O ser humano e a Terra. Uma relação insustentável. Entrevista especial com José Marengo

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16 Agosto 2007

A forma com que temos tratado a Terra tem sido insustentável ambientalmente. Sobre este assunto, a IHU On-Line entrevistou, por e-mail, o professor José Marengo. “Eventos extremos e intensos, como as ondas de calor na Europa de 2003 e, atualmente, a seca da Amazônia, a seca na Europa, os incêndios florestais, os furacões Katrina e Catarina são amostras do que poderia acontecer num clima futuro mais quente”, afirma Marengo, na entrevista a seguir.

José Antonio Marengo Orsini é graduado em Física e Meteorologia pela Universidade Nacional Agrária, no Peru, onde também realizou o mestrado em Engenharia de Recursos de Água e Terra. Na University of Wisconsin, nos Estados Unidos, realizou doutorado em meteorologia. Possui pós-doutorado pela NASA e pela Florida State University, nos Estados Unidos. É pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe e um dos cientistas do Grupo de Trabalho, que redigiu os quatro relatórios do IPCC. É autor de Mudanças climáticas globais e seus efeitos sobre a biodiversidade: caracterização do clima atual e definição das alterações climáticas para o território brasileiro ao longo do século XXI (Brasília: Ed. Brasília, 2006).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Al Gore, com "Uma verdade inconveniente", conseguiu influenciar os meios de comunicação e a população. Qual é o tempo de influência que esse documento pode ter?

José Marengo - Documentos impressos sobre aquecimento global estão aparecendo regularmente no meio científico, em revistas científicas altamente relevantes, como Science e Nature.  Mas o melhor seriam os três relatórios do IPCC AR4 liberados este ano, que apresentam o estado das análises climáticas do presente e projeções de clima do futuro. O filme de Al Gore baseia-se em evidências científicas até certo ponto.

IHU On-Line – O documentário foi importante para a divulgação dos problemas que causam o aquecimento global?

José Marengo - É um filme interessante, bastante didático e tem mostrado o tema das mudanças de clima e aquecimento global para audiências leigas de uma maneira clara e detalhada, mesmo que muito do seu sucesso tenha se dado em razão dos efeitos e das animações apresentados. De qualquer modo, embora também "Uma verdade inconveniente" tenha seja baseado 100% no contexto da realidade estadunidense, ele tem o mérito de ter levado o assunto das mudanças de clima até as audiências mundiais, com um moderado grau de impacto.

IHU On-Line - O aquecimento global foi a pauta do ano. A opinião pública está dando o devido valor a este problema? Por quê?

José Marengo - Sim, porque as evidências sobre aquecimento global já podem ser percebidas pela população e pelos meios de comunicação. Eventos extremos e intensos, como as ondas de calor na Europa de 2003 e, atualmente, a seca da Amazônia, a seca na Europa, os incêndios florestais, os furacões Katrina e Catarina, são amostras do que poderia acontecer num clima futuro mais quente. Além disso, a liberação do relatório do IPCC AR4 (Quarto relatório Científico) tem levado o assunto das mudanças climáticas a todos os níveis, desde a escola básica até as altas esferas do Governo Federal.

IHU On-Line - Recentemente um estudioso desta área afirmou que a iniciativa do IPCC  tem "falhas graves”. No entanto, foi através do relatório que o mundo teve certeza das condições do clima do planeta. Como o grupo formulador do IPCC tem reagido às críticas?

José Marengo - Eu não conheço este senhor e não concordo com as colocações dele. O IPCC não é uma ONG, nem uma universidade, nem um instituto, mas é um grupo de cerca de três mil cientistas de todo o mundo, que a cada quatro anos são convocados pela Organização Mundial de Meteorologia e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, para poderem avaliar o estado da arte do clima atual, apresentar e avaliar evidências de projeções de clima futuro e para antecipar os impactos desta mudança, assim como identificar vulnerabilidades, com o intuito de propor medidas de adaptação e estratégias de mitigação. O IPCC não é um ente político nem propõe linhas ou planos de pesquisa; os cientistas que o compõem avaliam os estudos já publicados. O IPCC foi formado em 1988 e não possui interferências dos meios de comunicação ou dos políticos. É possível que alguns cientistas tentem levar aspectos políticos aos trabalhos do IPCC, mas o painel é basicamente científico.

IHU On-Line - O que as altas concentrações de gás carbônico e metano e a mudança do regime de precipitação já tem influenciado no cotidiano do homem?

José Marengo - O aumento na concentração de gases de efeito estufa (entre eles CO2 e metano) pode ajudar a aquecer o planeta e, como conseqüência do aquecimento global, temos uma aceleração do ciclo hidrológico, o que pode afetar o regime de chuva, na forma de chuvas intensas e esporádicas seguidas de períodos secos ou veranicos mais freqüentes também. Isto tem sido observado em regiões como Sudeste, Centro-Oeste e Sul do Brasil, onde tem se observado, de 1951 até 2002, um aumento na freqüência de eventos extremos de chuva. As projeções dos modelos climáticos para os cenários do aquecimento global mostram que, de fato, eventos mais extremos de chuva podem ser mais freqüentes até finais do século XXI.  Isto certamente pode afetar a população, pois pode gerar mais enchentes nas cidades (onde, muitas vezes, as galerias pluviais foram subdimensionadas e até podem estar cheias de lixo), devido ao fato de que o excesso de água não pode ser eliminado pelo sistema atual de drenagem. Isto também afeta a população que mora perto de córregos e morros desmatados, favorecendo avalanches que podem soterrar casas e pessoas.

IHU On-Line - O senhor diz que ainda há muita falta de informação, principalmente entre os segmentos sociais capazes de implantar mudanças mais efetivas. O que políticos, técnicos e autoridades devem fazer imediatamente para que as conseqüências do aquecimento global possam ser diminuídas ao longo dos anos?

José Marengo - Falta convencer os setores chaves (governos municipal, estadual e federal).  Eu posso afirmar que neste ano, após os relatórios do IPCC, a população está mais ciente do problema e os governos já estão tomando ações para poder reduzir as emissões de gases de efeito estufa pela indústria e, certamente, para reduzir o desmatamento ao mínimo. Além disso, medidas de mitigação, como projetos de mecanismo de desenvolvimento limpo, estão sendo implantadas no Brasil, para, por exemplo, florestas serem plantadas, o que, de fato, pode tirar CO2 acumulado na atmosfera por muitos anos. Isso não vai reduzir as temperaturas, mas pelo menos pode reduzir a taxa de aquecimento, a fim de que, com isso, sejam atenuados os impactos e haja redução do grau de vulnerabilidade das comunidades humanas, dos setores econômicos e da biodiversidade às mudanças de clima.

IHU On-Line - Qual é a relação que o senhor faz entre clima e saúde?

José Marengo - O clima é uma variável chave na saúde e, certamente, pode piorar a situação se os governos não cuidarem desse setor. Sem investimentos, vacinas, cuidados com a água e cuidado com os mais vulneráveis (idosos, crianças, doentes), o clima pode piorar uma situação social atualmente já complicada. Em climas mais quentes e úmidos, doenças com vetores (mosquito), como a dengue e a malária, podem se espalhar em áreas onde atualmente não existem. Climas mais quentes e secos podem ter condições que favoreçam incêndios e queimadas, e a população poderia ficar mais exposta a doenças respiratórias. Problemas com a qualidade de água e leptospirose (produzida pelos ratos) podem gerar doenças no estômago, como a cólera.

IHU On-Line - Levar água ao semi-árido é, hoje, uma necessidade. Há diversos projetos que prevêem sanar com esse problema. Assim, gostaria de saber qual sua opinião sobre a transposição do Rio São Francisco e a construção das usinas hidrelétricas do Rio Madeira?

José Marengo - Em minha opinião, os estudos de impacto ambiental para a transposição do Rio São Francisco não consideraram a variável mudança de clima e isso poderia gerar graves problemas de gerenciamento de água.  O semi-árido tem um clima seco e quente com uma alta taxa de evaporação. Se no futuro os modelos mostram que o clima na região Nordeste poderia virar mais seco e quente, com uma taxa de evaporação ainda maior, típica de um deserto, muita água que sai do rio poderia evaporar rapidamente nos canais abertos e açudes, com grandes perdas de volume dela no caminho antes de chegar ao destino final. Além disso, a água terá que ser bombeada para níveis mais elevados em alguns trechos do projeto. Isso, geralmente, seria feito pelos geradores elétricos que usam gasolina ou querosene, o que aumentaria a emissão de gases de efeito estuda.

No Madeira o problema é outro: as turbinas poderiam ficar cheias de sedimentos, o impacto para a fauna pode ser grave e, perto de cidades como Porto Velho, a ocorrência de malária pode aumentar, pois a água parada no reservatório, num clima mais quente, apresentaria condições ótimas para esta doença.

IHU On-Line – Qual é a alternativa para que o poder e os interesses econômicos não prevaleçam sobre as questões ambientais?

José Marengo - Difícil de saber. Precisamos reduzir o desmatamento e aumentar a agricultura de soja e cana-de-açúcar, os empregos e geração de renda, tão necessários para o crescimento do país. O PAC - Programa de Aceleração do Crescimento - não considera esta mudança de clima, pois seus objetivos são de curto prazo. A mudança de clima está numa escala de mais longo prazo.  Não podemos ser 100% conservadores, mas também não podemos assumir um papel de 100% objetivos economicamente. Temos que ter uma harmonia, chegar a um equilíbrio, que basicamente representa o desenvolvimento sustentável.

IHU On-Line - Qual é a importância dos biocombustíveis para a manutenção do meio ambiente do planeta e a contenção do aquecimento global?

José Marengo - Os biocombustíveis poderiam representar uma fonte alternativa de energia, e, por exemplo, o etanol reduz a emissão de C02 em até 30% em relação ao que petróleo gera. Precisamos pensar em formas de reduzir as emissões de CO2 e o uso de etanol e gás nos veículos. Também temos que considerar outras fontes de energia mais limpa, como a energia solar e a eólica, assim como o metano gerado nos aterros sanitários. Porém, precisamos também ter a consciência de que, com as intenções de ter mais etanol, podemos involuntariamente afetar a vegetação nativa do Brasil (floresta Amazônica, Mata Atlântica cerrado) e as possíveis vantagens de etanol possam ser eliminadas com a mudança de vegetação da mata ou Amazônia para campos de cana.

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