A "pergunta" de Wiesel, dos campos de concentração a Nice

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21 Julho 2016

"Deus Se deixa enforcar, se deixa morrer asfixiado pelo gás. É a shekinah, ou seja, a presença escondida, a luz nas trevas. Deus permanece mudo, mas chora pelos seus filhos. O homem sofre, e Deus não pode não sofrer com ele. Toda a obra de Elie Wiesel traz consigo a pergunta: ‘Onde Deus estava em Auschwitz?’."

A opinião é do arquiteto e escritor italiano Giorgio De Simone, nascido em Nice, em artigo publicado no jornal Avvenire, 20-07-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Muitos ataques foram dirigidos, nos últimos 60 anos, a Elie Wiesel, escritor romeno (naturalizado estadunidense) e excepcional testemunha do Holocausto, falecido no dia 2 de julho passado, aos 87 anos. O último chegou do nonagenário diretor francês Claude Lanzmann (autor do filme Shoah), que, logo depois da morte de Wiesel, acusou o grande escritor de ter passado não mais do que três a quatro dias em Auschwitz, tendo passando o resto da prisão "principalmente em Buchenwald".

Na realidade, levado com o resto da família do gueto de Sighet, na Transilvânia, em maio de 1944, Wiesel foi enviado de Auschwitz para Buna, um subcampo de Auschwitz, e, de lá, com o pai, para outros três campos, até Buchenwald, onde, assim como a mãe e irmãzinha mais nova, o pai não sobreviveu.

"Nunca esquecerei aquela noite, a primeira noite no campo, que transformou minha vida numa longa noite, sete vezes maldita e sete vezes selada. Nunca esquecerei aquela fumaça. Nunca esquecerei os pequenos rostos das crianças, cujos corpos vi tornados em coroas de fumaça sob um céu azul em silêncio. Nunca esquecerei aquelas chamas que consumiram minha fé para sempre", escreveu Wiesel no seu livro mais conhecido, A Noite.

Como disse Lucia Antinucci, doutora em teologia dogmática, assumindo o drama histórico em toda a sua crueza, Wiesel "põe em crise a realidade da Humanidade". Se houve aliança – como acreditava ele, judeu – entre homem e Deus, essa aliança foi traída. O homem certamente é responsável por tanto mal, mas Deus permaneceu "indiferente", Deus não se deixou ver. No entanto, o enforcamento de um menininho holandês de 13 anos que agoniza longamente antes de morrer faz com que todos se perguntem: "Onde está Deus?". Mas eis a resposta: "Onde está? Ei-Lo: está pendurado ali, naquela forca".

Deus Se deixa enforcar, se deixa morrer asfixiado pelo gás. É a shekinah, ou seja, a presença escondida, a luz nas trevas. Deus permanece mudo, mas chora pelos seus filhos. O homem sofre, e Deus não pode não sofrer com ele. Definida por Antinucci como "narrativa teológica", toda a obra de Wiesel, romances, poemas, contos, ensaios, um material variado obtido a partir da tradição oral hassídica, além da sua história de interno escrita sobre a exortação de François Mauriac, traz consigo a pergunta: "Onde Deus estava em Auschwitz?".

Pergunta que, como uma faca, atravessou o pós-guerra até nós. Pergunta que sempre nos fazemos diante da dor inexplicável, das mortes inesperadas, dos infortúnios perenes. O que resta hoje de Wiesel é a sua obra, o seu pensamento, a sua incansável atividade pelos direitos humanos, o seu Prêmio Nobel da Paz em 1986. E pouco importa por quanto tempo ele esteve em Auschwitz, em Buna, em Buchenwald. O seu testemunho, para aqueles que o querem ver, é um marco. A sua fé, que saiu do campo mutilada, atingida ou, para dizer com uma definição recente dele, "ferida", torna-se um arquétipo que diz respeito a todos nós, que diz respeito a estes nossos dias em que, se nós estamos aqui, no abrigo aparente, nas nossas casas, em torno de nós e agora até mesmo dentro do Ocidente existem guerras e extermínio, crueldade e maus-tratos, migrações de desesperados, loucura destrutiva e desastres humanitários sem fim.

Não mais Auschwitz, não mais Buchenwald, mas campos de infelizes que vivem em condições indignas também abundam no território deste nosso país que, constitucionalmente, se professa contrário a toda guerra. Fé ferida, sim. Porque, em relação àquilo que vemos cotidianamente na Síria, no Iraque e, recentemente, em Dhaka e em Nice, e, há poucos dias, em Paris e em Bruxelas e nos naufrágios contínuos em que adultos e, sobretudo, crianças inocentes morrem como moscas, há quem se pergunte por quê: por que Deus não abre a Sua mão e para tudo isso, como parou o Mar vermelho diante de Moisés? São muitos os que se perguntam isso, são muitos os que não encontram resposta.

Mas, aliás, pode haver fé intacta, marmórea, inoxidável, à prova de riscos? Pode haver fé assim quando conhecemos, de muitos santos, as "noites da alma" que eles atravessaram? Pode haver fé assim se o próprio Papa Francisco, como ainda a Madre Teresa, quis nos avisar que nem mesmo ele pôde escapar à tentação da dúvida? Pode haver fé assim se Jesus, na Cruz, perguntou ao seu Pai por que o tinha abandonado (Mt 27, 46), sentindo em si mesmo a angústia do Deus que não responde? Ele, que era a própria Fé?

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