Compartilhar Compartilhar
Aumentar / diminuir a letra Diminuir / Aumentar a letra

Espiritualidade » Comentário do Evangelho

DOMINGO 30 DE MARÇO - Evangelho de João 9, 1-41

Jesus curando o cego.
Por El Greco, atualmente na Gemäldegalerie
Alte Meister, em Dresden, na Alemanha (1570).

Ao passar, Jesus viu um cego de nascença. Os discípulos perguntaram: «Mestre, quem foi que pecou, para que ele nascesse cego? Foi ele ou seus pais?» Jesus respondeu: «Não foi ele que pecou, nem seus pais, mas ele é cego para que nele se manifestem as obras de Deus. Nós temos que realizar as obras daquele que me enviou, enquanto é dia. Está chegando a noite, e ninguém poderá trabalhar. Enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo.» 6 Dizendo isso, Jesus cuspiu no chão, fez barro com a saliva e com o barro ungiu os olhos do cego. E disse: «Vá se lavar na piscina de Siloé.» (Esta palavra quer dizer «O Enviado»). O cego foi, lavou-se, e voltou enxergando.

Os vizinhos e os que costumavam ver o cego, pois ele era mendigo, perguntavam: «Não é ele que ficava sentado, pedindo esmola?» Uns diziam: «É ele mesmo.»

Outros, porém, diziam: «Não é ele não, mas parece com ele.» Ele, no entanto, dizia: «Sou eu mesmo.» Então lhe perguntaram: «Como é que seus olhos se abriram?»  Ele respondeu: «O homem que se chama Jesus fez barro, ungiu meus olhos e me disse: "Vá se lavar em Siloé’. Eu fui, me lavei, e comecei a enxergar.» Perguntaram-lhe: «Onde está esse homem?» Ele disse: «Não sei.»(João 9,1-12)

Leitura do texto completo Evangelho de São João 9, 1- 41

Locutor: Atila Alexius

Um novo olhar

Continuamos caminhando com Jesus nesta Quaresma, rumo a Jerusalém, à festa da Páscoa.

Este texto do evangelho é a continuação da cena na qual Jesus é quase apedrejado pelos judeus porque ele afirma que existe antes que Abraão (Jo 8, 58-59).

A hostilidade entre Jesus e os judeus é clara no evangelho de João. Isto responde ao contexto que vivia a comunidade joânica quando o evangelho foi escrito.

A expulsão das sinagogas dos judeus convertidos ao cristianismo ocorreu algum tempo antes de o evangelho ser escrito. Mas os cristãos joaninos ainda eram perseguidos até condenados à morte pelos "judeus".

Enquanto os cristãos eram considerados judeus, não havia nenhuma razão legal para que os romanos os matassem. Mas, uma vez que as sinagogas os expulsavam, tornava-se claro que eles não eram mais judeus e sua não adesão aos costumes pagãos e deixar de participar do culto ao imperador criava-lhes problemas legais.

Por tudo isto podemos "sentir" o ambiente no qual crescia à fé na comunidade joanica.

Voltemos agora para o texto e reparemos no olhar de Jesus, de caminho ele "viu um cego de nascença".

O que é que Jesus vê nesse homem? Como é olhar de Jesus a esse homem?

Os discípulos que estão com Jesus também o vêm. Suas perguntas revelam o que vem, um homem pecador: "Mestre, quem foi que pecou, para que ele nascesse cego? Foi ele ou seus pais?".

O olhar de Jesus é diferente, vê além do pecado conseguindo enxergar nesse  cego o desejo de Deus, que presente nesse homem,  quer dar-lhe uma nova vida.

Deixemos que Jesus pare diante de cada um de nós e nos olhe tranqüilamente? Perguntemos para ele o que vê?

Consciente de sua missão (Lc 4, 17-21) faz o cego partícipe de sua Luz (Jo 1,9) devolvendo-lhe a visão.

A forma na qual o evangelista narra a cura, nos remete ao relato da criação (Gn 2,7), na qual Deus cria ao ser humano do barro, insuflando-lhe seu espírito: "Jesus cuspiu no chão, fez barro com a saliva e com o barro ungiu os olhos do cego".

Ou seja estamos diante uma nova criação, a que veio a realizar o Filho de Deus: "Ele, porém, deu o poder de se tornarem filhos de Deus a todos aqueles que o receberam, isto é, àqueles que acreditam no seu nome"  (Jo 1, 12).

O cego acreditou, deixou que Jesus colocasse barro em seus olhos e foi obediente a suas palavra  "’Vá se lavar na piscina de Siloé’ (Esta palavra quer dizer «O Enviado»). O cego foi, lavou-se, e voltou enxergando".

Agora bem esta nova vida que o ex-cego inicia se desenvolve no meio das tensões que descrevíamos ao início. Por meio do mendigo cego, a comunidade que escreve o evangelho espelha as dificuldades que sofre para viver fiel a Jesus e seus ensinamentos.

É por isso que depois da cura o evangelho nos oferece o longo processo que o mendigo faz, tendo que enfrentar a não compreensão do povo em geral, a rejeição  das autoridades religiosas e até o abandono de seus pais, permanecendo sempre fiel  a "aquele" que: "colocou barro nos meus olhos, eu me lavei, e estou enxergando".

As sucessivas respostas que ele oferece no diálogo inquisidor ao qual é submetido mostram que ele ainda não conhece plenamente a aquele que o curou, só sabe de sua existência e do que obrou nele.

Como esquecer que antes estava na escuridão e agora vivia na Luz!  A alegria de essa mudança ninguém se há podia tirar.

O ex-cego sofre a expulsão de sinagoga por como tantos judeus cristãos da comunidade joânica sofreram.

O evangelho mostra como Jesus conhecia e acompanhava ao cego, ao igual que a cada um/as de seus amigos/as, e por isso quando fica sabendo que ele é expulso da sinagoga, não o abandona; ao contrário, vai de novo ao seu encontro.

E é nesse novo diálogo de Jesus com o ex-cego que ele termina reconhecendo em Jesus ao filho de Deus, ao qual adora: "E se ajoelhou diante de Jesus".

A fé de mendigo cego deste evangelho desafia a nossa, somos capazes de reconhecer a presença de Jesus nos acontecimentos de nossa vida. Em cada situação que passamos da escuridão à luz, da dificuldade à paz, da tristeza à alegria, vemos a Jesus? E o adoramos?

Oração

Olhar-me desde Ti.

Uma menina nômade Gujjar brinca com um cordeiro
numa manhã fria e nebulosa, no dia 17 de janeiro,
na periferia de Jammu, no Kashmir, Índia.

Foto: Jaipal Singh - Epa

Olha-me tu, Jesus de Nazaré 
que eu sinta pousar-se sobre mim
teu olhar livre,
sem escravidão de sinagoga,
sem exigência que me ignorem,
sem a distância que congela,
sem a cobiça que me compre.

Que teu olhar se pouse
em meus sentidos,
e se filtre até os desvãos
inacessíveis onde te espera
meu eu desconhecido
semeado por ti desde meu início
e germine meu futuro
rompendo em silêncio
com o verde de suas folhas
a terra machucada que me sepulta
e que me nutre.

Deixa-me entrar dentro de ti,
para olhar-me desde ti,
e sentir que se dissolvem
tantos olhares
próprios e alheios
que me deformam e me rompem.

Benjamim Gonzalez Buelta

Referências

BROWN, Raymond. A comunidade do discípulo amado. São Paulo: Paulinas,  1983.

KONINGS, Johan. Espírito e mensagem da liturgia dominical. Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindis, 1981.

Leituras complementares

Cf. entrevista com Peter Hünermann:. A unidade de Jesus com os seres humanos

Cf. entrevista com Francisco Orofino: Jesus: um apaixonado por Deus e pelas pessoas

Cf. entrevista com Faustino Teixeira: O Jesus de Pagola

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar

Cadastre-se

Quero receber:


Refresh Captcha Repita o código acima:
 

Novos Comentários

"Se é verdade que houve um erro em expor-se um animal selvagem no episódio aqui relatado, também ..." Em resposta a: 'Erramos', diz Rio 2016 após morte de onça presente em tour da Tocha
"Estou de acordo com os professores.Quem tem direito as terras são os índios, não que sejam dono d..." Em resposta a: Acadêmicos do MS exigem punição para assassinos de Guarani Kaiowá
"Gostei, pois é assim que Igreja católica com seu espírito de supremacia gosta de se referir as Ig..." Em resposta a: A Igreja Católica Romana não é Igreja, afirma sínodo da Igreja ortodoxa

Conecte-se com o IHU no Facebook

Siga-nos no Twitter

Escreva para o IHU

Adicione o IHU ao seus Favoritos e volte mais vezes

Conheça a página do ObservaSinos

Acompanhe o IHU no Medium