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10 Janeiro 2011

O arrepio do sangue dos cristãos perseguidos abala a grande Igreja acordando a memória das origens quando o seu estatuto era contrastante ao do Império, ou seja, o risco normal do martírio. Com duas variáveis principais: o ataque hoje não vem quase nunca do poder político dominante mas do fundamentalismo islâmico e hinduísta interessado em recludir a religião cristã no perímetro identitário do Ocidente para corroborar os seus interesses ideológicos.

A análise é de Giancarlo Zizola, publicada no jornal La Repubblica, 05-01-2011. A tradução é de Alessandra Gusatto.

De acordo com análises recentes da diplomacia vaticana, o fanatismo islâmico levanta voo contra os cristãos tanto no Oriente Médio quando na África e na Ásia devido a vários objetivos estratégicos: o menor é atingir ressonância mediática no Ocidente. O maior busca limpar as terras islâmicas das minorias cristãs, induzindo-as ao exílio (uma diáspora crescente).

O Terror vê um perigo no universalismo cristão que alcança os maiores picos de expansão exatamente na África e na Ásia com taxas de batismo desconhecidas no norte do mundo. O projeto final é de "ocidentalizar" o cristianismo impedindo que chegue ao status de religião do sul do mundo, o que já o é atualmente, com 64% de fiéis da Igreja católica vivendo nas áreas meridionais do planeta. O dispositivo teórico que vigora é ainda o "conflito de civilizações", a tese historicamente discutível de Samuel Huntington saída da Casa Branca de Bush depois do 11 de setembro para nomear o terrorismo islâmico.

Uma linha que buscou em vão a solidariedade da Igreja católica, já que foi justamente o Papa Wojtyla que se opôs publicamente e de "maneira inequívoca" (como esclareceu ele mesmo na última audiência com Bush) à guerra americana no Iraque. A separação do papado dos interesses estratégicos dos líderes que comandam o Ocidente buscava também perseverar e acrescentar credibilidade e independência à Igreja no diálogo com o Islã moderado, particularmente com a Universidade de Al Azhar no Cairo.

Mesmo com o incidente de Regensburg, o Papa não mediu esforços para convencer que esta opção universalista de diálogo inter-religioso continua a inspirar a visão mundial do papado, como pode ser lido no seu livro-entrevista Luz do mundo. Ou seja, o assassinato de coptas na missa de Ano Novo em Alexandria no Egito trouxe uma trágica confirmação da análise vaticana: a comunidade afetada é de fato a Igreja-ponte mais antiga (depois daquela na Palestina)  entre o cristianismo ocidental e a cultura árabe na África. Para defender a própria identidade os coptas foram perseguidos primeiro pelo Império bizantino, depois pelos muçulmanos da dinastia dos Mamelucos, entre os séculos XIII e XVI.

Este sangue cristão é também uma lição para a Santa Sé. Se o objetivo do terrorismo é a reintegração georreligiosa da Igreja na esfera política do Ocidente, se pode prever que o Vaticano será obrigado, para não fazer o seu jogo, a diferenciar, com maior cautela que no passado, o indiscutível papel cultural exercido pela Igreja na formação da identidade ocidental, dos discursos políticos subalternos as teses de uma circularidade absoluta, intocável e insuperável entre a missão espiritual da Igreja e os interesses estratégicos do Ocidente.

Segunda variável: Se a era dos mártires parecia fechada para sempre com o advento da paz de Constantino (cuja apresentação em 313 sobre o estatuto da religião imperial será celebrado em Milão em 2013), o fato de que os mártires retornem é um dos sinais de que o sistema da Igreja, protegida pelos privilégios concordados, está se exaurindo, e que ela é obrigada a procurar em outro lugar, no âmbito das consciências, garantias menos poluídas e mais sólidas. Significa que a partida do destino do Cristianismo não será jogada em casa, com telas eurocêntricas, mas fora de casa, perante outras visões de mundo, outras tradições espirituais e culturais (por exemplo a China), outras grandes religiões mundiais.

E significa, por fim, que a Igreja está de novo perante uma alternativa. Entre uma opção radical de reforma evangélica até uma colisão com as "potências mundiais", ou ainda, uma linha de adaptação realista como quando, de acordo com os primeiros entusiasmos, se resignou em uma técnica dissimulatória do clero nicodemista. Uma alternativa dramática vivida também pelos monges de  Tibhirine assassinados em 1996 por um grupo de terroristas islâmicos nas montanhas de Atlante na Argélia (história narrada no filme Homens de Deus, quando o abade geral dos cistercienses, Bernardo, induziu ao prior Christian de Chergé: "A Ordem tem mais necessidade de monges do que mártires. Vocês portanto devem fazer de tudo para evitar um final dramático que não serviria para ninguém".

A resposta de Bento XVI a nova onda de perseguições, discriminações, intolerância pareceu imune a mística do martírio na medida em que é baseada na convicção de que o martírio, mais do que um evento histórico excepcional, é intrínseco a condição cristã comum, inspirada na disponibilidade do dom da vida em modo poliforme.

E é esta experiência que torna provavelmente a Igreja mais sensível  às reivindicações de liberdade religiosa para todas as fés, no terreno dos direitos civis e do direito internacional. O papa lançou a campanha de persuasão aos estados através da Mensagem do Dia da Paz 2011 dedicada à liberdade religiosa. Ele associou ao texto algumas diretivas para as minorias cristãs intimidadas. "Não devemos ceder a resignação", portanto não se fuja das zonas quentes, se mantenha em linha evangélica de resistência não violenta, que foi a escolha dos primeiros seguidores de Cristo, que preferiram morrer do que matar. Que é o caminho dos mártires de todas as épocas, também na África, de Felicidade a Perpétua no século II, aos mártires contemporâneos de Uganda, da Nigéria e da Argélia.

E faz a diferença principal com o "martírio para matar" dos suicidas islamistas. E ainda, diante do que aconteceu em Alexandria no Egito, o papado confirmou a convicção de que não existe outra alternativa além do diálogo entre as religiões e que um erro ainda pior seria aquele de ficar na defensiva: assim o enorme significado do anúncio de um novo encontro entre as grandes religiões mundiais em Assis em outubro, 25 anos depois do primeiro ter sido convocado por João Paulo II.

 

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