"Uma política monetária e cambial totalmente inconsistente e que sangra o Estado". Entrevista especial com Bernardo Kucinski

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04 Agosto 2007

"Nossa economia é gerida hoje pelos “rentistas”, que têm excedente de renda aplicada no mercado financeiro. Isso inclui os rentistas de fora, em especial fundos de investimento estrangeiros", afirma Bernardo Kucinski em entrevista concedida, por email e complementada por telefone, à IHU On-Line. Para ele, a atual "política monetária e cambial é totalmente inconsistente"e que sangra o Estado, deixando-o sem recursos".

Kucinski é graduado em Física pela Universidade de São Paulo e doutor em Ciências da Comunicação pela mehsma instituição. De 2003 a 2006, foi assessor especial da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Atualmente, é professor titular da Universidade de São Paulo, junto à Escola de Comunicações e Artes - Departamento de Jornalismo e Editoração. É autor de vários livros, entre os quais citamos Cartas Ácidas da Campanha de Lula de 1998, São Paulo: Ateliê Editorial, 2000; Jornalistas revolucionários - Nos tempos da imprensa alternativa. 2. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2003; e Jornalismo na era virtual - Ensaios sobre o colapso da razão ética. São Paulo: Fundação Perseu Abramo; UNESP, 2005.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como está a questão dos investimentos na economia nacional hoje? Qual é a postura mais recomendável para quem investe atualmente em aplicação e em bolsa de valores?

Bernardo Kucinscki - A pergunta se refere às aplicações no mercado financeiro. Essas aplicações são bem remuneradas no Brasil porque a taxa básica de juros é alta e a inflação baixa. Mesmo a caderneta de poupança, rendendo 0,6% ao mês em média, isenta de imposto de renda, é uma excelente aplicação, com praticamente nenhum risco.

Com as recentes reduções da taxa básica de juros, as demais aplicações, que em geral rendem até 08 % a 1% ao mês, descontados os impostos e taxas de serviço, estão se aproximando do rendimento da poupança. Isso deixa nervosos os investidores que especulam muito no mercado. Por isso, também o Banco Central pode interromper os cortes na taxa básica (Selic), já que ele é fortemente influenciado pelo capital financeiro. As próximas duas reuniões do Copom, nesse sentido, são muito importantes.

Quanto à aplicação em bolsa de valores, ela não é recomendável às pessoas com poupança limitada porque são muito arriscadas. No Brasil, além disso, há poucas garantias para acionistas minoritários, manipulação de informação pelos analistas de mercado e muita malandragem, já que o mercado ainda é pequeno, limitado a poucas empresas. Só recomendo aplicar no Banco do Brasil e na Petrobras, mesmo assim só quando o mercado estiver em baixa, nunca quando estiver no topo de uma longa trajetória de altas, como é o caso agora. 

IHU On-Line - Quais são as influências da bolha imobiliária americana para a economia mundial? Como entender o que está acontecendo com o capital imobiliário nos Estados Unidos?

Bernardo Kucinscki - Os bens imóveis, especialmente residenciais, têm um papel especial como reguladores(ou desreguladores) da economia, porque apesar de serem bens de capital, são em geral pagos com renda de salário, exigindo, portanto, um mecanismo de financiamento. Além disso, servem também como reserva de valor. E, para piorar tudo, as construções são decididas com base em expectativas de demanda formadas entre um e cinco anos antes da demanda se efetivar (ou não se efetivar).

Estouros de bolhas imobiliárias são recorrentes. Por isso, chama-se “bolha.” É uma alta exagerada no valor dos bens imóveis, alimentada por especulação e excesso de dinheiro na região. As bolhas exigem que haja sempre mais dinheiro para pagar mais pelos bens, numa espiral ascendente. Quando, por algum motivo, às vezes distante do mercado imobiliário (uma seca, um desastre ou uma queda no emprego), o fluxo se interrompe ou perde vigor, os que estavam mais expostos são obrigados a vender, isso começa a derrubar os preços, outros seguem, e assim a bolha estoura.

IHU On-Line - Qual é a situação atual do mercado financeiro internacional? Qual é o grau de volatividade e qual o impacto disso na economia brasileira?

Bernardo Kucinscki - O mercado financeiro internacional hoje é um grande cassino no qual se jogam grandes quantias em cima de variações diminutas de valor, seja de uma moeda em relação à outra, seja de ações de empresas. O fator jogo passou a ser dominante com o colapso do tratado de Bretton Woods, que assegurava um grau de estabilidade nas taxas de câmbio e obrigava as moedas a terem lastro em ouro ou dólar. Nada disso existe mais. Daí a altíssima volatilidade das moedas, mesmo as moedas chamadas fortes, como o dólar e o euro. Também os títulos de refinanciamento das dívidas externas, surgidas na crise dos anos 1980 (os “bradies”), servem de fichas nesse cassino, pois são altamente voláteis. O impacto disso tudo na nossa economia se dá principalmente pela grande influência que esse capital financeiro tem sobre o processo decisório. Nossa economia é gerida hoje pelos “rentistas”, que têm excedente de renda aplicada no mercado financeiro. Isso inclui os rentistas de fora, em especial fundos de investimento estrangeiros.

IHU On-Line - O que o senhor pensa sobre a forma como Lula tem conduzido a política econômica em seu governo?  Com que olhos o senhor vê a política de juros e a política cambial que Lula e Guido Mantega têm defendido e sustentado?

Bernardo Kucinscki - A política macroeconômica é inconsistente. Por um lado, mantém juros muito altos, num nível anômalo para o capitalismo, um nível que só se justifica em momentos de grave crise e por períodos curtos para conter fortemente a demanda, e, por outro lado, estimula fortemente a demanda através de mecanismos novos de financiamento como o crédito contingenciado no salário. Essa inconsistência tem cobrado um preço muito elevado do Estado e dos cidadãos.

O principal custo é o pagamento de juros sobre a dívida interna. Além disso, os juros altos demais atraem dólares em excesso do exterior, apreciando o real, quebrando, com isso, alguns setores exportadores, como os têxteis e calçados. O governo, numa tentativa de aliviar o quadro, compra os dólares em excesso, mantendo, com isso, reservas exageradas de dólares no exterior. Essas reservas são remuneradas a um juro muito menor que o juro pago pelo governo para tomar emprestado os reais necessários para comprar os dólares. É uma política monetária e cambial totalmente inconsistente e que sangra o Estado, deixando-o sem recursos.

No entanto, a abundância de fatores de produção de nossa economia (terra, sol, água e mão de obra) é tal que, na conjuntura mundial de forte demanda por bens básicos, a grande parte das empresas conseguiu se adaptar ao câmbio desfavorável. Não se deu o colapso geral das exportações. Ao contrário, as empresas conseguiram aumentar a produtividade através de vários mecanismos, inclusive selecionando melhor seus produtos, importando mais componentes e mantendo salários o mais baixo possível. Na média, os salários diminuíram no Brasil em cerca de 10% desde o penúltimo ano do governo FHC, tendo se recuperado apenas em parte nos últimos dois anos. Com outra política macroeconômica, que só seria possível se tivéssemos reestruturado a dívida interna, o Brasil estaria crescendo hoje entre 7 e 10% ao ano e não os míseros 4%.

IHU On-Line - Quais são as piores conseqüências dos altos juros para o Brasil?  Como o senhor vê os investimentos estrangeiros no País?

Bernardo Kucinscki - A principal conseqüência dos juros altos é sangrar o Estado. Também inibe o investimento em produção. Os investimentos estrangeiros são basicamente especulativos, para ganhar, na diferença entre nosso juro e o juro lá fora, uma diferença hoje da ordem de 4 pontos percentuais por ano. O capital que vem para o setor produtivo é usado principalmente para comprar empresas, e não para aumentar a capacidade de produção. Mas há também um grande fluxo de capital para área de etanol, incluindo compra de terras por estrangeiros e participação em novas usinas. 

IHU On-Line - Como o senhor avalia o jornalismo econômico no Brasil hoje? Quais são os principais méritos e deficiências?

Bernardo Kucinscki - O mérito é a maior diversificação, principalmente através de revistas especializadas. Também se deve mencionar o jornal Valor, como um avanço no jornalismo econômico. As principais deficiências são o domínio do pensamento do capital financeiro, que hoje faz a cabeça da maioria dos comentaristas. Também se mantém a costumeira falta de precisão, erros freqüentes e grosseiros nos títulos e tratamento das estatísticas, falta de clareza, uso excessivo do jargão “economês”. E uma curiosa mistura de triunfalismo (quando se fala das exportações) e de negativismo (quando se fala das coisas do governo).

IHU On-Line - Considerando a história econômica do Brasil, quais são os principais entraves para o crescimento econômico brasileiro? Quais são as razões do travamento da nossa economia? E qual a responsabilidade, aqui, das falsidades financeiras e das problemáticas leis de mercado?

Bernardo Kucinscki - O principal problema é a falta de um projeto de desenvolvimento nacional e autônomo pactuado pelas forças produtivas e setores sociais relevantes. E o problema da falta de um projeto nacional é que nós viemos de duas, quase três décadas, de uma economia estagnada, na qual o único projeto existente era economizar o máximo possível para pagar dívidas. E nós entramos num novo ciclo em que há muita demanda pelas matérias-primas brasileiras, em que há um crescimento em toda a economia mundial, que acaba nos puxando.

No entanto, não temos um projeto nacional para otimizar essa oportunidade, para estabelecer metas e também para reformar o Estado e transformá-lo num Estado de desenvolvimento. Porque o Estado anterior foi feito para gerar uma crise recessiva e nós herdamos os instrumentos sem modificá-los. Mas o principal problema da falta de um projeto nacional é a falta de uma hegemonia nacional, de um setor da sociedade que seja hegemônico e que imponha esse projeto. A sociedade está muito fracionada, fragmentada.

Nós temos uma burguesia industrial débil, e, no entanto, ela não é insignificante. Temos uma burguesia agrária muito forte e mais forte ainda agora. Mas essa, historicamente, não tem interesse em projetos nacionais, apenas em exportar. Temos também uma classe média empobrecida e uma classe trabalhadora muito pouca organizada quando comparada com a de outros países no sentido de discutir políticas nacionais. Ela discute mais proteção aos seus interesses corporativos, defesa do salário etc.

Então, ficamos aí, ao sabor das circunstâncias, que é o que mais interessa realmente aos grupos econômicos: que não haja nenhum projeto, para cada um ir mais ou menos abocanhando e aproveitando as oportunidades. Porque qualquer projeto teria que estabelecer limites, prioridades, coibir e regular algumas coisas um pouco mais. Mas esse projeto não há.

IHU On-Line - E se nós pensássemos num projeto de desenvolvimento nacional ideal? O que faria parte dele e quem serviria de inspiração? Celso Furtado seria um nome?

Bernardo Kucinscki – Não só ele. Todos os que pensaram na idéia nacional. Certamente, ele é a referência mais importante. Mas nós vivemos num mundo diferente hoje, do mundo do Celso Furtado, que foi o mundo do pós-guerra, da Cepal, em que em todos os países se privilegiava a idéia do planejamento. Hoje, nós teríamos que ter um projeto nacional num mundo em que prevalece o não-planejamento, onde não há taxa de câmbio fixa nem ordem internacional nenhuma. O projeto nacional teria que passar pela integração da América Latina. O governo Lula tem clareza sobre isso. E é uma das partes em que podemos ver que há componentes para um projeto nacional, porque nós vivemos a era da formação dos grandes mercados.

IHU On-Line – E, para essa integração latino-americana funcionar, qual é a importância das energias alternativas, dos combustíveis latino-americanos?

Bernardo Kucinscki – O problema da integração é político e físico. O continente não tem sequer estradas que o liguem. É o continente mais atrasado do mundo nesse aspecto. Nós estivemos mais integrados em termos de estradas na época do império do que agora. Muitas estradas são abandonadas. Então, é preciso primeiro integrar fisicamente. As energias alternativas não têm importância muito grande na América Latina porque nós temos esse privilégio de ter muita energia hidrelétrica, que é a mais limpa, barata e conveniente. Não precisamos muito de energias alternativas. Mas, se for preciso, também isso não é um problema. Na verdade, é o excesso de energia que pode ser um problema para a América Latina, porque torna países como a Venezuela e a Bolívia objetos de cobiça. As potências estrangeiras vêm, corrompem, derrubam regimes, têm medo que haja um projeto de integração.

IHU On-Line – Mas e se os países latino-americanos souberem fazer uso deste “excesso” e se juntarem, isso não pode ser um instrumento para ganhar força no mercado internacional?

Bernardo Kucinscki – Pode, mas não precisa nem chegar aí. Antes de mais nada, é preciso aperfeiçoar a integração física e econômica. É necessário criar um Banco Latino-Americano de Desenvolvimento, e fazer algumas grandes estradas que liguem os países. É preciso, ainda, facilitar mais o trânsito das pessoas e dos capitais, aperfeiçoar o Mercosul, caminhar para uma moeda comum. A Europa começou pela energia, pelo carvão e aço. Nós não precisamos começar pela energia. Podemos também, mas já começamos de outra forma. Agora é ir para a frente.

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