Enquanto Francisco visitava a Eslováquia, a comunidade internacional celebra a mulher sacerdote da Tchecoslováquia

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21 Setembro 2021

 

Apenas algumas horas depois do Papa Francisco falar com os católicos na Eslováquia, mais de 420 católicos de todo o mundo se reuniram em um evento online para celebrar Ludmila Javorova, a primeira mulher ordenada sacerdote na era moderna. Em 1970, dom Felix Maria Davidek a ordenou para servir na Igreja clandestina na Tchecoslováquia, onde líderes comunistas estavam matando e prendendo padres, irmãs e lideranças leigas.

 

O artigo é de Christine Schenk, irmã da Congregação de São José, mestre em enfermagem e teologia, co-fundadora da FutureChurch, publicado por National Catholic Reporter, 16-09-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

 

A biógrafa de Javorova, a irmã Miriam Therese Winter, da Congregação das Médicas Missionárias, falou para um considerável público internacional que participou pela internet, no espaço promovido por FutureChurch e a Women’s Ordination Conference.

As quatro viagens de Winter à República Tcheca durante um período de três anos renderam várias entrevistas orais e uma profunda amizade entre as duas mulheres. Em seu premiado livro “Out of the Depths” (“Fora das Profundezas”, em tradução livre), de 2001, Winter narrou a corajosa odisseia espiritual de Javorova e a visão eclesial de Davidek (exceto onde indicado, os detalhes sobre a história de Javorova nesta coluna foram retirados do livro de Winter).

As palavras de Francisco na missa de 14 de setembro na Eslováquia parecem particularmente apropriadas para esses dois líderes da igreja clandestina tcheca: “As testemunhas geram outras testemunhas, porque são doadoras de vida”, disse o papa. “É assim que a fé é difundida: não com poder mundano, mas com a sabedoria da cruz; não com estruturas, mas com testemunho”.

Davidek e Javorova iriam sofrer, testemunhar e dar vida a um novo modelo de comunidade eclesial para o povo de Deus perseguido na Tchecoslováquia. Por meio de uma série de acontecimentos conduzidos pelo Espírito, seu testemunho continua a trazer vida aos católicos hoje.

O padre Felix Davidek passou mais de 14 anos angustiantes em uma prisão tcheca onde ele e seus irmãos padres celebraram secretamente missa usando pão e suco de passas fermentadas (passas eram trazidas por membros da família). Mas ele ficou angustiado ao ver as muitas mulheres e religiosas presas que não tinham acesso aos sacramentos em um momento de grande necessidade espiritual.

Uma semente foi plantada na alma sacerdotal de Davidek que um dia renderia uma rica colheita.

Após sua libertação, Davidek procurou Javorova – um amigo de confiança da família com prodigiosas habilidades organizacionais – e os dois trabalharam para criar a comunidade clandestina Koinotes. No início, a Koinotes funcionou como uma espécie de universidade para recrutar e educar seminaristas do sexo masculino que seriam ordenados para servir aos católicos clandestinos.

Com o conhecimento do papa Paulo VI, o cientista tcheco Jan Blaha foi consagrado como bispo da sitiada igreja subterrânea. Blaha então consagrou secretamente Davidek para servir como bispo da Koinotes e suas ramificações.

Javorova trabalhou incansavelmente – e com grande risco para si mesma – em todos os aspectos do funcionamento de Koinotes. Davidek passou a consagrar 17 bispos e ordenar aproximadamente 68 padres. Ele também nomeou Javorova para servir como seu vigário geral. Nessa posição, ela compareceu a todas as ordenações.

Como Winter explicou na reunião de 14 de setembro:

 

“E as regras eram, eles não podiam escrever nada. Até os nomes – ela teve que memorizá-los. No final, ela havia testemunhado mais de 545 ordenações... e as regras eram se você fosse ordenado, você não poderia contar a ninguém, nem mesmo sua esposa, sua mãe, seu pai, ninguém”.

 

Koinotes cresceu rapidamente para incluir dezenas de comunidades escondidas em toda a Tchecoslováquia. Junto com Davidek e Blaha, Javorova conhecia a identidade de todos os padres e líderes leigos da crescente Igreja clandestina.

A visão de Igreja de Davidek surgiu do Concílio Vaticano II. Em “Out of the Depths”, Javorova relembra sua descrição da Igreja: “Somos o povo de Deus. Somos a Igreja no meio do mundo de Deus, canais da graça em todas as situações e, quando necessário, agentes da mudança inerente ao Evangelhos”.

Lendo “Out of the Depths”, sente-se que Davidek foi um bispo segundo o coração de Francisco. E se nosso papa reservasse um tempo para ler sobre a incrível profundidade da espiritualidade de Javorova, ela também o conquistaria.

Em setembro de 1970, Davidek anunciou sua intenção de convocar um “Conselho do Povo de Deus” que incluiria mulheres e homens, representantes leigos e clericais das comunidades tchecas e todas as outras áreas em que Koinotes tinha comunidades na Eslováquia, Morávia, Romênia e Boêmia. Todos tinham que obedecer a regras estritas de sigilo.

Ele propôs discutir (entre outras coisas) os papéis mutáveis das mulheres na cultura e na sociedade, o Novo Testamento e as implicações canônicas para a ordenação de mulheres. O plano foi aprovado pelos líderes da Koinotes – incluindo outros bispos – e, com a ajuda organizacional e administrativa de Javorova, um processo preparatório abrangente começou.

Nos dias 25 e 26 de dezembro, os representantes da Koinotes se reuniram em um conselho secreto para discutir a possibilidade de ordenar mulheres. Vários bispos imediatamente tentaram inviabilizar o processo, objetando discutir a ordenação de mulheres, embora já a tivessem aprovado para a agenda planejada.

Depois de horas de acalorada discussão, uma votação foi realizada. O conselho se dividiu igualmente sobre o assunto. Davidek e Javorova foram surpreendidos pela evidente duplicidade de alguns participantes e pela intensidade de sua oposição. Davidek percebeu que, do jeito que as coisas estavam, ele não seria capaz de ordenar mulheres publicamente tão cedo. Ele decidiu perguntar a Javorova se ela aceitaria uma ordenação secreta.

Em “Out of the Depths”, Winter cita sua reação:

 

“Isso foi inesperado. Eu nunca tinha pensado em ser ordenada. Eu aceitei isso como um dom de Deus. Deus nos dá dons sem motivos, então eu nunca encontrarei uma resposta para a questão “Por que eu?”, embora eu já tenha a feito a mim mesma várias vezes... Como pode um ser humano, que é tão pequeno e tão limitado, devolver um presente a Deus? Deus faz o que quiser, quando quiser, e assim será quando nós nem esperarmos por isso”.

 

Às 22h de 20 de dezembro, usando o Rito de Ordenação do Pontifical Romano, e com Leo, o irmão de Davidek, como testemunha, Javorova era ordenada primeiro diácona e depois sacerdote da Igreja Católica Romana.

Após sua ordenação, Winter escreve: “Ludmila celebrou sua primeira missa – simplesmente, silenciosamente, junto com Félix e Leo Davidek, Maria, a Mãe de Jesus, e todos os anjos e santos de Deus”.

Pelo resto de sua vida, Javorova seria obrigada a exercer seu ministério sacerdotal em segredo. Mesmo assim, ela ministrou a muitas pessoas que inexplicavelmente “vieram do nada” para abrir seus corações e receber uma palavra consoladora sobre o grande amor de Deus por eles.

“Então ela fez um ministério sacerdotal sem crédito, sem reconhecimento”, disse Winter. “E parte do sofrimento que ela sofreu fisicamente, psiquicamente foi muito, muito profundo e doloroso”.

Após a dissolução da União Soviética, o Vaticano procurou regularizar as ordenações clandestinas – incluindo aquelas de homens casados que haviam recebido direitos de bi-ritual de administrar sacramentos nas tradições romana e bizantina. Os padres que haviam sido amigos de Javorova agora se distanciaram, especialmente depois que a Ordinatio Sacerdotalis do papa João Paulo II procurou encerrar todas as discussões sobre a ordenação de mulheres.

O Vaticano proibiu os sacerdotes casados da Koinotes no rito romano tcheco, permitindo-lhes ministrar apenas em comunidades bizantinas. Em 1996, Roma proibiu explicitamente Javorova de exercer qualquer ministério sacerdotal e a instruiu a não contar a ninguém sobre a proibição.

Mas, como diz o ditado, “mulheres bem comportadas raramente fazem história”.

Em sua introdução em 14 de setembro, a diretora da Women's Ordination Conference, Kate McElwee, nos assegurou que a contribuição de Javorova para a história nunca será perdida: “Nós sabemos o perigo de as testemunhas, liderança e ministério das mulheres serem apagados. E não vamos deixar isso acontecer. Sua testemunha viva, uma sacerdotisa de nosso tempo, mudou para sempre o movimento de ordenação de mulheres”.

A apresentação de Winter sugeriu ainda que o trabalho de Javorova com a comunidade Koinotes revela algo sobre as dores tão claramente evidentes na Igreja hoje:

 

“[Koinotes] era como um organismo que conectava tudo a tudo. E estava vivo. Estou morrendo para ontem. Estou entrando hoje. E então amanhã. É assim que nasce uma nova tradição. O que acontece em nossa vida espiritual também é verdade em nossa vida cotidiana. O fato de que a vida pode mudar. Deixo algumas coisas para trás e começo algo novo que é necessário. Portanto, embora mantenhamos a tradição ao mesmo tempo, deve haver uma nova tradição sendo formada também na igreja”.

 

Quanto à Javorova, agora com 89 anos de idade, Winter captou bem o poder que ancora seu sacerdócio: “[Ludmila] disse: 'A obra do Espírito Santo significa que você tem algo que precisa fazer. E você saberá disso você tem que fazer'”.

Em uma coluna intitulada “Simply Spirit”, é justo dar a última palavra à própria Javorova. Em agradecimentos à sua biografia, ela lançou um grande desafio à Igreja Católica de hoje:

“O livro descreve o fato de que o carisma do sacerdócio para as mulheres existe. Também apresenta a questão de se o Espírito de Deus no serviço ministerial está sendo sistematicamente extinto por meio de decisões jurídicas”.

 

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