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16 Fevereiro 2011

"Hoje, a denominada cibercultura abarca a cultura mundial e se aprofunda em determinados grupos sociais e etários, em particular os jovens, dando origem às ciberculturas juvenis", escreve o professor e pesquisador da Faculdade de Jornalismo e Comunicação Social UNLP, Luciano Sanguinetti, em artigo publicado no jornal Página/12, 16-02-2011. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

A propósito da entrevista publicada por Página/12 pela especialista em tecnologia e educação Nora Sabelli, assessora do Programa Conectarigualdad, me ocorreu pensar no impacto da cibercultura nos jovens que a partir de março começarão a receber massivamente netbooks, 450.000 no ano passado e mais de um milhão neste ano. O texto que segue é parte dessas reflexões.

A palavra cibercultura deriva do conceito de ciberespaço, que foi popularizado pelo escritor William Gibson em seu romance Neuromante. No final da década de 1980, quando o processo de expansão das TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação) começou a se acelerar, a palavra cibercultura definiu as experiências e produções que se desenvolviam nesta nova dimensão da cultura contemporânea que fazia das mediações tecnológicas seu centro de gravidade. Entre suas características primordiais encontramos a interatividade com as máquinas, a hipertextualidade e a conectividade, que facilita formas de comunicação e informação mediada pelos computadores.

Claro, aquilo que começou como uma expressão para identificar certos grupos marginais de cientistas, tecnólogos, artistas, foi paulatinamente se estendendo à medida que a informatização da sociedade avançava. Hoje, a denominada cibercultura abarca a cultura mundial e se aprofunda em determinados grupos sociais e etários, em particular os jovens, dando origem às ciberculturas juvenis. Para o sociólogo argentino Marcelo Urresti, os jovens desenvolveram, a partir dos usos das TICs, uma verdadeira revolução cultural, na qual se transforma a relação que têm com o nosso entorno.

Jovens e tecnologias

Igualmente, a relação dos jovens com as tecnologias não é nova, e nem sequer corresponde exclusivamente aos jovens de hoje; já seus pais incorporaram o sistema de televisão a cabo ou os primeiros computadores pessoais, do mesmo modo que os pais de seus pais o fizeram com a televisão, o rádio ou o cinema. Em síntese, observar, particularmente surpresos, como os jovens interagem com celulares ou a internet é desconhecer que são produto e vivem uma sociedade moderna que começou a inaugurar periodicamente novas formas de comunicação desde a invenção da imprensa e que estes modos diferentes de comunicação não são mais que um elo deste processo de transformação sociocultural que chamamos modernidade. Isto nos obriga a perguntar pelo que há de verdadeiramente novo.

A resposta não é tão simples quanto a pergunta, mas já podemos arriscar que a novidade está no fato de que os antigos meios de comunicação e informação ainda estavam imersos na lógica mediocêntrica, a de um grande produtor de conteúdos unilaterais e uma massa indistinta de consumidores. Essas mensagens eram produzidas industrialmente por grandes companhias que elaboravam esses conteúdos na base do modelo fordista de produção serializada: um conteúdo acessível, simples, com pretensões de ser massivamente consumido. O que hoje vivemos com as novas tecnologias é que os usuários se tornaram produtores, que se quebrou a lógica emissor-receptor diferenciada e que somos tanto emissores como receptores, leitores como escritores, consumidores como produtores de mensagens e conteúdos.

Dentro desta mudança revolucionária, do ponto de vista do acesso ao conhecimento e do status que esse conhecimento adquiriu, os jovens são os que mais rapidamente se apropriaram das novas ferramentas. Fala-se de empoderamento. Contudo, alimentada desde o princípio da história, a relação entre o homem e as máquinas sempre está envolta nessa auréola de mistério, como vemos refletido a partir do Frankenstein, passando por Metrópolis ou Terminator.

As tecnologias nos desumanizam? O fato de que há milhares de anos tenhamos inventado o porrete nos fez menos pensantes? Acaso o afã de deixar a subordinação à natureza nos subordinou a outra coisa? No pensamento ocidental, foi a tradição romântica que mais chamou a atenção para este perigo: um mundo de máquinas insensíveis se voltam contra os seus criadores, uma sociedade de aparelhos vai tecendo em torno dos sujeitos uma rede da qual emergimos paradoxalmente menos livres, como naquela famosa jaula de ferro de que falava Weber. Inclusive pior, porque os finos tentáculos dessa rede se tornaram invisíveis, de fibra óptica, e no processo, quando acreditamos que dominamos as tecnologias, somos dominados por ela, quando cremos que falamos com as tecnologias, somos falados por elas.

A encruzilhada: desumanização?

Dissemos no começo que a interatividade, a hipertextualidade e a conectividade eram algumas das características substanciais da cibercultura e que nela os jovens eram os mais espertos habitantes, os nativos. Precisemos. Interatividade supõe essencialmente que as máquinas atuais tendem em grande medida a que os usuários realizem mais operações definindo com maior precisão o que querem e necessitam. Podem definir conteúdos, podem oferecer suas próprias produções, podem buscar com quem se comunicar ou compartilhar o que produzem, mas também podem restringir seu uso, em determinados níveis e alternativas.

As tecnologias de comunicação e informação contemporâneas avançam rumo ao perfil de um usuário mais do que de um receptor. Marcelo Urresti chamou isto de prossumidor, ou seja, um consumidor e produtor que em funções às vezes simultâneas se relaciona com o mundo tecnológico. Interatividade implica que desapareceu aquela programação generalizada, somada ao fato de que as tecnologias de hoje deslocam também os meios tradicionais. Quando vemos um filme em casa, isso é cinema? Quando olhamos uma série de televisão no PC, isso é televisão? Quando escutamos música no celular, isso é rádio? O que se observa claramente é que a convergência determina as tecnologias de hoje. Como sugeriu Henry Jenkins, uma convergência que é muito mais profunda que a síntese entre áudio, vídeo e computadores; estamos caminhando rumo a uma cultura geral da convergência na qual as produções circularão em múltiplos suportes. Ou talvez melhor dito, os suportes já não serão o conteúdo das mensagens. Acaso, seria uma resposta ao famoso aforismo de Mac Luhan? Não é o meio já a mensagem?

A hipertextualidade nos fala da proliferação de linguagens multimídias. A escrita em suporte digital revolucionou as comunicações, mas também o faz o desenvolvimento de uma segunda oralidade reproduzida pela imagem em movimento, o celular, o cinema digital ou as webcams. O sonoro reconfigurando o nosso espaço, como acontece com os computadores nos carros. Mas também uma hipertextualidade que remete às possibilidades de construir um discurso no qual os enlaces se multiplicam, através de infinitas fontes de informação. O que o hipertexto dissolve, como bem assinalou Sabelli, é o discurso único do manual, o trabalho da memória como repetição.

A conectividade

Por último, a conectividade. O que significa estar conectados? A resposta também não é simples, mas intuo que para os jovens estar conectado é de algum modo estar no mundo, e isso não é saber aquilo que suponhamos que devem saber, mas saber o que acontece através desse interstício entre a cultura oficial e a cultura popular no que sempre confrontam dois estilos de vida, duas verdades, duas formas de ver o mundo. Os jovens, talvez por estarem nesse lugar de transição, são os mais perceptivos a essas contradições. Sociedades onde o discurso do trabalho entra em curto-circuito com as dificuldades para encontrar trabalho, onde a democracia se vê desmentida pelos grupos de poder e das máfias, onde a segurança é vulnerada pela violência dos que dizem ser responsáveis pela segurança, onde a vida saudável alardeada pelos meios oculta a pobreza e a marginalização. A lógica da conectividade é muito mais que a definição na qual nos referimos à capacidade de conexão entre computadores; referimo-nos à capacidade de interagir com os múltiplos suportes tecnológicos nos quais se faz e desfaz a vida contemporânea.

Os jovens que atravessam hoje os universos escolares intuem então que na brecha digital há também uma brecha cultural e política que fala de seu futuro. Um futuro que, como observou agudamente o Índio Solari, chegou há pouco.

 

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