A revolta dos posseiros. 50 anos depois. Entrevista especial com Iria Zanoni Gomes

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17 Agosto 2007

Em 1956, aos nove anos, Iria Zanoni Gomes vivia em Francisco Beltrão quando os posseiros, colonos e moradores do sudoeste do Paraná, tomaram as cidades daquela região reivindicando o título de propriedade de onde moravam. Lá ela viveu toda a Revolta dos Posseiros que originou seu livro “1957: a revolta dos posseiros” (Paraná: Criar Edições), no qual conta tudo o que viveu. Parte dessa história ela contou na entrevista a seguir, feita por telefone, cedida com exclusividade à IHU On-Line.

Gaúcha, Iria foi criada em Francisco Beltrão, no Paraná. É professora e socióloga e, atualmente, trabalha no IPARDES - Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social, em Curitiba, PR.

Amanhã, domingo, realiza-se a 22a. Romaria da Terra do Paraná em Francisco Beltrão, com o lema "Na luta da terra fazemos mudança, conosco caminha o Deus da Aliança".

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O que foi a “revolta dos posseiros”, contra quem aconteceu e a favor do quê?

Iria Zanoni Gomes - A revolta dos posseiros foi um movimento contra as companhias de terra que se instalaram na região no início da década de 1950. A maioria dos colonos que foram para a região do sudoeste do Paraná chegou durante os anos 1940. Em 1943, foi instalada a Cango – Colônia Agrícola Nacional General Osório (1), uma instituição criada pelo governo Getúlio Vargas dentro do Projeto de Marcha para o Oeste para ocupação das regiões de fronteira do Brasil. Com isso, se fez uma intensa propaganda para que as pessoas fossem ocupar aquela região. No Rio Grande do Sul, por exemplo, quando os meninos saíam do exército, recebiam um papel dizendo que o sudoeste do Paraná era um lugar que tinha terras para eles poderem construir e viver.

Os descendentes de italianos do Rio Grande do Sul foram os principais colonizadores, pois as suas áreas de terra estavam se esgotando a partir da colonização que se deu no século XIX até metade do século XX. Os netos e os filhos desses italianos que vieram não tinham mais terras para plantar e foram para o sudoeste a chamado da Cango. Quando a Cango estava instalada, ajudava os colonos nos dois primeiros anos na região. No entanto, algumas companhias de terra se instalaram na mesma região e se diziam colonizadoras, embora a primeira tenha se instalado na região só em em 1950 e, depois, em 1956, duas outras companhias tenham se fixado ali com o mesmo discurso.

IHU On-Line – Por que elas foram para lá? O que elas tinham a ver com aquelas terras?

Iria Zanoni Gomes - Em função da construção da estrada de ferro, um tal de Rupi ganhou as terras por conta da construção da estrada e pagou as companhias com a terra pelo qual a estrada passava. No entanto, Rupi pagou, mas não legitimamente. Então, as companhias chegaram à região quando os colonos já tinham chegado. Alguns já tinham a posse de terras e as companhias queriam vender novamente as terras para eles. Então, o litígio era o seguinte: as companhias queriam vender uma terra que legalmente não tinham.

Os colonos questionavam, não se recusavam a pagar, mas queriam pagar a quem realmente tinha o direito sobre aquela terra. O grande problema surgiu quando chegaram as duas outras companhias em 1956, pois trouxeram jagunços que acuavam, batiam e matavam os colonos. Com isso, se instalou na região uma situação de violência muito grande. Após várias mortes, os colonos e os posseiros eram objetos de violência das companhias. À medida que a violência chegou num ponto insustentável, os posseiros decidiram se organizar.

Para chegar à revolta, há antes toda uma história de mobilização, de abaixo-assinados e outras manifestações. No entanto, nenhuma delas funcionou. Foi então que resolveram tomar a cidade, mas com todo um processo de organização, com lideranças em vários lugares do interior. Essas lideranças tinham um relacionamento bom com o pessoal da cidade. Eles tinham códigos, senhas para se comunicarem. O objetivo básico da Revolta era expulsar as companhias de terra que se diziam donas da região e usavam de violência com a população, principalmente em relação aos colonos.

Quando eles finalmente decidem pela Revolta, em outubro de 1957, segue-se uma reação em cadeia, pois num primeiro dia tomam a cidade de Pato Branco, no segundo, Francisco Beltrão, e, no terceiro dia, as outras cidades do sudoeste do Paraná. Com isso, o chefe de polícia da região foi preso para que acontecessem negociações com o objetivo de que o governo realmente retirasse as companhias de terra dali. O Jânio (2) foi quem assinou o decreto.

IHU On-Line - Foi um movimento armado? Como estava organizado?

Iria Zanoni Gomes - Veja, não foi um movimento típico armado. Eles vieram de suas casas com suas espingardas, com seus pica-paus, com enxada, foice, com as armas que eram seus instrumentos de trabalho. Não foi um movimento típico, digamos assim, com participação do partido comunista, que tem todo um processo de organização clássico. A organização foi interessante porque foi nascendo do processo de violência. Em 1951, eles começam a primeira organização quando começam os conflitos, ainda pequenos. As pessoas da região, não apenas os colonos, começaram a conversar sobre essas coisas. Há todo um processo de quase dez anos. Nele, à medida que vão acontecendo fatos que colocam a população em alerta, no sentido de que ela não tinha garantia de que aquelas terras eram dela, se instala um processo de organização quase instantâneo. Houve conversas, discussões, debates, sempre coletivamente. Então, em 1951, eles fizeram um abaixo-assinado e foi uma comissão ao Rio de Janeiro falar com o presidente da República para ver o que se poderia fazer. Isso acabou se tornando uma prática quando a situação de violência se intensificou, no ano de 1956. Quando vêm as duas companhias, a comercial e a Apucarana, eles já têm essa prática de coletivamente discutir para decidir o que iam fazer. A tomada das cidades é uma conseqüência dessa prática de tomar decisões coletivamente. Eu posso dizer isso porque eu era criança (cheguei em Francisco Beltrão em 1956, ano em que a violência foi muito maior). Fiz nove anos um mês antes do levante. Eu lembro que escurecia e ninguém mais saía de casa, porque tínhamos medo dos jagunços. Existia bastante medo na região.

IHU On-Line - Quais foram os limites da `revolta dos posseiros`?

Iria Zanoni Gomes - Naquele momento, a reivindicação deles era poderem ficar na terra e terem o título  de propriedade. Se pensarmos numa ótica marxista, era um movimento capitalista. Legalmente, toda aquela terra era considerada devoluta. As companhias diziam que elas eram as proprietárias. Os colonos não se importavam de quem era, desde que eles tivessem o título da propriedade. O limite foi nesse sentido: ficar na região e mandar embora as companhias. Nesse sentido, o movimento foi vitorioso porque conseguiram obter o título da propriedade. Se pensarmos no limite da abrangência do movimento, podemos, por outro lado, pensar na experiência da organização e da luta na conquista de alguma coisa. Isso é algo que marcou o sudoeste. As pessoas até hoje são combativas, pois trazem a experiência como um instrumento para a conquista daquilo que viriam a querer em relação à terra. Se o limite é o limite da reivindicação, há anos de conversa, de organização.

IHU On-Line - Qual foi o papel das igrejas católica e evangélica na luta dos posseiros?

Iria Zanoni Gomes - Não existiu. No sudoeste, em 1957, aconteceu o contrário. Alguns padres defendiam as companhias de terra. Outros não se posicionaram. Já em 1960, a Igreja se instalou na região e os padres belgas vieram para a região. Inclusive, no próximo domingo acontece a Romaria da Terra em Francisco Beltrão. O movimento tem um significado para os sem-terras muito grande, pois é uma referência para justificar a importância da luta deles. Nesse momento, a Igreja fez um trabalho de conscientização através da liturgia. Esse papel a Igreja teve e tem até hoje, conscientizando o homem do campo, com o trabalho de agroecologia e fazendo um trabalho muito bonito de recuperar a memória camponesa da região.

IHU On-Line - A luta dos colonos teve algo a ver, ainda que remotamente, com as Ligas Camponesas e com a luta pela terra em Porecatu?

Iria Zanoni Gomes - Pelo que nós sabemos, não. Foi um movimento muito localizado. Em maio deste ano, veio a filha de um dos líderes de Porecatu. Vieram ainda dar seu depoimento mais sete pessoas do sudoeste e uma pessoa do sindicato do Paraná. O que ficou claro? A luta de Porecatu quem organizou foi o Partido Comunista. No caso do sudoeste, foi uma organização da população, sem ingerência e, se aconteceu, foi em segredo. Não teve a participação nem de pessoas de Porecatu ou das Ligas Camponesas. No sudoeste, tivemos alguns líderes, que utilizaram a rádio, instrumento de organização, para informar e comunicar. O principal deles foi o Walter Pecoir, que tinha o perfil de liderança porque, de todos eles, era o único com faculdade. Ele tinha uma liderança por natureza, junto aos comerciantes e era conhecido por todos os colonos da região. Ele conhecia as lideranças de cada lugar e, conseqüentemente, fazia as articulações. As crianças participavam do movimento como um elemento de articulação, comunicação. O que eu acho interessante nesse movimento não é essa visão de vanguarda. Eles vieram sendo colocados na situação de violência, se uniram e se organizaram para resolver os seus problemas.

IHU On-Line - O sudoeste do Paraná caracteriza-se como uma região de pequenas propriedades. A revolta dos posseiros teve influência nessa caracterização socioeconômica?

Iria Zanoni Gomes - Eu acho que a revolta sedimentou uma proposta que era de colonização da região. Quando a Cango começou, o processo de colonização era em cima de um modelo com 24 pedaços de terra. No entanto, havia diferenças, mas todas eram pequenas propriedades. Quando se fez a colonização, era feita em cima da pequena propriedade. O movimento veio para reforçar e contribuiu para sedimentar essa proposta que existia dentro da proposta do projeto do Getúlio Vargas. O movimento contribuiu para que a pequena produção familiar saísse vitoriosa.

IHU On-Line - É correto pensar que sem esse movimento social, o sudoeste seria hoje um latifúndio?

Iria Zanoni Gomes - Não sei se totalmente, mas provavelmente a estrutura agrária poderia ser muito diferente. O sudoeste poderia ter uma mescla: poderia favorecer a pequena produção familiar, mas tem partes que poderiam ter grandes propriedades. Existem médias propriedades, mas são pouquíssimas. E há também pedaços de terras que hoje são para os assentamentos do MST.

IHU On-Line - O movimento social da região do sudoeste do Paraná retém elementos da revolta dos posseiros?

Iria Zanoni Gomes - A Revolta é muita referência para o sudoeste ainda hoje. O que ficou para as pessoas foi a importância da organização, da união e da luta para a conquista da terra. Então, o movimento de 1957 não é só referência para o pessoal que trabalha no campo. Existe um movimento hoje de recuperação da lembrança do que aconteceu em 1957. Por exemplo, Francisco Beltrão lembra ainda do processo de colonização da região e, com isso, existe o museu do colono e a Casa de Cultura, que fazem um trabalho de recuperação da história da região. No ano passado, a Universidade do Paraná organizou um Seminário de História regional. Foi uma semana sobre a história da região sobre o movimento de 1957. Em outubro, irão lançar um livro com artigos sobre o movimento dos posseiros. Haverá comemorações nas câmaras de vereadores homenageando quem participou do movimento.

IHU On-Line - A `revolta dos posseiros` promoveu lideranças que chegaram à política paranaense?

Iria Zanoni Gomes - Sim. Vários. Por exemplo, o Ivo Tomazoni, que era o dono da rádio, foi deputado estadual. O Walter Pecoir foi também, e antes foi prefeito de Francisco Beltrão. Em 1964, inclusive foi preso, teve um olho furado pela repressão e depois ficou muito tempo fora da política, voltando como secretário da reforma agrária do estado. Ele sempre morou em Francisco Beltrão, até falecer, há dois anos. Há outros que foram filhos dos colonos e participaram ou participam também da política.

Notas:

(1) Órgão criado para coordenar o assentamento de migrantes oriundos principalmente do Rio Grande do Sul na região sudoeste do Paraná.

(2) Jânio da Silva Quadros foi presidente do Brasil entre 31 de janeiro de 1961 e 25 de agosto de 1961 — data em que renunciou.

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