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08 Fevereiro 2017

“A bravura é coisa de arrogantes”, diz o Papa Pio XIII na página 25, versículo 49, do seu evangelho muito apócrifo. Pouco depois: “O presente é uma fenda onde só há espaço para um par de olhos. Os meus”. Quem já viu The Young Pope não vai se surpreender com o lapidar descaramento de boa parte do texto. Ao contrário, ficará feliz em se reencontrar novamente imerso no estado de ânimo da escandalosa (e às vezes divertida) admiração que a série de TV proveu episódio após episódio ao seu público.

O comentário é do jornalista, escritor e roteirista italiano Michele Serra, publicado no jornal La Repubblica, 06-02-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Quem já viu antes de ler poderá atribuir a esse papa imprevisto e imprevisível o rosto de estrela de Jude Law, a sua melancólica beleza, os seus tormentos, a fumaça do seu cigarro que sobe para os tetos afrescados do Vaticano. Quem já viu poderá reconhecer, página após página, o seu intransigente maximalismo (reacionário? Revolucionário? Um dos grandes pontos fortes da série é deixar na ambiguidade mais total a leitura “política” do jovem papa: Sorrentino não é um autor ideológico) que sacode o mundo católico e a hierarquia da Igreja romana, como se o poder apodítico das palavras do novo papa fosse a confirmação de que, realmente, estamos nos aproximando do fim dos séculos. A intransigência verbal e emotiva do jovem pontífice, isolada do contexto magnífico e poético no qual Pio XIII atua na série, soa ainda mais letal.

O cardeal estadunidense Lenny Belardo, jovem e bonito, que subiu ao trono de Pedro pelo desígnio inescrutável do Espírito Santo e (talvez) por algumas manobras fugidias no conclave, não gosta de desperdiçar as oportunidades. Tornou-se papa? Então será papa com uma intensidade total, insustentável para muitos, reveladora para outros. (Sobre Sorrentino pode-se pensar a mesma coisa: a sua intensidade artística é insustentável ou reveladora, dependendo se você acredita ou não, ama o seu cinema ou não A única coisa que não é possível fazer é negá-la).

Se Il peso di Dio [O peso de Deus] é o título do livro (Einaudi Stile Libero, uma espécie de “best of” que Paolo Sorrentino extraiu do roteiro da série de TV), o peso da palavra é aquilo que move a trama. Quem mais do que o papa, servidor do Verbo, conhece esse peso? E quem melhor do que pode desprezar a frase feita, a preguiça intelectual, os confortos do costume repetido?

Lenny Berardo, nesse sentido, é o alter ego de Jep Gambardella, o jornalista cínico e vencido de “A grande beleza”. Se o grande afresco romano de Sorrentino era um cântico das oportunidades perdidas e do tempo perdido, The Young Pope é o seu oposto. Uma corrida formidável dentro das responsabilidades do homem que fala por excelência, o sucessor de Pedro, cujas palavras são esperadas e temidas como as de Deus.

O espetáculo do vigário de Cristo que toma a palavra, em nome do Pai, deve ser perturbador ou não deve ser. Não se sobe ao palco se não se sabe o que dizer. Nem um instante deve ser desperdiçado, nem uma palavra deve ser mal gasta, e, como que por contágio, os cardeais de Sorrentino, que podemos supor que, antes da chegada desse papa, estavam muito tomados pela rotina do poder, agora, nas suas conversas, também apontam para o essencial, descobrem-se também pessoalmente, arriscam, fazem uso de si tanto quanto os bon-vivants de "A grande beleza", ao contrário, tergiversavam, hesitavam, postergavam. Enganavam o tempo.

Tão esperadas e temidas são as palavras do novo papa, que Pio XIII decide, depois da sua eleição, uma rigorosa autossuspensão midiática. “A ausência é a presença. Estes são os fundamentos do mistério. Aquele mistério que estará novamente no centro da minha Igreja.” Ele não se deixará ver, não se deixará ouvir enquanto não tiver decidido o que se deve dizer e o que não se deve dizer à comunidade dos fiéis, que devem ser amados “um por um”. (Vem à mente, aqui, a solução oposta que Nanni Moretti deu à mesma tremenda responsabilidade, a de ter que dar consolação em nome de Deus: o seu papa escolhia a fuga, portanto, a ausência definitiva. O papa de Sorrentino, que faz coincidir “bravura” e “arrogância”, em vez disso, prepara na sombra o Grand Finale).

É, portanto, “em família”, no círculo restrito dos seus poucos afetos (ele é órfão desde a primeira infância) e dos poucos colaboradores admitidos aos seus quartos (ele é papa) que Lenny gasta as suas palavras e consuma as suas experiências de poder, de sedução, de amizade e de amor, estritamente platônico, mas nem por isso menos difícil de reger.

Fala-se muito de amor em The Young Pope, começando pelo amor negado por excelência, a dos pais que abandonam o filho assim como Deus abandonou os homens. No livro, essa evidência do discurso amoroso é ainda mais perceptível, precisamente mais “textual”. A página tem uma nudez claustral, não há as visionárias sequências vaticanas, os corredores, os salões, os jardins, os passeios, os rostos em primeiro plano. Tudo é apenas palavra, e se Pio XIII não fosse, como sabemos, também tão narciso, tão feliz de ser bonito e tão desejoso de se refletir na beleza do mundo, entre o livro e o filme talvez escolhêssemos o livro, que o leva, em apenas 130 páginas, à tão esperada homilia final, na Praça San Marco, em Veneza (Sorrentino não perde nada e não nos faz perder nada. Ele não é um narrador sóbrio, e não sabe o quanto somos gratos a ele por isso).

No seu prefácio, obscuro, mas não reticente, o autor indica a gênese de The Young Pope no “contraditório sentimento de fascínio e desconfiança e relação ao clero” que ele elaborou, quando adolescente, ao frequentar o liceu clássico dos salesianos, em Nápoles. Eu não sei se o fascínio é o mesmo, mas do padre e, especialmente, do papa, ele conquista – no filme assim como no livro – o status de “necessidade profissional” no qual exerce, ou se imagina que exerça, a sua reflexão sobre o amor, sobre a beleza e sobre Deus.

Mais ou menos esta é a Trindade (apócrifa) que poderia surgir de uma leitura “teológica” da história sorrentiniana. Com Deus na terceira pessoa – a mais misteriosa – e como restrita consequência dos primeiros dois, amor e da beleza, que se repetem no livro com a mesma frequência com que, no filme, Lenny expele uma nuvem de fumaça de cigarro. Que, como deve ser, sobe para o céu.

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