi o seu bispo em Vercelli por alguns anos e que o consagrou bispo em 2008) e cujo currículo inclui o Institut Catholique e a Sorbonne. Ambrosio, além de bispo do norte, é de origem piemontesa: todas características que o tornariam "papável" à cátedra milanesa.

Ao contrário de Dom Bruno Forte, que cresceu na escola do cardeal Martini, mas que é originário de Nápoles e é atualmente bispo de Chieti. E que dificilmente poderá alcançar a Madonnina a partir do sul, apesar de que, nestes anos, ele modificou a sua imagem "conciliar" e "progressista" para uma imagem de um convicto apoiador do pensamento de Ratzinger. Comprometido com o diálogo com as Igrejas do Oriente e com os judeus, Forte tem a seu favor a sua fama de grande comunicador. E exibe ótimas relações com o mundo laico, que cultiva colaborando em publicações como os jornais Sole 24 Ore, Corriere della Sera e Centro.

Mas o novo bispo de Milão também poderia ser um bispo da Lombardia, em continuidade ideal com o cardeal Tettamanzi. A esse perfil, poderia corresponder o atual bispo de Pavia, Dom Giovanni Giudici (que recentemente aceitou se encontrar com os representantes do movimento Arcigay local), Dom Luciano Monari, bispo de Bréscia e discípulo de Martini, ou Dom Diego Coletti, bispo de Como. O neobispo de Bérgamo, Dom Francesco Beschi (que completa 60 anos em agosto próximo) é talvez ainda muito "jovem" e sem experiência. Enquanto entre os atuais auxiliares de Tettamanzi, o único nome que circula é o de Franco Giulio Brambilla.

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