Parábolas: as surpresas da linguagem de Jesus

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01 Março 2011

"Por que Jesus usava tal linguagem? Por que ele não era mais explícito, não dizia abertamente e cuidadosamente tudo o que sabia? Pode parecer estranho, mas, para anunciar autenticamente o Evangelho, é necessário, de alguma forma, velá-lo."

A reflexão é do cardeal italiano e arcebispo emérito de Milão, Carlo Maria Martini, em artigo para o jornal dos bispos italianos, Avvenire, 27-02-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Jesus falava em parábolas. Basta folhear as páginas dos Evangelhos para ter a prova disso. E devemos presumir que ele não fazia isso raramente, a se julgar pelo número de parábolas que os evangelistas nos transmitiram. Algumas passagens até levam a pensar que Jesus não falava às pessoas de outros modos, a não ser em parábolas. Tem-se a impressão de que Jesus considerava esse modo de se expressar como o mais adequado à capacidade de compreensão dos ouvintes e, assim, o mais adaptado para transmitir eficazmente a sua mensagem.

Mas por que privilegiar esse tipo de linguagem? Por qual razão preferi-lo à linguagem direta e explícita? E quais são as suas características específicas? Quais os objetivos que permite alcançar? Quem são, enfim, os destinatários desse falar por semelhanças?

Interrogações como essas abrem caminho para uma reflexão amplamente exaustiva. Nós nos limitaremos a sugerir algumas considerações de caráter geral, à luz dos textos evangélicos. Uma coisa, em todo o caso, é oportuno especificar desde agora: a questão que abordamos não é simplesmente uma questão exegética. O que está em jogo é bem mais alto. Por trás da pergunta "Por que Jesus falava em parábolas?" está, de fato, uma questão atualíssima e gravíssima: a da "linguagem religiosa", do como falar adequadamente de Deus hoje.

O mundo ocidental sente fortemente essa fadiga. Frequentemente, a linguagem usada para falar de Deus é difícil e fraca, às vezes embaraçosa, às vezes genérica; divide-se facilmente em verticalistas e horizontalistas, tradicionalistas e progressistas; formulam-se julgamentos que, à luz do Evangelho, são pelo menos inadequados. Por isso, a necessidade de aprofundar, de se colocar na escola de Jesus, de se deixar guiar por ele na busca de uma linguagem capaz de "dizer Deus".

Como, portanto, Jesus falava de Deus? E por que frequentemente falava dele em parábolas? O fim último do ministério de Jesus foi o anúncio do evangelho do Reino, a manifestação eficaz da benéfica soberania de Deus, anunciada pelas Escrituras, preparada pela história de eleição de Israel e destinada a todos os povos. "Completou-se o tempo, e o Reino de Deus está próximo; convertei-vos e crede no Evangelho" (Mc 1,15): com essas palavras, o Messias de Deus se apresenta publicamente a Israel e ao mundo. Esperamos nesse ponto uma descrição clara, acurada, aberta, luminosa do reino de Deus e de Deus mesmo. Como não hipotetizar uma pregação de Jesus explícita, ordenada, estruturada e justamente por isso convincente? A leitura dos textos evangélicos não desmente essas expectativas, mas nem as satisfaz plenamente. O modo com que Jesus proclama o evangelho aos homens nos reserva algumas surpresas. Sobretudo, a figura de Jesus aparece caracterizada principalmente pelo agir.

Em primeiro plano, estão as ações de Jesus, o seu agir eficaz, poderoso, carismático: pensemos principalmente nas curas, nos exorcismos, nas intervenções extraordinárias em favor de pessoas em dificuldades. O falar de Jesus acompanha o seu agir e o interpreta: o senhorio de Deus é demonstrado por meio das obras e ilustrado através das palavras. Quanto à verdadeira pregação, ela não é sempre direta e clara; ao contrário, não raramente aparece como velada. O passo mais desconcertante com relação a isso certamente é o de Mc 4,11-12, em que Jesus justifica o seu falar em parábolas justamente com a necessidade de esconder a revelação do Reino, de impedir a aproximação imediata e direta. Mais de uma vez Jesus falou de modo alusivo e enigmático, "não abertamente", por meio do véu das semelhanças: ele dizia e não dizia, revelava e escondia, manifestava e ocultava.

Esse é precisamente o ponto que nos interessa: por que Jesus usava tal linguagem? Por que ele não era mais explícito, não dizia abertamente e cuidadosamente tudo o que sabia? Pode parecer estranho, mas, para anunciar autenticamente o Evangelho, é necessário, de alguma forma, velá-lo. A constatação de que Jesus não fazia seguir a explicação às parábolas (só os discípulos eram, em alguns casos, beneficiados com ela, mas sempre privadamente) nos impede de considerar as parábolas instrumentos didáticos, exemplos que conduzem o ouvinte a um ensinamento manifestado depois em termos mais conceituais. A parábola de Jesus não desemboca em uma explicação plana e explícita, talvez introduzida pela fórmula "Esse conto nos ensina que...". A parábola de Jesus mantém toda sua carga de enigma, deixa ao ouvinte a tarefa de compreendê-la, o interpela e o obriga a interrogar-se, o envolve em primeira pessoa e o empenha na busca do sentido.

A exortação que frequentemente ressoa, de fato, é a seguinte: "Quem tem ouvidos para entender, entenda", isto é, "quem é capaz de compreender, busque compreender". Jesus conta parábolas certamente não obedecendo a esquemas prefixados, mas, ao contrário, na onda da sua emoção interior, impelido pela necessidade de comunicar o mistério de Deus àqueles que estão diante dele. As parábolas surgem do coração de Cristo, da sua paixão por Deus e do seu amor pelo homem, da necessidade imperiosa de revelar adequadamente o rosto do Pai, o segredo da sua obra de salvação, o poder do seu Reino e as consequências para a vida dos homens.

Assim, tocamos o ponto essencial. A peculiaridade da linguagem parabólica aparece fortemente ligada à própria pessoa de Jesus. Especificando melhor, diríamos que tal peculiaridade deriva do conhecimento de Deus que Jesus possui e da sua atenção pelo homem. Ninguém mais do que ele está habilitado a revelar o rosto de Deus, o seu poder, a sua vontade. Mas como não levar em conta as disposições de ânimo de quem ouve, da situação pessoal dos ouvintes, da sua dificuldade de entender, da sua tendência a compreender mal?

Quando consideramos as circunstâncias em que Jesus conta as parábolas, nos damos conta de como ele é atento aos seus ouvintes. De um lado, portanto, as parábolas são um verdadeiro ensinamento: elas falam de Deus, da sua obra, das consequências para a vida dos homens, da resposta que Deus espera; de outro lado, as parábolas são um ato de cortesia, de respeito pela liberdade dos homens, de condescendência, quase de ternura. Jesus é um verdadeiro mestre também por isso. Ele conhece o coração dos homens e, por isso, não tem pressa, sabe adequar-se ao passo do ouvinte, aceita também que este custe a entender, espera que mude de opinião e reveja algumas posições.

Enquanto isso, ele se esforça para oferecer um ensinamento que, pelo menos, suscite interrogações, que deixe brechas em corações endurecidos e que dê uma orientação segura aos corações incertos e perdidos; um ensinamento, enfim, que permite dar um primeiro passo e disponha a um caminho sucessivo. Os ritmos do conhecimento que provêm da fé são lentos. Por isso, a revelação também deve ser escondida, velada. A liberdade do homem não é capaz de reger todo o peso da revelação de Deus. Assim, as parábolas brotam do coração de Jesus sob o impulso iminente da urgência do evangelho; elas são espontâneas, não artificiais, nascem da própria vida.

As parábolas são, nessa perspectiva, um dos frutos mais belos do mistério da encarnação, a fronteira a qual a linguagem é impelida pelo Filho de Deus, para que torne-se apta a comunicar o mistério do Reino no respeito da situação concreta do homem.

 

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